Lagarta do milho assombra outras culturas

Rogerio Inoue/Divulgação / Rogerio Inoue/Divulgação
A Helicoverpa eleva o número de aplicações de inseticidas em lavouras de soja e algodão e aumenta os custos de produção; Bahia é o Estado mais atingido

Uma lagarta antes subestimada nas lavouras brasileiras se tornou protagonista de uma crise fitossanitária que já levou os agricultores do oeste da Bahia, onde a situação é mais grave, a desembolsar cerca de R$ 1 bilhão para sua erradicação nas últimas duas safras. Em nível nacional, estima-se algo em torno de R$ 2 bilhões em gastos. A vilã, que atende pelo nome de Helicoverpa, passou de costumeira praga do milho a algoz de culturas como soja e algodão, e virou até tema de uma reunião marcada para hoje em Brasília (DF), que deve ter representantes de produtores, do Ministério da Agricultura e da Casa Civil.

Um dos objetivos do encontro é delinear estratégias para evitar que o problema se espalhe para mais Estados, além dos 11 já afetados. A Bahia saiu na frente para tentar combater a praga. Na semana passada, decretou situação de emergência e atestou a necessidade de um amplo programa para o controle da lagarta. A expectativa é que um decreto do governo seja publicado nos próximos dias, permitindo a adoção de medidas para acelerar o registro de inseticidas específicos para a Helicoverpa – atualmente inexistentes no país, mas já utilizados no exterior.

Segundo Ernani Sabai, diretor de integração e agronegócio da Associação de Agricultores e Irrigantes da Bahia (Aiba), os danos causados pela lagarta ao milho não eram tão agudos no país, já que a praga costuma permanecer na ponta das espigas. Mas, no caso da soja, a lagarta segue em direção à flor, derrubando-a, e se a vagem já estiver formada, entra e se alimenta dos grãos. No algodão, o inseto vai até as primeiras "maçãs", que geram o capulho (fibra madura). "Uma vez a praga alojada na vagem ou no capulho, não existem meios de combate, porque não há inseticida que penetre", diz Sabai.

Uma confusão inicial retardou a reação dos agricultores. O produtor Celito Breda, que se deparou com a praga em suas plantações de soja em Barreiras (BA) e em Baixa Grande do Ribeiro (PI), diz que a Helicoverpa é muito parecida com as lagartas do gênero heliothis. "Assim, quando a lagarta passou a aparecer nas plantações, foram feitas aplicações de inseticidas contra a heliothis. A princípio, como o inseto permanecia no campo, a desconfiança era de aplicação errada do produto, o que levou até ao aumento da dose do defensivo", conta ele. Quando a lagarta foi finalmente identificada, após um combate infrutífero, já era tarde.

Estima-se que os gastos com inseticidas nas lavouras do oeste da Bahia tenham dobrado por conta da Helicoverpa nesta safra 2012/13. Normalmente, um plantio de soja na região recebe oito aplicações de inseticidas, que custam US$ 100 por hectare, mas a praga fez esse montante saltar para US$ 200, em um total de 15 aplicações. Embora não existam defensivos específicos para a praga, produtos do grupo químico das diamidas ajudam no combate.

Caso todos os produtores venham a realizar o controle com esse nível de investimento em defensivos, os gastos alcançarão cerca de US$ 128,2 milhões (ou algo em torno de R$ 251 milhões), levando-se em conta a previsão de plantio de 1,282 milhão de hectares feita pela Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) para a Bahia. Mas ainda há as perdas de produção.

"A estimativa é que se percam cinco sacas de soja por hectare, de um total de produtividade de 35 a 40 sacas esperadas. Quanto ao algodão, o prejuízo previsto é de 30 a 40 arrobas por hectare, de um rendimento que deve ficar entre 200 e 210 arrobas", diz Breda, que também é diretor da Associação Baiana dos Produtores de Algodão (Abapa). O gasto com inseticidas no cultivo da fibra dobrou, para US$ 800 por hectare

Muitas hipóteses têm sido levantadas para explicar a disseminação da praga. Uma das teses aponta o milho transgênico como responsável. O grão geneticamente modificado libera uma toxina capaz de combater alguns tipos de lagartas, como a do cartucho do milho, mas seria menos eficaz no controle da Helicoverpa. Como a lagarta do cartucho é predadora natural da Helicoverpa, sua redução nas lavouras de milho transgênico favoreceria o aumento da população de Helicoverpa.

A Embrapa iniciou um trabalho para identificar que espécie de Helicoverpa tem atacado cada cultura. Até o momento, a percepção é que a Helicoverpa zea, que mede até quatro centímetros de comprimento, é a que mais tem causado prejuízos. De acordo com Silvana Moraes, pesquisadora da Embrapa Cerrados, a não adoção do manejo integrado de pragas (controle ecológico que incentiva a ação de inimigos naturais sobre os agressores de uma planta) e condições climáticas favoráveis, como a seca intensa na Bahia em dezembro de 2012 e fevereiro deste ano, podem ter sido fatores relevantes.

A experiência da Austrália, que registrou o maior surto de Helicoverpa no mundo, tem servido de inspiração para o Brasil. Entre 1996 e 1998, os australianos sofreram uma baixa de quase 75% na produção local de algodão, por conta da lagarta. Paulo Degrande, especialista em insetos e professor da Universidade Federal da Grande Dourados (UFGD), fez parte de um grupo que foi recentemente ao país estudar o problema.

Ele observa que a espécie que causou transtornos na Austrália não é a mesma que parece dominar no Brasil, mas ressalta que o modelo de organização do setor produtivo é digno de cópia. Entre as principais ações para minimizar os prejuízos com a Helicoverpa, Degrande destaca o estabelecimento de um vazio sanitário que seja efetivamente cumprido pelos produtores, do fim de agosto ao fim de outubro, o que colaboraria para criar uma entressafra e, assim, evitar que a praga encontre locais para se multiplicar.

O especialista defende a intensificação do uso de culturas transgênicas com duas proteínas inseticidas – amplamente adotadas em Austrália e EUA, mas ainda de baixa adesão no país. "Experiências globais mostram que o controle de Helicoverpa melhora significativamente com dois genes no campo. Uma toxina pode até matar, mas com duas na planta, os benefícios são ampliados", explica. A adoção de 20% de área de refúgio, com variedades convencionais, seria também fundamental.

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Fonte: Valor | Por Mariana Caetano | De São Paulo

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