Juros e salário mínimo comandam PIB de 2012

Fonte:  Valor | Por Claudia Safatle

Os indicadores de desaceleração da economia são inquestionáveis. A inflação acumulada em 12 meses começa a ceder. A variação do IPCA em outubro foi de algo próximo a 0,40%. A pergunta que os economistas do governo se fazem, agora, é se a queda dos juros e o reajuste de cerca de 14% do salário mínimo serão elementos suficientes para manter o nível de atividade numa rota de crescimento ainda razoável, algo em torno de 3% a 3,5%, em 2012.

A despeito do desaquecimento – o PIB do terceiro trimestre foi próximo de zero e o do último trimestre pode crescer cerca de 0,5% -, o quadro inflacionário ainda é perigoso. As primeiras coletas de preços de novembro detectam aumentos no setor de serviços, sobretudo do item empregada doméstica. Em outubro, esse segmento teve inflação de apenas 0,1%. Este mês, porém, pode chegar a 1%, já antecipando os efeitos do reajuste do salário mínimo em janeiro. Se, na revisão que o IBGE está fazendo do Produto Interno Bruto (PIB) de 2010, o crescimento subir de 7,5% para 7,8%, o aumento do mínimo será de mais de 14%.

De outubro deste ano a abril de 2012, porém, o IPCA de 12 meses será cadente. Os índices mensais nesse período foram elevados e não vão se repetir. A expectativa, hoje, é que o IPCA varie entre 0,40% e 0,50% nos dois ultimos meses deste ano. Se isso se confirmar, 2011 termina com uma taxa de inflação entre 6,24% (abaixo do teto da meta de 6,5%), na melhor das hipóteses, e 6,52%, ligeiramente superior ao teto. O BC trabalha com 6,4%.

Serviços pesam sobre inflação deste mês

Nesse aspecto, há um pormenor. Como o teto da meta é de 6,5% e não 6,50%, qualquer percentual até 6,59% estaria dentro da meta. Outra tese é a do arredondamento. Uma taxa de até 6,52%, por exemplo, está na meta, mas a de 6,56% deve ser arredondada para cima. Embora esta seja uma firula, ela é importante, porque significa liberar ou não o BC de escrever uma carta aberta ao Ministro da Fazenda. Nesta, o Banco Central tem que explicar por que deixou a inflação escapar e o que pretende fazer para reduzi-la. De 1999 até agora foram escritas três cartas (em 2002, 2003 e 2004).

Os indicadores de atividade econômica e de evolução dos preços começam, assim, a assumir a trajetória concebida pelo Banco Central desde meados do primeiro semestre. Mas é muito cedo para presumir que o traçado da autoridade monetária será cumprido, levando a inflação para o centro da meta de 4,5% ao fim do próximo ano.

A variável-chave nesse cronograma é a performance da economia internacional. O governo prevê que a Europa não terá crescimento em 2012. Nos Estados Unidos, a política fiscal tende a ser bastante contracionista e o crescimento bem pequeno no ano que vem. E não será uma surpresa para os economistas oficiais, se a China, que está em desaceleração suave, mas persistente, apresentar taxas de variação do produto interno na casa dos 8%, ou até um pouco menos.

Calcula-se que cada ponto percentual de queda da taxa de crescimento mundial representa uma perda de cerca de 0,5 ponto percentual de crescimento no país.

Dadas essas circunstâncias, um desempenho da produção doméstica na casa dos 2,5% a 3% para 2012 já seria bastante razoável, avaliam fontes do governo. O mercado projeta um PIB de 3,5%. Para chegar a esse percentual, tendo um "carry over" próximo de zero este ano, a produção teria que crescer cerca de 1% a cada trimestre. Não é claro se a queda dos juros, o aumento do salário mínimo e investimentos públicos serão suficientes para sustentar tal desempenho.

Uma questão para a qual não se tem resposta é se a inflação, cadente até meados do primeiro semestre do ano que vem, pode recuperar o fôlego e fechar o ano de 2012 acima do centro da meta. Há analistas de mercado que projetam o IPCA na faixa dos 5% a 5,5%. "É possível, mas não é provável" que isso ocorra, respondem fontes do governo.

Alguns dos principais riscos nessa direção seriam o de um aumento dos preços das commodities, medidas de afrouxamento fiscal para impulsionar o crescimento e o impacto do aumento do salário mínimo sobre o setor de serviços, que continua com presença forte na composição da inflação.

Daí a importância do compromisso assumido pelo ministro da Fazenda, Guido Mantega, de manter a meta de superávit primário de 3,1% do PIB também no próximo ano, mesmo sendo um ano de eleições municipais. Difícil será postergar investimentos com data marcada, como os da Copa do Mundo e da Olimpíada. Mas, no Ministério da Fazenda, avalia-se que algumas obras ainda poderiam ser adiadas para 2013.

Ao manter rédeas curtas sobre o gasto público, o governo estaria dando sua contribuição para a moderação da demanda no ano que vem e, portanto, dos preços.

O governo buscou um pouso suave da economia com inflação declinante. Os primeiros sinais começaram a aparecer. Falta muito, no entanto, para que a estratégia se mostre bem-sucedida.

Claudia Safatle é diretora adjunta de Redação e escreve às sextas-feiras

E-mail claudia.safatle@valor.com.br

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