Leilão frustra expectativas do setor do carvão

Certame disputado nesta quinta-feira não contemplou usinas termelétricas que utilizam os combustíveis fósseis

Jefferson Klein

JONATHAN HECKLER/JC

Simas atribui ao preço o fracasso do carvão no leilão de energia

Simas atribui ao preço o fracasso do carvão no leilão de energia

Antes de começar o leilão de energia promovido pelo governo federal nesta quinta-feira, havia uma expectativa muito grande se o certame viabilizaria ou não uma nova termelétrica a carvão no município de Candiota. No início da tarde, houve a confirmação: o projeto Seival, de 600 MW (cerca de 15% da demanda média do Estado), da empresa MPX, não conseguiu vender a sua produção de energia e, por consequência, garantir a sua construção. O investimento no complexo é estimado em cerca de R$ 3 bilhões.
Além dessa usina, o empreendimento a carvão da empresa Ctsul, a ser instalado em Cachoeira do Sul, estava habilitado para participar da concorrência. No entanto, o presidente do grupo, Douglas Carstens, já havia manifestado anteriormente que, devido ao preço-teto estipulado para o carvão no leilão, de R$ 140,00 o MWh, o projeto não concorreria no certame. No leilão, vende a energia e “sai do papel” o projeto que ofertar o menor custo de geração.
Em nota, a MPX informou que também desistiu de participar do leilão. A iniciativa foi tomada justamente devido ao preço-teto estipulado para as termelétricas, “entre outros itens importantes”, segundo o comunicado. A empresa considerou o valor abaixo do que acredita ser necessário para viabilizar seus projetos. A desvalorização do real perante o dólar nas últimas semanas também contribuiu para o posicionamento. No entanto, a MPX acredita que, se as condições melhorarem, poderá participar do leilão A-5 (cinco anos para implementar as usinas), programado para dezembro deste ano.
O presidente da Companhia Riograndense de Mineração (CRM), Elifas Simas, diz que não foi uma surpresa tão grande o resultado, pois o preço estava abaixo do esperado pelos empreendedores. O dirigente almeja que possa haver uma “correção” nesse preço para o próximo leilão que o carvão participará. Simas acredita que projetos que não concorreram nesse certame disputarão o seguinte.
O coordenador da campanha de Clima e Energia do Greenpeace no Brasil, Ricardo Baitelo, considerou como surpreendente (de uma maneira positiva) o fato de nenhuma térmica a carvão ter vendido energia no leilão. O dirigente admite que é difícil apontar as causas do insucesso do combustível. Baitelo destaca que os investidores do carvão reclamaram do baixo preço da energia, porém os de biomassa (queima de matéria orgânica) e de Pequenas Centrais Hidrelétricas (PCHs) também se queixaram e foram bem-sucedidos (outro ponto comemorado por Baitelo).
Apesar do entusiasmo quanto a esse leilão, o coordenador da campanha de Clima e Energia do Greenpeace acredita que, no de dezembro, os projetos a carvão virão mais bem preparados e terão chances de saírem vitoriosos. Baitelo comenta que a fonte eólica irá participar do certame, entretanto deve concorrer separadamente. A mesma impressão tem o secretário de Infraestrutura e Logística do Rio Grande do Sul, Caleb de Oliveira, que calcula que o carvão disputará contra o gás natural, hidrelétricas, PCHs e biomassa. “Não se devem comparar bananas com laranjas”, defende o secretário.
Sobre o leilão de quinta-feira, Oliveira segue a linha de Simas e atribui ao preço a razão de as usinas a carvão não terem vendido energia. O dirigente também prevê que o certame de dezembro renderá melhores frutos ao segmento. “O País precisa de energia firme (que não oscila com as condições climáticas) para aumentar a segurança do setor elétrico”, argumenta o secretário.
“Não deixa de ser uma frustração, porém nem sempre todas as notícias são boas”, conforma-se o prefeito de Candiota, Luiz Carlos Folador. O prefeito revela que, brevemente, serão realizadas reuniões com os empreendedores e integrantes dos governos estadual e federal para discutir novas estratégias que permitam que os projetos sejam vitoriosos no futuro. Folador mantém as expectativas otimistas para o próximo leilão. A estimativa do prefeito é de que, além dos projetos Seival e Ctsul, os empreendimentos MPX Sul (727 MW) e da Termopampa (350 MW – da Tractebel) participem da concorrência (esses últimos deverão ser implementados em Candiota). Contudo, se deve aumentar o número de projetos a carvão no leilão do último trimestre, o mesmo deve ocorrer com as hidrelétricas, o que pode acirrar a competição. É projetada a participação de até seis projetos hidrelétricos.

Vencedora da disputa, Alupar diz que desistiu

A Alupar Investimento desistiu de participar do leilão de energia com o empreendimento Sinop, que será construído no Mato Grosso. Segundo fato relevante, a manifestação ocorreu antes do início do certame, por meio de assinatura de um termo de retirada. Entretanto, o consórcio formado por Alupar e Eletrobras foi o vencedor do leilão. A usina hidrelétrica Sinop (400 MW) foi concedida a um preço final de R$ 109,40 o MWh. “Assim, a companhia esclarece aos seus acionistas e ao mercado em geral que os atos necessários à formalização de sua desistência em participar do empreendimento já se encontram em andamento, de maneira que os manterá informados acerca dos próximos passos a serem seguidos em relação à sua retirada”, informou a Alupar em nota.
Os organizadores do leilão informaram que a Comissão Especial de Licitação foi pega de surpresa com o anúncio feito pela Alupar. A companhia compôs, junto com Chesf e Eletronorte, o consórcio vencedor da Usina Hidrelétrica Sinop, ativo mais disputado do certame. A Alupar detém 51% do consórcio, e os 49% restantes pertencem às companhias controladas pela Eletrobras.
Sem dar detalhes, o presidente da Comissão Especial de Licitação, Ivo Sechi Nazareno, afirmou que o assunto ainda precisa ser analisado. Representantes da Agência Nacional de Energia Elétrica (Aneel), da Empresa de Pesquisa Energética (EPE) e da Câmara de Comercialização de Energia Elétrica (CCEE) informaram que ainda não foram comunicados oficialmente sobre a decisão da Alupar.
Uma das opções seria a substituição da Alupar no consórcio. “À luz do que foi oficializado à Aneel, vamos divulgar uma opinião sobre aquilo que o edital rege. Se for legítimo, será aceito”, afirmou Nazareno. O presidente da EPE, Mauricio Tolmasquim, destacou que, na pior das hipóteses, o ativo poderia ser assumido pelo segundo colocado no leilão. O preço da energia oferecida seria o mesmo ofertado pelo consórcio que ficou na segunda colocação. “Estamos tranquilos porque a usina será concedida e construída. Houve uma grande disputa, e tivemos um segundo colocado. Se tudo der errado, entrará o segundo colocado”, afirmou.

Fonte: Jornal do Comércio |

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