Liderança na importação de arroz passa às mãos da China

Ariana Lindquist/Bloomberg / Ariana Lindquist/Bloomberg
Política de sustentação de preços do governo chinês muitas vezes deixa a produção doméstica mais cara que as importações para as beneficiadoras do país

Segundo um antigo provérbio chinês, "sem arroz, nem mesmo a dona de casa mais engenhosa consegue cozinhar". E hoje as chances de as donas de casa da China ficarem sem o grão são muito pequenas. Mas o país, que tem uma ampla oferta doméstica graças a níveis de produção quase recorde, deverá se tornar este ano, pela primeira vez, o maior importador de arroz do mundo, superando a Nigéria.

Historicamente, a China sempre foi o maior produtor e consumidor de arroz do mundo. Exceto pelas safras prejudicadas pelo clima, o país sempre foi um exportador líquido, com embarques de seus excedentes de produção para a Ásia e a África. Em 1998, a China foi o quarto maior exportador global, com uma fatia de 14% do mercado mundial, segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA).

Mas, nos últimos três anos, a China passou a ser um importador líquido de arroz, comprando ativamente de países como o Vietnã, Paquistão e Mianmar.

O fator determinante para o aumento das importações foi que as beneficiadoras chinesas passaram a recorrer ao arroz importado, mais barato, quando a política de preços do governo chinês provocou acentuadas altas domésticas. "Como o custo do arroz doméstico está muito maior para as empresas do que o custo do arroz importado, elas estão preferindo importar", afirma Ma Wenfeng, analista da Beijing Orient Agribusiness.

Para incentivar a produção agrícola, a China vem fornecendo subsídios aos agricultores, além de instituir um preço mínimo para certos grãos para reduzir a volatilidade do mercado doméstico de arroz. Entretanto, isso levou os preços de alguns produtos a se "desconectarem" do mercado internacional.

O preço mínimo do governo chinês para o arroz doméstico de grão longo está em US$ 420 a tonelada, mas os preços no mercado à vista (spot) estão em torno de US$ 600, cerca de 50% maiores que os do arroz vietnamita.

Em 2012, a China importou 2,9 milhões de toneladas de arroz, em comparação às 3,4 milhões da Nigéria. Neste ano, as compras chinesas deverão chegar a 3 milhões de toneladas, e as da nação africana, a 2,4 milhões de toneladas. "As importações de arroz da China são um fenômeno em grande parte político", diz Fred Gale, economista sênior do USDA. "O governo chinês vem usando as políticas de apoio aos preços para impedir a queda dos preços e manter as margens de lucro para os agricultores."

O destaque crescente do país no mercado mundial de arroz estaria preocupando mais os traders não fosse o recente crescimento da produção mundial. Segundo o USDA, a produção mundial do cereal deverá atingir o recorde de 479 milhões de toneladas nesta temporada 2013/14 – graças, pelo menos em parte, aos subsídios governamentais nos maiores países exportadores, como Índia e Tailândia.

O estoque oficial de arroz da Tailândia, de 17 milhões a 18 milhões de toneladas, quase metade do comércio mundial do grão, é resultado da política do país de comprar o produto para melhorar a renda dos agricultores e também está contribuindo para a expectativa de queda nos preços. Com a nova safra tailandesa com colheita prevista para outubro, Bangcoc precisa se desfazer do estoque existente para levantar recursos para as novas compras. Assim, essa perspectiva vem pesando sobre os preços do arroz.

Em meio ao ambiente de queda, "as poucas perspectivas promissoras no mercado incluem as crescentes importações da China", diz Samarendu Mohanty do International Rice Research Institute.

Outro motivo citado por alguns analistas para a alta das importações chinesas de arroz é o temor recente de contaminação por cádmio. A possibilidade de poluição do solo está afetando os grãos provenientes de Hunan e Guangdong, e pode ter contribuído para o aumento das compras nos mercados internacionais, afirmam os analistas.

A questão que mais vem preocupando os traders é se a China continuará sendo um país importador líquido de arroz, como acontece com outros cereais, ou retomará sua participação menor na arena internacional, concentrando-se na produção doméstica. O país é o maior importador de soja do mundo e suas compras de milho nos mercados internacionais também estão aumentando. As chuvas pesadas em algumas regiões produtoras significam que a China se tornará o segundo maior importador de trigo do mundo neste ano-safra, perdendo apenas para o Egito.

Samarendu Mohanty afirma que, em consequência da crescente demanda do país por alimentos, se o governo chinês não tentar barrar as importações com barreiras comerciais "é razoável supor que as importações chinesas continuarão no ritmo atual no curto e médio prazo".

Entretanto, diante do aumento das importações agrícolas, começam a surgir na China preocupações com a autossuficiência e a segurança dos alimentos, com a imprensa local publicando artigos sobre a falta de competitividade do setor agrícola do país.

Em mais um sinal de que as autoridades estão alertas, um relatório divulgado pelo Ministério da Agricultura no começo deste ano apontou para o fenômeno dos preços, que estão de "cabeça para baixo", observando a crescente diferente de preços entre as commodities alimentícias no mercado doméstico e nos mercados internacionais.

A China tem cotas tarifárias para as importações de arroz, mas grandes quantidades do grão são contrabandeadas através de suas fronteiras, afirmam analistas. No fim das contas, serão os preços internacionais que vão determinar o nível das importações de arroz da China. "O fluxo futuro de arroz vai depender de preços menores nos países fornecedores do que na China", afirma Gale. (Tradução de Mario Zamarian)

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Fonte: Valor | Por Emiko Terazono | Financial Times

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