Leia a íntegra da entrevista com o climatologista Richard Lindzen

O climatologista Richard Lindzen, do MIT (Instituto de Tecnologia de Massachusetts), não acredita que as emissões de combustíveis fósseis sejam a principal causa do aquecimento global. Conseguiu, porém, algo raro para alguém de sua opinião: teve seus estudos analisados pelo IPCC, o painel da ONU que avalia as evidências da mudança climática.

As menções a Lindzen no quinto relatório de avaliação do IPCC, porém, não são todas elogiosas. Seus estudos relacionados a mecanismos de feedback –que cancelam ou amplificam o efeito estufa– foram citados em em trechos do texto que logo em seguida os contestavam. Tentativas de reproduzir seus trabalhos sobre "sensitividade" do clima (medir quanto o CO2 aquece a Terra) falharam.

A teoria mais conhecida de Lindzen, o efeito íris, afirmava que o aquecimento global iria fazer o número de nuvens em baixa altitude se elevar em relação o de grande altitude. Essa mudança faria o planeta aprisionar menos radiação infravermelha, num feedback que causaria o resfriamento do planeta. Mas a análise de outros estudos fez o IPCC concluir que o efeito-íris não existe. Um estudo de Lindzen publicado em 2009 foi considerado "não confiável", em razão de uma "amostragem limitada".

Em entrevista à Folha, Lindzen admite o erro ("posteriormente corrigido"), e oferece explicações sobre por que ainda acha equivocadas as conclusões dos 259 autores do documento que o IPCC divulgou há uma semana.

Alegando ser vítima de perseguição acadêmica, Lindzen reconhece já ter recebido verba da indústria do petróleo para dar palestra, mas nega ter vínculo fixo com dinheiro do combustível fóssil. "Hoje eles estão financiando mais os alarmistas", diz.

*

Folha – Em questões do clima, o sr. tem sido chamado pela imprensa americana de "cético", "negacionista" ou "contrário". Algum desses rótulos o deixa confortável?

Richard Lindzen – Não me preocupo terrivelmente com isso, mas essas são definições tolas porque partem do princípio de que o assunto é uma questão de sim ou não. Isso não faz sentido, né? Quase todo mundo que eu conheço concorda com um bocado de coisas, incluindo, com frequência, aquilo que o IPCC diz. A diferença que existe é se você acredita que as evidências requerem um alarme ou não. Tratar isso como uma questão de sim ou não é tratar o público como estúpido.

O sr. acredita que o último relatório do IPCC seja particularmente alarmista?

Na verdade, não. Ele é apenas estúpido. A mídia noticiosa não entende a natureza do processo. Não sei se você é um dos culpados disso, mas acredito que esteja acompanhando tudo atentamente. Eu não estou acompanhando nada. Qual o significado de um cientista esperar para ouvir o que os políticos acham que ele deve dizer? Seria tolo.

O que eles acabaram fazendo lá, mais do que nos relatórios anteriores, foi mostrar a influência do processo político. Agora há uma demanda dos políticos para que, em cada relatório que é feito, os cientistas soem como se tivessem cada vez mais certeza. Isso foi predeterminado.

O que nós temos é uma situação na qual os modelos climáticos [ferramentas matemáticas para projetar o clima futuro] discordam das observações cada vez mais, mas o IPCC têm de concluir que eles são confiáveis, o que é simplesmente insano.

Isso tem relação com o que os cientistas chamam de "hiato" do aquecimento global nos últimos 15 ou 17 anos, uma desaceleração na subida de temperaturas. Mas o relatório afirma que essa escala de tempo não é relevante para os modelos, e que a tendência no longo prazo continua mostrando subida.

Não existe uma escala de tempo mais significativa. O que existe é que, a cada ano, a previsão se sai mal. Se você está errado por um ou dois anos, isso não o afeta muito. Se você permanece errado por dez anos, isso o afeta mais. Se você está errado por 17 anos, isso o afeta consideravelmente. E com mais cinco anos você tem a certeza de que fez algo errado. Não se trata de provar alguma coisa, mas aumenta a probabilidade de você ter feito algo errado.

