Mal-do-Panamá ameaça oferta global de banana

Plantação de banana na Austrália: no país, fungo ainda está restrito a uma fazenda
Bevan Robson olha com pesar para um campo árido onde autoridades de biossegurança da Austrália exterminaram milhares de seus pés da banana com injeções letais. "Eles calculam que o mal-do-Panamá nos liquidaria em dois anos", diz o fazendeiro do Estado de Queensland, no nordeste da Austrália.

Os 162 hectares da família Robson, em Tully, estão no epicentro de uma praga que ataca as plantações de banana na região conhecida como Ásia-Pacífico e que, segundo a ONU, ameaça uma indústria que movimenta globalmente US$ 36 bilhões por ano. Um ano atrás, a fazenda do australiano foi infectada pela cepa Tropical Race 4 (TR4) do fungo que causa a doença, que se espalha rapidamente e está dizimando plantações em toda a Ásia.

"O TR4 é considerado um risco maior, uma vez que a produção mundial de banana depende muito da variedade Cavendish, que é suscetível à praga", diz Fazil Dusunceli, especialista em patologia vegetal da ONU. O TR4 foi detectado pela primeira vez em Taiwan em 1990. Ele se espalhou rapidamente, destruindo plantações na Indonésia, Malásia, Filipinas e norte da Austrália. Nos últimos três anos, infectou fazendas no Oriente Médio, África e Queensland, levando a ONU a requisitar quase US$ 50 milhões em recursos para combater a epidemia.

A preocupação com o TR4 é tamanha que a indústria da banana transferiu o local de seu encontro anual, o International Banana Congress, da Costa Rica para Miami, para que os delegados não espalhassem o fungo na América Central. Discussões sobre como combater o TR4 estarão na pauta na semana que vem. "O mal-do-Panamá é causado pelo fungo fusarium, que infecta as bananeiras pelas raízes e provoca um definhamento que acaba matando as plantas", diz Tony Pattison, um cientista do governo de Queensland. "É quase impossível curar as plantas infectadas ou remover o fungo do solo."

O fungo se espalha com movimentos do solo, provocados geralmente por trabalhadores, máquinas, animais ou alagamentos. Pattison afirma que os temores da ONU e da indústria global são justificados, já que a primeira cepa do mal-do-Panamá destruiu o mercado exportador global na década de 1950 – então dominado pela variedade Gros Michel. Isso forçou os produtores a mudar a produção para a variedade Cavendish, que é resistente à primeira cepa da praga, mas não à TR4.

As bananas Cavendish são apropriadas para a exportação. São populares junto aos consumidores, suportam longas jornadas pelos mares e são facilmente comercializadas, graças ao tamanho e formato padronizados. A variedade responde por até 95% das exportações globais de banana, mas resulta em uma vasta monocultura que torna as plantas mais vulneráveis a epidemias.

Autoridades da ONU estão tentando conter a TR4 antes que a cepa chegue à América Latina, onde enormes fazendas produzem três quartos das frutas exportadas no mundo. Uma parte da solução pode ser encontrada em Tully, onde o surto até agora está restrito a uma única fazenda. Os plantadores de banana de Tully ergueram cercas para impedir a movimentação de animais, limitaram o tráfego humano e de máquinas e começaram a pulverizar carros e sapatos dos trabalhadores. As autoridades criaram um sistema de vigilância de alerta precoce e programas educacionais para os produtores e estão fazendo testes de todo o material vegetal novo contra a TR4.

"A detecção antecipada é vital para que as autoridades implementem a quarentena", diz Rebecca Sapuppo, líder do programa de biossegurança de Queensland contra a TR4. Porém, especialistas dizem que a falta de um plano de compensação adequado para os plantadores vítimas da praga, é uma fraqueza em muitos países, incluindo a Austrália.

As discussões entre a indústria bananeira da Austrália e Robson sobre a compra de sua produção e o fechamento de sua fazenda até agora não deram em nada. Durante as negociações, uma quinta infecção pela cepa TR4 foi detectada. Robson diz que se sente abandonado pela indústria bananeira da Austrália. "O perigo é que sem um sistema de compensação adequado, os produtores poderão não admitir que têm a doença", diz André Drenth da Universidade de Queensland. Ele chama atenção para a experiência na Ásia, onde muitos plantadores não conseguiram detectar a TR4 por falta de informação adequada, permitindo sua rápida disseminação. (Tradução de Mario Zamarian)

Por Jamie Smyth | Financial Times

Fonte: Valor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *