Lagarta helicoverpa já causa prejuízos

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No ciclo 2012/13, a helicoverpa já provocou prejuízos da ordem de R$ 2 bilhões, e agricultores temem que as perdas possam ser maiores nesta safra 2013/14

Mal foram depositadas no solo as primeiras sementes de soja nesta safra 2013/14 no Brasil e as lavouras já recebem uma visita indesejada – e faminta. A lagarta helicoverpa, que causou prejuízos estimados em R$ 2 bilhões na última temporada, está de volta e já é vista devorando plantas recém-emergidas no Paraná e em Mato Grosso.

Em abril, o Ministério da Agricultura autorizou a importação emergencial de defensivos para conter a praga nos campos de soja, milho e algodão, entre outros, mas ainda não há liberação para o uso dos produtos, em função da oposição do Ministério Público, que atenta para o elevado nível de toxicidade dos produtos. A expectativa é que um decreto saia nos próximos dias com o aval para a aplicação. Também deverá ser publicada uma instrução normativa autorizando a produção doméstica.

"A situação é de alerta, estamos em monitoramento constante", diz Luiz Nery Ribas, gerente-técnico da Aprosoja/MT, associação que representa os produtores de soja e milho de Mato Grosso. Em um acompanhamento realizado na entressafra, a Aprosoja constatou uma presença "intensa" da helicoverpa no campo. Mas como a praga sobreviveu nesse período? Parte da explicação está na facilidade que a lagarta tem de se satisfazer com um cardápio variado.

Depois de consumir lavouras na temporada passada, ela se alimentou de plantas que nasceram espontaneamente – ervas daninhas ou tigueras, aqueles exemplares de culturas comerciais que brotam involuntariamente -, mantendo-se ativa e pronta para avançar sobre a nova safra. A armigera, espécie de helicoverpa que tem predominado no país, é inclusive a que possui o hábito alimentar mais generalista.

"Já há lagartas grandes atacando no início da safra. Quanto maiores, mais difícil combatê-las", diz Alex Utida, presidente do Sindicato Rural de Campo Novo do Parecis (MT). Segundo ele, os agricultores têm lançado mão de artifícios variados para tentar conter a praga – dos defensivos ao controle biológico (o ministério já liberou o vírus VPN HzSNPV, conhecido como Baculovírus, e o Bacillus Thuringiensis, um tipo de bactéria) -, mas o problema avança.

"A tendência é que os produtores antecipem e aumentem a aplicação de inseticidas. O fato é que os agricultores ainda não têm muito conhecimento sobre essa praga e é possível que haja danos maiores que na safra passada", diz. Segundo Utida, que está semeando 6,5 mil hectares de soja nesta temporada de verão de 2013/14, seus custos com defensivos cresceram 30% por conta da helicoverpa, para R$ 374 por hectare.

O pânico instaurado pela praga no país tem preocupado técnicos e pesquisadores em relação ao uso exagerado de defensivos. A situação é crítica, concordam os especialistas, mas não há motivos para desespero.

"O produtor, com medo, acaba fazendo coisa errada, aplicando inseticida demais. Mas há o efeito positivo de se voltar a atenção para o manejo integrado de pragas, que institui táticas mais racionais de controle, com recomendações sobre qual a melhor ferramenta para cada momento", afirma Adeney de Freitas Bueno, pesquisador da Embrapa Soja.

Segundo Bueno, seria importante uma avaliação prévia da área a ser plantada, para verificar a presença da helicoverpa na vegetação de cobertura e realizar uma dessecação de três a quatro semanas antes da semeadura, procedimento que eliminaria a fonte de alimento da lagarta.

Para o pesquisador, o não cumprimento do vazio sanitário por produtores de Mato Grosso pode ter colaborado para aumentar a população da praga no Estado. "A intensidade dessa contribuição é difícil de medir, mas certamente provocou um aumento na disponibilidade de comida para a lagarta", explica.

Há quem afirme, também, que o milho transgênico tem sua parcela de culpa. O grão geneticamente modificado libera uma toxina capaz de combater alguns tipos de lagartas, como a do cartucho do milho, mas seria menos eficaz no controle da helicoverpa. Como a lagarta do cartucho é predadora natural da helicoverpa, sua redução nas lavouras de milho transgênico favoreceria o aumento da população da praga.

No oeste da Bahia, berço dos primeiros relatos de prejuízos mais graves, na safra 2012/13, o plantio de soja começou há pouco mais de 15 dias em áreas irrigadas, enquanto a semeadura de milho deve ganhar força no começo de novembro e a de algodão, em dezembro.

Cálculos da Associação dos Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba) apontam que, no ciclo passado, os produtores do Estado tiveram de elevar em R$ 900 por hectare os gastos com defensivos para combater a lagarta, elevando o custo total de produção a R$ 6.100 por hectare. No caso da soja, houve uma despesa adicional de R$ 300 por hectare com inseticidas, com custo total de R$ 2.019. Já a implantação de um hectare de milho custou R$ 112 por hectare a mais e totalizou R$ 3.100.

Conforme Ernani Sabai, diretor de Integração, Projetos e Pesquisa da Aiba, a disseminação nas lavouras baianas na atual temporada também é grande. "Já vemos a lagarta até em pastagens e lavouras de café". Enquanto isso, lotes importados de benzoato de emamectina (inseticida apontado como um dos mais eficazes no combate à lagarta, mas que é alvo de críticas por ser considerado altamente tóxico) já aguardam nos estoques das distribuidoras locais, à espera da liberação oficial de uso.

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Fonte: Valor |  Por Mariana Caetano | De São Paulo

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