Quando os ouvimos dizer que essa é a escala de tempo errada, eles estão errando o alvo, porque o fenômeno é contínuo. Esse é um exemplo no qual o Sumário para Formuladores de Política [dos relatórios do IPCC] é muito diferente do texto geral do relatório. O texto foi finalizado e eles viram um problema sério [para encaixar os dados]. O sumário está tentando dar um jeito de dizer que podemos ignorar isso.

O relatório mostra que as três últimas décadas foram as mais quentes de todo o registro histórico com termômetros. Isso não é preocupante?

Não. Não é. E aí voltamos para o problema de responder com um sim ou um não. Estamos falando sobre números, certo? E eles estão tentando fazer você pensar que o planeta está esquentando.

Eles dizem a você para não pensar em números, porque os números indicam que estamos falando de uma mudança pequena. Se eu parto do princípio de que todo o aquecimento dos últimos 150 anos ocorreu por causa do homem, isso é alarmante?

O que o sr. acha?

Quero saber o que o sr. acha. O sr. está mais próximo de ter uma opinião média, porque eles disseram ao sr. que têm certeza de que a maior parte do aquecimento do período dos últimos 60 anos, mais ou menos, se deve ao homem. Não é preocupante? E se eu dissesse que todo o aquecimento dos últimos 150 anos se deve ao homem. Você acharia isso preocupante?

Sim.

Por que você acharia isso preocupante?

Porque se fizermos uma projeção futura, o aquecimento pode chegar a um nível perigoso.

Mas o que isso que eu acabo de dizer tem a ver com projeções? Nada. Se eu pergunto qual tem de ser a sensibilidade do sistema para ser consistente com isso, a resposta seria, mais ou menos 1°C para o dobro do nível de CO2.

Obviamente ninguém acredita que todo o aquecimento dos últimos 150 anos se deva ao homem, então o número seria um pouco menor. Quase todo economista estudando isso chega à conclusão de que um aquecimento de 1°C ou 2°C, que significaria quadruplicar o CO2, provavelmente traria benefícios líquidos. Então por que se preocupar?

O novo relatório está diminuindo de 2°C para 1,5°C a estimativa mínima para a sensitividade do clima, apesar de a máxima ainda ser estimada em 6°C. Críticos como o sr. apontaram isso como uma fraqueza do novo relatório. O sr. concorda?

Por que seria uma fraqueza? Porque eles não conseguiram reduzir mais?

Não, porque se eles querem defender a posição de que o aquecimento global é antropogênico…

O dever deles é avaliar a situação, não defender uma posição. Esse é o problema. As palavras que o sr. está usando são corretas para o processo político, mas não é o que eles dizem estar fazendo. Como o sr. pode julgar a ciência questionando se ela é consistente com aquilo do qual você quer fazer uma agenda? Estou escutando-o e ouvindo todos os problemas.

Se o novo relatório diz que a estimativa mínima para sensitividade climática é menor do que costumava ser no anterior, de 2°C, talvez ele não seja tão alarmista.

Pense nisso por um momento. Se analisarmos todas as cerca de 70 respostas dos modelos e as sobrepusermos aos gráficos de mudança de temperatura observada desde 1978 –sem fazer a trapaça que eles fizeram no sumário, deslocando o início para ficar mais perto do meio–, descobrimos que todos os modelos superestimaram o que estaria ocorrendo.

Não importa se você começa com o modelo de 1,5°C ou um modelo de 5°C, todos estão exagerando. Então, ao reduzir para 1,5°C, eles teriam dito "puxa, todos eles estão excedendo o que nós vemos; então provavelmente é menos".

Se você é um construtor de modelos sério e tem muitos modelos, você pega aqueles que chegam mais perto do valor certo e descobre por que os modelos que estão distantes se afastaram tanto. E, depois disso, corrige tudo, para trazer todos para mais perto. O IPCC, porém, usa todos os modelos, do pior ao mais próximo –todos os quais exagerados– e tira uma média. Isso não faz sentido. Esse não é um processo projetado para aprimorar os modelos.

Por que o sr. acha que no IPCC, um painel com tantos cientistas com trabalhos independentes uns dos outros, todos estão errando isso?

