Lavouras de milho avançam em Sergipe

Fonte:  Valor | Por Murillo Camarotto | De Carira, Nossa Senhora Aparecida e Simão Dias (SE)

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Em meio à euforia com o milho, Dantas diz manter os pés no chão: "Quero só ver o que vai ser quando essa febre passar"

Em menos de uma hora e meia de estrada, pode-se ir do litoral ao sertão de Sergipe, menor Estado brasileiro, com 22 mil km² de território. Apesar do porte pequeno, em tese desfavorável para o desenvolvimento da agricultura intensiva, Sergipe vem ganhando espaço na produção de milho nos últimos anos, na esteira de um cenário vantajoso para o cereal. O Estado superou em 2010 a marca de 1 milhão de toneladas produzidas, volume que o posicionou entre as dez maiores safras do país e a segunda do Nordeste, atrás só da Bahia.

O crescimento se deve principalmente ao fato de a safra local ocorrer, devido ao regime de chuvas, em período diferente dos principais Estados produtores, o que garante a valorização do milho sergipano. Entusiasmados, os fazendeiros da região estão elevando os investimentos em tecnologia e expandindo as lavouras, que já podem ser vistas em várias regiões do Estado, especialmente em áreas onde existiam fazendas de laranja e de gado leiteiro.

Atarefado com a supervisão da colheita, que em Sergipe vai de novembro a janeiro, o empresário Pedro Alves de Menezes, o Pedrinho, acelera sua camionete pelas estradas de terra do agreste central do Estado, principal região produtora de milho. Dono de cinco fazendas nos municípios de Nossa Senhora Aparecida e Frei Paulo, ele ingressou no negócio em 2004, deixando para trás a indústria cerâmica.

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Desde então, vem aumentando a área de plantio, que este ano foi de 1,1 mil hectares. Para 2012, estima algo em torno de 1,5 mil hectares, área grande para os padrões sergipanos. "Comecei a plantar porque o preço estava bom e também porque o milho não necessita de muita mão de obra", conta o fazendeiro.

A janela aberta pelos Estados Unidos, que vem expandindo a produção de etanol à base de milho, e o avanço das importações chinesas, valorizam o cereal, incentivando a expansão das lavouras brasileiras. Entre 2005 e 2010, a produção nacional cresceu 58%, atingindo no ano passado pouco mais de 55,6 milhões de toneladas. Na mesma comparação, Sergipe registrou um salto de 413%, segundo números da Pesquisa Agrícola Municipal, do IBGE.

Os principais investimentos de Pedrinho foram direcionados à compra de maquinário moderno, ainda visto como um diferencial importante em Sergipe. Também é relativamente recente o uso das sementes transgênicas, que segundo os produtores começaram a chegar em 2009 ao Estado.

O gerente da Monsanto para as regiões Sudeste e Nordeste, Paulo Giacheti, confirma que os negócios em Sergipe estão em alta. No próximo dia 7 de dezembro, diz ele, será apresentada aos produtores locais a segunda geração do milho transgênico. Futuramente deverão ser lançadas sementes de milho adaptadas às características da região.

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Murillo Camarotto/Valor/Murillo Camarotto/ValorMenezes quer ampliar área plantada de 1,1 mil para 1,5 mil hectares em 2012

A expectativa é de que o uso da biotecnologia incremente a produtividade do milho em Sergipe, considerada satisfatória devido às condições favoráveis de solo e clima. Estimativas da Conab para a safra 2010/11 colocam Sergipe na oitava posição entre os Estados com maior produtividade no país, com 4,2 toneladas por hectare, ligeiramente acima da média nacional. Nos últimos cinco anos, o número cresceu mais de 200%, contra 27% do país.

Em 2011, porém, uma seca prolongada durante a floração do milho prejudicou a safra, especialmente no alto sertão do Estado, outra região onde avança a cultura, ao lado do centro-sul. Com isso, a produção sergipana vai experimentar este ano a sua primeira queda desde 2006. O secretário estadual de Agricultura, José de Macedo Sobral, estima a perda em algo entre 15% e 20%. Ele argumenta, contudo, que o preço médio da saca de 60 quilos, hoje em torno de R$ 27, vai garantir os investimentos para a próxima safra.

