Leite contaminado no Estado

Operação prendeu oito pessoas e expôs esquema de adição de ureia ao leite para ganho econômico

A Operação Leite Compen$ado, desencadeada ontem pelo Ministério Público (MP) do RS, com o apoio do Ministério da Agricultura (Mapa), da Receita Estadual, da Polícia Civil e da Brigada Militar, resultou na prisão de oito pessoas – sete em Ibirubá e uma em Guaporé. A ação teve como objetivo cumprir nove mandados de prisão – até ontem à noite, uma pessoa não havia sido localizada – e 13 de busca e apreensão em Ibirubá, Guaporé e Horizontina. Foram apreendidos dez caminhões de transporte de leite.

Os presos, em caráter preventivo, foram levados ao Presídio de Espumoso. Um ficou em Guaporé. Ele eram ligados a cinco transportadoras suspeitas de adulterarem o produto cru. Ontem à noite, após prestarem depoimento, dois suspeitos foram liberados.

Segundo o MP, a adulteração era feita a partir da adição de água e ureia ao leite, substância que, ao ser diluída em água, dá origem ao formol, químico considerado cancerígeno pela Agência Internacional para o Câncer e pela OMS.

Segundo o promotor de Justiça Mauro Rockenbach, a investigação aponta que essas empresas teriam transportado 100 milhões de litros de leite entre abril de 2012 e maio de 2013. Estima-se que 1 milhão de quilos de ureia tenham sido adicionados ao leite. Amostras coletadas na apuração, em supermercados da Capital, apontaram fraude em lotes de leite UHT das marcas Bom Gosto/Líder, Mu-mu, Italac e Latvida. A movimentação financeira com a fraude pode chegar perto de R$ 10 milhões. ‘Não afirmo que toda quantidade tenha sido adulterada, mas há registro de compra de ureia pelos empresários desde 2009’, declarou Rockenbach.

Uma das formas de adulteração identificadas é a adição de substância semelhante à ureia na proporção de 1 quilo deste produto para 90 litros de água e mil litros de leite. Em um dos locais onde era feita a mistura, uma propriedade rural no município de Ibirubá, foi verificado que a água adicionada ao leite vinha de um poço artesiano, sendo, possivelmente, contaminada. Amostras foram levadas para análise do Ministério da Agricultura. ‘Ouso dizer que este crime é mais grave que o tráfico de drogas, onde o traficante vende para quem quer comprar. No caso do leite, o produto é entregue adulterado para todos nós, que consumimos sem saber do perigo que representa para a saúde’, afirmou Rockembach.

A adulteração consiste em crime hediondo de corrupção de produtos alimentícios previsto no artigo 272 do Código Penal, que prevê de quatro a oito anos de reclusão e multa. Rockembach isentou as indústrias de envolvimento na adulteração, mas apontou falha no controle.

A Operação Leite Compen$ado ainda interditou a fábrica da Latvida, em Estrela, que também está proibida de vender qualquer produto. O motivo é o descumprimento de decisão judicial que vetou a venda dos leites UHT desde 1 de abril. O Mapa ainda interditou ontem um posto em Guaporé, um em Selbach e outro em Crissiumal.

A investigação da Operação Leite Copmpen$ado começou em março deste ano, depois de o Mapa ter confirmado, no segundo semestre de 2012, a presença de formol em amostras de leite.

Conforme a chefe de Defesa Agropecuária do Mapa, Ana Lúcia Stepan, a fraude buscava elevar o volume com acréscimo de água e manter as proteínas do leite com a ureia. ‘Os responsáveis pelo processo não eram leigos’, frisou. Com o aumento do volume transportado, os ‘leiteiros’ (responsáveis pelo transporte e coleta) lucravam 10% a mais que os 7% já pagos sobre o preço do leite cru.

De acordo com Rockembach, os envolvidos conheciam o risco para o consumidor. ‘Em escuta telefônica, um empresário pedia ao seu motorista que, antes da mistura de água e ureia, separasse o leite bom para ser consumido por sua família’, citou. Ainda foi apurado que um grupo sabia com antecedência a data da visita de fiscais do Mapa aos postos de recebimento do leite para coleta de amostras. Avisados, os empresários não enviavam o produto fraudado nestes dias.

Lotes confiscados

Italac Integral (lotes L05KM3, L13KM3, L18KM3, L22KM4 e L23KM1)

Italac Semidesnatado (lote L12KM1)

Bom Gosto/Líder UHT Integral (lote TAP1MB)

Mu-mu UHT Integral (lote 3ARC)

Latvida UHT Desnatado (fabricação em 16/02/2013 e validade até 16/06/2013)

Obs.: Consumidores que tiverem em suas casas leites dos referidos lotes ou identificarem a presença do produto no comércio podem informar o Ministério Público por meio do e-mail consumidor@mp.rs.gov.br. É importante destacar marca, número do lote e data de fabricação.

Fonte: Correio do Povo

Compartilhe!