Quantas pessoas estão errando? O IPCC diz a você que abriga milhares dos melhores cientistas do mundo. De onde vêm esses milhares? O que acontece é que, provavelmente, existe só um punhado de pessoas estudando sensitividade, e eles variam em todos os lugares. E não é que todos os cientistas trabalhando no IPCC sejam aqueles que menos sabem disso.

O trabalho de tentar convencer o público de que "milhares de cientistas estão de acordo, então como diabos alguém pode discordar?" é uma pista de que algo está errado.

O novo relatório aumentou a confiabilidade sobre o papel humano no aquecimento global de 90% para 95%…

Eu estou 100% certo de que há um papel humano. Eu só acho que é um papel muito pequeno.

O sr. já teve tempo de olhar no novo relatório os trechos em que suas pesquisas sobre feedbacks são mencionadas?

Ainda não vi o relatório.

Algumas das menções no relatório não são particularmente favoráveis a seu ponto de vista, sobretudo em relação a seu estudo de 2009.

O estudo de 2009 tinha um erro. É verdade. Mas há um estudo de 2011 no qual ele foi corrigido. E a resposta não se alterou. O erro não era um grande problema. O problema é que se você comete um erro que o põe contra o fluxo, eles fazem parecer que foi algo gravíssimo. Ninguém se importa em verificar se aquilo resulta em alguma diferença ou não.

Então o sr. ainda mantém sua opinião sobre os feedbacks de nuvens?

Os estudos de 2009 e 2011 não eram especificamente sobre feedbacks de nuvens. Eles eram sobre feedbacks em geral. Aquilo que você mede a partir do espaço não é a presença ou ausência de nuvens, é a radiação de comprimentos de onda curto ou longo. E o que achamos é que, definitivamente, existe um feedback de ondas longas, mas o feedback de ondas curtas é mais ambíguo. Mas é o feedback de ondas longas que é essencial para os resultados de modelos.

Foi interessante ver que, sem o feedback de ondas longas, nenhum modelo resultaria nem mesmo em uma sensitividade de 1,5°C. Kevin Trenberth, que certamente é pró-IPCC, publicou um estudo dizendo ter confirmado que não há feedback de ondas longas.

O IPCC diz que o saldo final do feedback causado por nuvens é provavelmente positivo [aquece mais o mundo, em vez de resfriar]. Como fica sua teoria sobre o efeito-íris?

Bem, até agora o efeito-íris já foi confirmado por quatro estudos independentes, então não estou propenso a me render e dizer que é uma ideia ruim. O que está acontecendo [no IPCC] é a politização da área. Há um estudo de Brian Soden e Ákos Horváth no qual eles confirmam nossa principal conclusão. Para conseguirem publicá-lo, porém, tiveram de incluir um parágrafo dizendo o estudo parece confirmar o que eu, Ming-Da Chou e Arthur Hou [coautores] encontramos, mas é algo geralmente considerado errado. Além deles há Kevin Trenberth e John Fasullo dizendo que o que descobriram é consistente com nosso estudo, mas é claro que eles dão as referências para aquele que estava errado.

Nenhum deles jamais citou o fato de que cada uma dessas críticas recebeu uma resposta em estudos com revisão independente. Outro estudo, de Anthony Del Genio e William Kovari, não divide [os resultados] por convecção total, então parece que eles obtiveram uma resposta diferente, mas quando se divide, eles obtém as mesmas respostas que nós obtivemos.

O IPCC menciona o estudo de Trenberth e colegas como não favorável aos seus resultados.

Eles tiveram um estudo que foi uma crítica, mas publicaram outro estudo ao mesmo tempo, confirmando nosso resultado sobre infravermelho. Cada um dos estudos que eu mencionei aqui é uma análise dos dados. O último estudo foi feito com um satélite geoestacionário coreano, e eles tiveram um resultado muito forte. Então, não é a questão de colocar a opinião de um contra a opinião de outro. As pessoas fizeram as observações, elas são independentes e continuam obtendo a mesma resposta.

