Maior assembleia ambiental do mundo começa em luto por queda de aeronave

A maior reunião ambiental do mundo, que acontece esta semana nos escritórios das Nações Unidas em Nairóbi, a capital do Quênia, começa em luto.

No acidente com avião da Ethiopian Airlines que caiu ontem pela manhã, seis minutos depois de decolar de Addis Ababa, todas as 157 pessoas a bordo morreram. Muitos eram delegados e participantes da Assembleia Ambiental das Nações Unidas (Unea) que começa hoje.

Pelo menos 19 pessoas de agências das Nações Unidas morreram no desastre.

O Programa Alimentar Mundial (WFP) perdeu seis funcionários. Da agência que lida com refugiados (Acnur) morreram duas pessoas, assim como da União Internacional de Comunicações (ITU, em inglês). Outros cinco trabalhavam nos escritórios da ONU em Nairóbi. Morreram funcionários da FAO, do Banco Mundial, da Missão na Somália e da Organização Internacional para Migração.

"Estamos devastados pelo o que aconteceu", disse a economista dinamarquesa Inger Andersen, que deve assumir o cargo de diretora executiva da ONU Meio Ambiente, ao jornal britânico "The Guardian". "Esta é uma casa em luto, mas uma casa que ainda não conhece todos os fatos".

Para a Unea, que está em sua quarta edição, são aguardados mais de 80 ministros de Meio Ambiente, inclusive o brasileiro Ricardo Salles. Entre delegados, chefes de Estado, ministros, empresários, cientistas e ambientalistas, a assembleia deve reunir 4.700 pessoas. O presidente francês Emmanuel Macron deve comparecer à assembleia, assim como o do Quênia, Uhuru Kenyatta.

Um relatório da ONU Meio Ambiente (nome fantasia do Programa das Nações Unidas para o Meio Ambiente, Pnuma) de dezembro indica a dimensão dos problemas ambientais no mundo e relaciona os motivos para que ações sejam tomadas com urgência.

Segundo o estudo "Soluções inovadoras para os desafios ambientais e o consumo e produção sustentáveis" a perda de serviços ecossistêmicos entre 1995 e 2011 é estimada entre US$ 4 trilhões e US$ 20 trilhões. Práticas agrícolas não-sustentáveis aumentam a pressão ambiental e custam algo perto de US$ 3 trilhões ao ano. Os custos relacionados à poluição podem alcançar US$ 4,6 trilhões ao ano.

O eixo central da 4ª edição da Unea é propor maneiras para tornar a produção e o consumo mais sustentáveis. Existem 28 resoluções a serem aprovadas na sexta-feira. Vão desde temas como combater o desmatamento aos caminhos para a implementação de medidas de combate ao lixo plástico nos oceanos. Ou estabelecer prazos para reduzir o consumo de artigos de plástico que são usados apenas uma vez.

Outra resolução que está sendo negociada é a abertura de dados e informações globais relacionados a meio ambiente. Os Estados Unidos e a China se opõem. "A China não quer divulgar seus dados porque entende que informação é poder. Os Estados Unidos, por sua vez, não querem ser cobrados por isso", diz um delegado.

Os delegados dos Estados Unidos têm sido acusados de reduzir a linguagem que dá força a todas as resoluções. Se a Noruega sugere um novo instrumento internacional, legalmente vinculante, para combater a poluição nos oceanos, os EUA propõem um singelo "diálogo multisetorial".

O Brasil, por seu turno, não quer que se aprove o combate ao desmatamento sem que a palavra "ilegal" acompanhe o esforço.

Durante a semana, dois relatórios importantes serão lançados – o GEO 6, que retrata o cenário ambiental global hoje, e outro sobre o uso de recursos naturais.

"O que se discute aqui é a mudança na maneira de produzir e consumir e a visão de desenvolvimento", diz a ex-ministra de Meio Ambiente Izabella Teixeira, co-chair do Painel Internacional de Recursos.

"Temos que sair da economia linear para a economia circular", continua. "Estamos vivendo uma era de transformação em que a prioridade é pensar no desenvolvimento orientado pelo enfrentamento da mudança climática e pela gestão eficiente dos recursos naturais."

A jornalista viajou à Unea a convite da ONU Meio Ambiente

Por Daniela Chiaretti | De Nairóbi

Fonte : Valor

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