"Por ser bastante sensível às variações de clima, a cultura do milho exige cautela dos fazendeiros, o que não é todo mundo que tem por aqui", alerta José Ananias Rezende, técnico da Empresa de Desenvolvimento Agropecuário de Sergipe (Emdagro), ligada ao governo estadual. Segundo ele, alguns produtores da região, em especial os neófitos, estariam "cegos" com os lucros obtidos nos últimos anos e dispostos a aumentar as áreas plantadas a todo custo.

Quem é mais experiente no ramo, como o produtor Adalto Messias Dantas, prefere manter os pés no chão. No negócio desde 1999, ele está satisfeito com os resultados recentes, mas admite ter ficado melindrado com a última seca, motivo pelo qual vai manter em 2012 os mesmos 300 hectares que plantou este ano em Carira, município mais representativo para o milho sergipano.

A cautela também é justificada pela excessiva valorização das terras da região, cujos preços vêm subindo em ritmo semelhante ao da produção de milho. Em Carira, os imóveis estão cada vez mais caros, a frota de carros e de motos disparou e novos estabelecimentos comerciais abrem a cada semana. "Tudo em função do milho", conta Ananias, da Emdagro, preocupado com a sustentabilidade do cenário. "Quero ver o que vai ser quando essa febre passar", observa.

A valorização das terras também vai frear os planos de Daniel Tavares da Silva, um pequeno produtor de Carira. Ele vai sustentar no ano que vem os 75 hectares plantados em 2011, dos quais 50 hectares são arrendados.

O produtor sofreu mais com a seca. Diferentemente do vizinho Adalto, que está colhendo 5,9 toneladas por hectare, ele está conseguindo apenas 2,7 toneladas na mesma área. "É inexplicável isso. Só aqui mesmo para acontecer essas coisas", queixou-se enquanto analisava a lavoura do vizinho, com espigas bem maiores que as produzidas em seus milharais.

Silva cobra apoio do governo estadual, que mantém um programa de distribuição de sementes e de cessão de maquinário para os pequenos produtores. "É insuficiente", admite Ananias, da Emdagro.

Os produtores também reclamam da falta de apoio para a instalação de infraestrutura para secagem e armazenagem da produção. "Sem a secagem, sou obrigado a manter o milho no pé por mais tempo. Aí as espigas caem e tenho que contratar pessoal para a recata", explicou Pedrinho, referindo-se ao recolhimento manual das espigas, que custa R$ 40 diários, por pessoa.

O fazendeiro também reclama dos impostos cobrados sobre a produção. A pauta, valor sobre o qual incide a tributação de 17% do ICMS, foi reajustada recentemente de R$ 12 para R$ 22 em Sergipe. Os produtores veem oportunismo do governo, que estaria "crescendo o olho" na emergente cultura do milho. O secretário de Agricultura José de Macedo Sobral diz que o aumento visou uma equiparação com os valores cobrados em Estados como Bahia e Goiás e argumenta que, ainda assim, a taxa em Sergipe segue mais barata.

Baseado no volume de terras "disponíveis" no Estado, o governo acredita que Sergipe tenha condições de atingir nos próximos anos a marca de dois milhões de toneladas de milho. Seus próprios técnicos, entretanto, avisam que o crescimento deve passar por uma série de precauções com o meio ambiente, que já começa a apresentar os efeitos colaterais da expansão das lavouras, especialmente no que se refere ao processo de compactação do solo, castigado pela presença constante das máquinas pesadas.

O efeito sobre a fauna também já se faz sentir, segundo Ananias. "Já está matando pássaros como codorna, juriti e anambu, além das abelhas. O avião passa e joga o veneno", conta o técnico, enquanto contempla o horizonte ensolarado em Carira. "O momento bom mexe com a cabeça do cara. Ele fica louco, quer sair derrubando tudo".

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