O sr. diz que o Sumário para Formuladores de Política é a parte mais suscetível a manipulação do relatório do IPCC, mas…

O documento inteiro é sujeito a manipulação, mas isso aumenta indo do relatório, para o sumário e depois para o comunicado de imprensa.

O sr. vê manipulação no capítulo sobre nuvens e aerossóis?

Veja, quando eu estava servindo no IPCC, no terceiro relatório [em 2001], havia uma diretriz. Estava claro que você não podia criticar os modelos, então a diretriz que eu, Raymond Pierrehumbert e Hervé Le Treut [coautores do capítulo sobre feedbacks] adotamos é que se tivéssemos que aderir a isso era preciso ninguém dissesse nada abertamente desonesto. Mas é claro que há um viés, e o viés fica pior a cada relatório. Por exemplo, Pierrehumbert e Le Treut eram muito ambientalistas e muito entusiastas do tema de aquecimento global. E eles nunca participaram de novo, porque foi embaraçoso eles terem de prometer que não fariam nada errado por não darem tanto apoio aos modelos.

Uma reclamação comum de cientistas contrários ao aquecimento global antropogênico é a de que as publicações científicas estão boicotando-os, mas o sr. tem publicado vários estudos…

Você está brincando? É claro que eles estão dizendo a verdade. A prática padrão com qualquer um com críticas é fazer a revisão levar um ano e meio, e então o estudo é devolvido com o editor dizendo que só pode ser aceito caso sejam feitas modificações extremas. Eles pedem alterações o bastante para lhe tomar mais um ano de trabalho. Aí você envia o estudo de novo, eles sentam em cima dele durante mais um ano e no fim o rejeitam. Eles costumavam rejeitar logo de cara, mas descobriram que é melhor levar três anos.

Mas isso ocorreu com o sr?

Absolutamente, sim. O primeiro artigo que eu escrevi comentando sobre isso foi imediatamente rejeitado pela revista "Science" como não sendo de interesse. Eles nem o revisaram. Essa foi a abordagem inicial.

Eu sei que existe um viés extremo. Ninguém trabalhando nessa área ignora isso. Quando eu publiquei dois estudos no boletim da Sociedade Meteorológica Americana, ambos foram aceitos após longas revisões, mas o editor foi imediatamente demitido depois disso.

Michael Mann, climatólogo da Universidade do Estado da Pensilvânia, acusa o sr. de adotar viés em seus estudos. Segundo ele, "se alguém passa uma carreira inteira procurando feedbacks que são apenas negativos [resfriam o planeta], e não positivos, é razoável suspeitar que essa busca não é totalmente objetiva".

Não se pode escolher uma coisa ou outra. Como eu havia dito, os feedbacks de ondas curtas são perfeitamente ambíguos, mas os negativos parecem ser bastante… negativos. Como eu faria para "procurar" um feedback positivo? Acho incrível Michael Mann querer falar sobre credibilidade.

Bom, o trabalho dele está ganhando comprovações independentes e está se fortalecendo. O gráfico do "taco de hóquei", que mostra como o século 20 atingiu um grau de calor sem precedentes na escala de um milênio, é um bom trabalho. O sr. não acha?

Não. O taco de hóquei é baboseira. Odeio ter de ser tão brusco, mas francamente… Se você obtém uma dúzia de anéis de árvores e os usa para tentar avaliar com precisão de duas casas decimais a temperatura medida por milhares de termômetros distribuídos ao longo do hemisfério norte, isso já é um procedimento temerário. Ele fez isso com anéis de árvores. [Mann usa dados dedendroclimatologia, ciência que relaciona o padrão crescimento de árvores ao clima passado.]

Mas o que determina os anéis de árvore? Eles dependem apenas da estação do ano em que crescem e dependem de chuva. Eles não são exatamente um termômetro, não são uma medida de anos inteiros e não são uma medida apenas de temperatura. Então, como é possível relacioná-los à temperatura?

Eles calibram as medidas dos anéis com as observações no século 20 e fazem uma projeção para o passado.

