Lutzenberger e a militância pela agricultura ecológica, por Elenita Malta Pereira*

Recentemente, a Associação Brasileira de Saúde Coletiva (Abrasco) divulgou o dossiê “Agrotóxicos, segurança alimentar e saúde”, elaborado por pesquisadores preocupados com o aumento do uso de agrotóxicos no país e a contaminação do ambiente e das pessoas. O ecologista José Lutzenberger, cujo falecimento completa 10 anos neste 14 de maio, fez da luta contra o uso dos agrotóxicos uma de suas principais causas.
É interessante constatar no documento da Abrasco pontos que Lutzenberger costumava tratar na crítica aos agroquímicos. O dossiê questiona o conceito da Ingestão Diária Aceitável (IDA), através do qual estudos experimentais isolados determinam valores “aceitáveis” de exposição humana aos produtos tóxicos. Lutzenberger era crítico ferrenho da IDA. Em sua visão, esse conceito não leva em conta os efeitos crônicos do consumo desses produtos, nem os efeitos sinergéticos, ou seja, da interação de uma substância com a outra, já que são utilizadas várias ao mesmo tempo nas lavouras.
Para conter o excesso de química no campo, o dossiê sugere políticas públicas de controle e regulação dos agrotóxicos e, principalmente, a prática da agroecologia, como uma “estratégia de promoção da saúde”. Para Lutzenberger, lutar contra os agrotóxicos era lutar pela agricultura ecológica. Ele via a agricultura sem insumos químicos como fonte de melhoria de vida, de saúde tanto do agricultor quanto da população em geral.
Além de colaborar para que o termo “agrotóxico” ficasse registrado na legislação gaúcha, através de um trabalho conjunto entre ecologistas e Legislativo, em 1982, Lutzenberger participou de debates inéditos no Estado com especialistas no tema (vários publicados na ZH, nos anos 1970-80). Contribuiu também para a pesquisa acadêmica sobre agroecologia, sugerindo bibliografia e orientando informalmente estudantes de Agronomia; proferiu inúmeras palestras sobre o assunto; prestou consultoria a agricultores e criou a Fundação Gaia para incentivar a agricultura ecológica.
A expansão da produção e da procura por alimentos orgânicos, hoje, deve-se, em grande parte, à atuação de Lutzenberger, desde os anos 1970, pela promoção da agricultura ecológica em todo o Brasil. Certamente, se vivo, o “velho Lutz” leria com prazer o dossiê e daria seu total apoio. Mas ficaria feliz mesmo com a conscientização cada vez maior das pessoas, algo que ele ajudou a construir.

*DOUTORANDA EM HISTÓRIA (UFRGS)

Fonte: Zero Hora

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