Leilão registra forte queda de preço

Fonte: Valor | Josette Goulart, Fábio Pupo e Claudia Schüffner | De São Paulo e do Rio

Energia: Valor médio do insumo em térmicas a gás, eólicas e biomassa é o menor já negociado

Alexandre Campbell/Valor

Eduardo Karrer, presidente da MPX: elemento de competitividade imbatível

Os preços da energia despencaram no leilão para entrega no curto prazo realizado ontem e registraram os menores valores históricos para térmicas a gás, biomassa e eólicas. Na média, a energia eólica foi vendida a R$ 99,58, refletindo diretamente a queda dos custos de equipamentos. Já as duas térmicas a gás natural, da MPX e Petrobras, venderam energia a um preço médio de R$ 103 o MWh, se aproximando do custo de usinas hidrelétricas. No mesmo leilão, a expansão de Jirau foi negociada a R$ 102 o MWh.

Ao todo foram negociados mais de 1.500 MW médios de potência, que vão exigir investimentos da ordem de R$ 6,5 bilhões em apenas dois anos e meio. "O que vimos é que houve equilíbrio, e não domínio de determinada fonte. Como prevíamos, houve um empate entre usinas a gás e as eólicas em termos de capacidade", disse Maurício Tolmasquim, presidente da Empresa Brasileira de Pesquisa Energética (EPE). A competição entre as duas fontes foi bastante polêmica no período pré-leilão. No resultado final, cada fonte terá uma capacidade instalada de 1.200 MW, mas foram as térmicas a gás que negociaram o maior volume de potência, com 880 MW.

As duas térmicas controladas pela MPX e Petrobras não deram chances para outros competidores dessa fonte de energia. O presidente da MPX, Eduardo Karrer, disse que o leilão mostrou que quem tem acesso à matéria-prima tem um elemento de competitividade imbatível. O grupo de Eike Batista é dono de reservas de gás no Maranhão e vai usá-lo para gerar energia na usina vencedora, que terá capacidade de 500 MW. O contrato fechado para fornecimento de gás prevê que a usina ficará gerando na média entre 50% e 60% do tempo nos próximos 20 anos. A empresa vai investir mais de R$ 1 bilhão nesse projeto.

Na parte eólica, segundo Tolmasquim, a queda dos preços, que no leilão anterior ficaram em torno de R$ 117, mostram a forte competição da indústria de equipamentos. Quase uma dezena de grupos já se instalou no Brasil e hoje já são em maior número do que o de fornecedores de turbinas hidrelétricas. "Essas indústrias, quando entram, entram de forma agressiva, querendo criar mercado. Então, isso está levando a uma queda de preço. Tem as questões do financiamento, além de isenção de ICMS nos Estados, o que faz com que esse preço baixe", disse Tolmasquim.

O presidente da Associação Brasileira de Energia Eólica (ABEólica), Ricardo Simões, disse que vê com preocupação a forte queda dos preços. "As margens estão muito baixas e não pode haver surpresas na execução desses projetos para eles terem retorno", afirmou.

Entre os grandes vencedores estão a Renova, que teve parte de seu capital adquirido pela Light, o grupo espanhol Endesa e a Eletrosul, em parceria com a Rio Bravo Investimentos. Os menores preços da energia ficaram com usinas a serem construídas pela Eletrosul.

Um dos empreendimentos, o de Cerro Chato, chegou a fechar negócio por R$ 97,17 o MWh e o presidente da empresa, Luiz Mescolotto, corrobora o que disse Tolmasquim: "Compramos equipamentos produzidos no Brasil com preços chineses."

A argentina Impsa e a espanhola Gamesa, que têm fábricas no Nordeste, serão as fornecedoras para os 21 parques vencedores, com capacidade total de quase 500 MW, que pertencem à Eletrosul. A empresa terá 49% dos empreendimentos para que os parques sejam privados e assim a companhia não tenha que seguir a regra de lei de licitações. A Rio Bravo Investimentos será sócia em parte deles e o FIP Rio Bravo e o fundo de pensão dos funcionários da Eletrosul na outra parte.

A Eletrosul ainda foi vencedora por Jirau, onde detém 20% de participação e é sócia da GDF Suez, Chesf, Funcef e Camargo Corrêa. A hidrelétrica vendeu 209 MW médio nos leilões e vai garantir assim a expansão da usina. A concessionária garantiu uma receita adicional de R$ 5,6 bilhões com a venda de energia ao longo dos 30 anos previstos no contrato. Se for contabilizada a venda de toda a energia dos 73% de insumo já contratado, a receita durante o contrato sobe para R$ 35,6 bilhões.

"Estamos muito satisfeitos por estarmos contribuindo para o setor de energias renováveis. O leilão também vai permitir um suporte adicional para o projeto Jirau junto ao BNDES. Em resumo, estamos bastante satisfeitos", disse Maurício Bähr, presidente do International Power (IPR)-GDF Suez.

A venda no leilão viabiliza a instalação de mais seis turbinas em Jirau, cujo projeto original previa 44 máquinas. As novas unidades elevam em 450 megawatts (MW) a capacidade instalada da hidrelétrica, e em 300 MW a energia assegurada. Nesse momento foi autorizada a venda de 209 MW, comprados por R$ 102 por megawatt/hora (MWh), equivalentes a US$ 64 por MWh para entrega a partir de 2014. Outros 90 MW assegurados na expansão serão vendidos no futuro, explicou Bähr. Segundo ele, falta concluir negociações com o Ministério de Minas e Energia e a EPE sobre os níveis de operação, mas Bähr não tem dúvidas sobre o assunto.

A vitória das usinas eólicas e a gás natural no leilão de ontem foi considerado um sinal positivo para a diversificação, segundo a CCEE. "O gás natural, além de abundante, mais barato e menos poluente, é considerado pouco usado na matriz", analisa o presidente do conselho de administração da CCEE, Luiz Barata Ferreira. As pequenas centrais hidrelétricas não tiveram condições de competir com Jirau e ficaram de fora. Hoje o governo realiza o leilão de reserva e eólicas, biomassa e PCHs voltam a competir.

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