Ah… agora você quer usar as observações para todo o hemisfério norte, com a média para o ano inteiro, para ver quais combinações entre a cerca de uma dúzia de pontos que você tem lhe dá o melhor encaixe. Depois disso, ele concluiu que o período de aquecimento medieval não existe, certo?

Ele conclui que existe, mas que não foi tão quente quanto o século 20.

Não. Outros pesquisadores acharam isso, mas Michael Mann não. A conclusão dele é que o período quente medieval foi peculiar à região do Atlântico Norte, não global. Mas, para que sua calibração estivesse certa e fosse útil para ver o passado, a distribuição geográfica de temperaturas no passado teria de ser idêntica à de hoje. Acontece que a conclusão dele é de que não era. Então, o taco de hóquei é internamente inconsistente.

Mesmo que seja consistente com os dados de testemunhos de gelo [gelo usado para estudar o passado do clima] que ele inclui no estudo?

Dados de testemunhos de gelo são em geral, antes de tudo, um proxy [uma medição indireta]. Mas a esse ponto, já é uma tolice discutir isso, porque no final eu não dou a mínima. O único propósito de tudo isso é disfarçar o fato de que o aumento em temperatura no século 20 foi pequeno, mas agora eles dizem que foi sem precedentes.

O sr. foi autor de um dos capítulos do terceiro relatório de avaliação do IPCC em 2001, e naquela época o texto já apontava para o problema do aquecimento global com alguma ênfase. O sr. acredita que tenha sido um bom documento?

O sr. sabe o que um autor principal faz? Eu e duas outras pessoas éramos responsáveis por três páginas, e acho que aquelas três páginas eram respeitáveis.

Então o sr. só não concorda com o Sumário para Formuladores de Políticas?

Ninguém nem sequer me pediu que eu concordasse. Obviamente um sumário de 18 páginas não é uma representação clara de nada. Quanto ao relatório como um todo, há pontos fortes e fracos, e minha impressão geral é de que não era um relatório terrível. Se eles tivessem um índice remissivo poderia até ser útil, mas ele não foi projetado para ser útil. Ele é projetado para ter um certo volume, de forma que você aponte para ele e diga: "é grande". Então, é projetado para que ninguém consiga de fato lê-lo. Aí você faz um sumário e torce para que seja a única coisa que as pessoas leiam. Por último, sai um comunicado de imprensa com uma ou duas frases, e é sobre isso que as pessoas falam.

Neste ano, o IPCC teve uma preocupação maior em responder a questões levantadas fora do painel, não apenas aos questionamentos internos. O sr. teve essa impressão?

Isso acontece porque, cada vez mais, as pessoas tem se recusado a servir ao painel. Ele é uma destilação.

Muitos pesquisadores dizem que a ausência de pessoas de opinião contrária no IPCC é um reflexo do consenso. Diferentes pesquisas recentes mostram que o papel humano no aquecimento global é reconhecido por algo em torno de 95% dos cientistas da área recentemente.

Sim, eu sei. E ha, ha, ha. Eu estou entre os 95% — eu e todo mundo que eu conheço–, porque eles não estão fazendo a pergunta certa nessas pesquisas. Eles usam esses resultados para convencer pessoas como o sr. de que as projeções políticas deles estão corretas. Mas ninguém presta atenção ao fato de que eles estão fazendo uma pergunta, e dando resposta sobre outra.

A maioria dessas pesquisas inclui uma questão com que, até onde eu sei, 100% das pessoas concordam. Elas não são relevantes ao problema de estabelecer uma política ou de alertar para perigo alarmante. São questões feitas para dar aos políticos a sensação de que é seguro adotar uma posição, pois todos concordam com ela.

Um estudo que entrevistou membros da União Geofísica Americana perguntou se eles acreditavam que a atividade humana era uma causa "significativa" do aquecimento global, e só 5% discordaram.

Ela não é significativa. Temos algum impacto, mas não significativo. Dizer isso é insano, pois não estamos nem perto de uma mudança da escala de uma Era do Gelo ou de um Eoceno, que obviamente não foram provocados pelo homem.

Então, nessa pesquisa da AGU o sr. estaria no lado dos 5%, não do resto.

