LEITE – Clima afeta produção brasileira e preço do leite deve se manter em alta até 2021

Atraso na recuperação das pastagens, maiores custos de produção e queda na produtividade afetam a oferta nacional

+leite-produtor-vaca (Foto: Getty Images)

(Foto: Getty Images)

Com preços em patamares recordes no campo, a oferta nacional de leite sofreu mais um golpe no início deste mês, quando era esperada uma alta sazonal na produção.

Com as pastagens ainda impactadas pela seca que atingiu o Centro-Sul do país, as temperaturas elevadas no início da primavera diminuíram a produtividade do rebanho nacional e adiaram para novembro a recuperação da oferta esperada para final de setembro e início de outubro.

“Os últimos 15 dias, principalmente na região central do Brasil. foram muito quentes, de umidade do ar baixíssima, e isso acaba gerando uma condição de estresse nos animais”, explica Marcelo Costa Martins, diretor da  Associação Brasileira de Laticínios (Viva Lácteos).

Embora seja esperada uma recuperação na produção ao longo dos próximos meses, a situação em todas as regiões de produção do país, com exceção dos Estados do Sul, é de “caos consolidado”, como explica o presidente da Associação Brasileira de Produtores de Leite (Abraleite), Geraldo Borges.

“Nós estamos tendo esse problema de clima em todo o Brasil. Isso é fator climático, não é choradeira e interfere, sim, na produtividade. Mexe na dieta dos animais e gera, de certa forma, uma menor produtividade e uma menor produção”, aponta Borges.

No acumulado do ano, o preço médio recebido pelo produtor de leite no Brasil registra alta de 42,5% até setembro, segundo o Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), sendo 39,7% de alta só nos últimos três meses.

Segundo o agrometeorologista da Climatempo, João Castro, o cenário das últimas semanas foi atípico, provocado por uma massa de ar quente e seco que se manteve estacionada no centro-sul do país.

“Essa massa de ar quente e seco já foi embora e a tendência é a temperatura ficar dentro da média para esta época do ano até dezembro, inclusive com algumas regiões levemente abaixo da média”, aponta Castro.

O perigo maior, explica o agrometeorologista, encontra-se a partir do início do ano que vem, quando as previsões são de temperaturas até três graus acima da média nas principais bacias leiteiras do país.

“Esse alívio se mantém, de maneira geral, até dezembro. Depois de dezembro, vem o verão, impacto do La Niña, diminuição progressiva das chuva e tudo isso caminha junto”, ressalta Castro, ao alertar para uma recuperação parcial das pastagens nos próximos meses, dada a má distribuição das chuvas pelo país.

“No Centro-Sul como um todo, é esperado esse padrão, escapando somente o mês de janeiro, que promete ser chuvoso desde o Paraná até o Matopiba (região que abrange Maranhão, Tocantins, Piauí e Bahia), bem como no Triângulo Mineiro, que também deve ter chuvas dentro da média”, alerta o agrometeorologista.

O resultado dessas chuvas, segundo explica o analista da Scot Consultoria, Rafael Ribeiro, serão decisivos para a capacidade de suporte das pastagens durante o verão de 2021. “Se a gente tiver uma situação de déficit como foi em setembro ao longo dos próximos meses e chegar em dezembro e janeiro e não chover, aí a situação vai ficar bastante complicada”, ressalta Ribeiro.

Ele ressalta que o último trimestre do ano é, tradicionalmente, de menor demanda e maior oferta, o que já deve indicar queda nas cotações a partir de novembro, com parte das pastagens já recompostas. O alívio nos preços ao consumidor, contudo, não deve reverter a alta acumulada neste ano, que chega a 34,5%no varejo paulista, segundo cálculos do Instituto de Economia Agrícola do Estado (IEA).

“É esperado um alívio e uma redução no atacado e no varejo, mas, ainda assim, os preços desse produto devem ficar acima do que foi no mesmo período do ano passado em função dessa forte alta que teve”, avalia o analista, ao apontar uma possível recuperação da demanda a partir de 2021, com a reabertura gradual da economia, em meio à continuidade de uma oferta limitada, dada as condições climáticas e os elevados custos de produção.

“Sazonalmente, os preços caem no primeiro semestre por conta da safra e voltam a subir a partir de fevereiro e março. Nos próximos meses, começa a ganhar força o viés de baixa, mas esse mercado deve se estabilizar para voltar a reagir a partir do início do ano que vem”, conclui o analista.

CLEYTON VILARINO

Fonte : Globo Rural

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