Não! A maioria das pessoas que entrevistadas nessas pesquisas dizem apenas que há "alguma" [influência humana], por um tempo limitado ou coisas assim.

O sr. e outros que defendem uma posição contrária ao IPCC costumam reclamar que há uma caça às bruxas contra quem recebe dinheiro da indústria do petróleo. O sr. se aborreceu quando a revista Harper’s publicou uma reportagem acusando o sr. de receber dinheiro da Western Fuels e outras empresas.

Sim, eu cobrei um cachê de palestra de US$ 5.000 uma vez, e escreveram que eu estava recebendo isso todo dia. Eu havia dito ao autor desse texto, Ross Gelbspan, que eu havia comparecido a um encontro patrocinado por uma associação energética no Canadá, e que o cachê era de US$ 5.000. Por acaso, o ambientalista Stephen Schneider também recebeu a mesma coisa, bem como outras pessoas. Havia gente de todos os lados lá.

Hoje o sr. busca evitar eventos patrocinados pela indústria dos combustíveis fósseis?

Do que você está falando? A indústria dos combustíveis fósseis ajuda primariamente as pessoas que apoiam o alarmismo. Veja a Petrobras. A quem eles dão apoio?

Acredito que a quem seja favorável à visão deles.

Não. Não importa qual é a visão deles. Hoje o petróleo está apoiando os alarmistas, pessoas que concordam com a posição do IPCC. A Exxon deu uma contribuição de US$ 100 milhões à Universidade Stanford. Era basicamente para estimular uma visão positiva do aquecimento global, não imposta, de que seria uma boa coisa. Foi convencional.

Não conheço nenhum cientista em atividade que se oponha ao alarmismo e seja apoiado pela indústria do petróleo ou carvão. Então, isso é uma tática diversionista. Uma pessoa como eu, francamente, não tem como arcar com os custos de levar isso para a Justiça. Pode custar dezenas ou centenas de milhares dólares. Então, é preciso conviver com isso.

A Exxon e outras empresas já financiaram muitos centros de estudos conservadores que atacam o consenso sobre o aquecimento global.

Eles mal fazem isso, é direito deles e eles apoiam muitas outras coisas. Não vejo o que há de errado nisso. Diga-me uma instituição para a qual eles deem mais de uns poucos percentuais do orçamento? É fácil sair dizendo qualquer coisa e esperar que acabe colando. Um jornalista precisa checar fatos de vez em quando. Me dê um exemplo?

O API (American Petroleum Institute), por exemplo, e o American Enterprise Institute.

O API não está mais ativo, até onde eu sei. Eles recebiam apoio da indústria do petróleo, e a indústria do petróleo desistiu disso.

Eles também patrocinam instituições com uma imagem mais neutra, e já deram dinheiro ao Centro de Annapolis para Políticas Públicas Baseadas em Ciência, onde o sr. é membro de um conselho.

Calma lá! Já faz mais de 15 anos que isso não existe. E foi muito, muito pouco. Nos anos 1990 isso existiu enquanto Harrison Schmitt, um ex-senador que eu conheci, formado em Harvard, foi presidente do centro. Era um centro de estudos bastante neutro, que pode ter recebido algum apoio [do petróleo], mas é algo que já se foi há anos e, até onde eu sei, não teve influência nenhuma.

Voltando ao IPCC. Existe uma discussão hoje sobre se vale à pena continuar a produzir os grandes relatórios de avaliação e talvez mudar o modo como o painel trabalha porque…

Bom, o IPCC se submeteu ao Conselho Interacademias para ter seus procedimentos reavaliados. O conselho fez algumas propostas, e todas foram rejeitadas.

O IPCC diz já ter implementado todas as recomendações, com exceção de uma.

Eu não acho que eles tenham se aprimorado. Eles estão menos transparentes do que nunca. O procedimento não é útil. A única coisa a favor deles é que há um monte de ambientalistas que querem ver o IPCC fechado por ele não ser enviesado o suficiente. Minha principal objeção ao IPCC é que ele é inútil para alguém que lide seriamente com ciência, porque participar dele toma tempo demais.

Fonte: Folha | RAFAEL GARCIA DE SÃO PAULO

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *