JBS reforça gestão para IPO nos EUA

Silvia Zamboni/Valor

Guilherme Cavalcanti, da Fibria, assumirá o cargo de CFO da JBS em janeiro

Recém-promovido ao cargo de CEO global da JBS, Gilberto Tomazoni afirmou ontem que a listagem das ações da empresa brasileira na bolsa de Nova York está "no topo das prioridades". Em teleconferência com analistas para comentar seus objetivos na nova função – desde o ano passado, Tomazoni atuava como executivo-chefe de operações -, o novo CEO da JBS evitou mencionar um prazo ideal para a abertura de capital nos EUA.

De acordo com Tomazoni, a listagem nos Estados Unidos acontecerá "no momento certo". O executivo não fez comentários explícitos, mas o atual momento não é dos melhores para os frigoríficos com ações nas bolsas americanas. Apesar dos resultados positivos reportados por concorrentes como a Tyson Foods, as ações dessas companhias caíram muito neste ano, pressionadas pela sobreoferta de frango. Em 2018, os papéis da Tyson recuaram 28,2%. As ações da Pilgrim’s Pride, empresa americana de carne de frango controlada pela própria JBS, caíram 41% neste ano.

De todo modo, a JBS se move para estar preparada para a abertura de capital assim que houver uma boa oportunidade no mercado de capitais americano. Nesse sentido, Tomazoni ressaltou a contratação, anunciada ontem, do novo diretor financeiro global (CFO, na sigla em inglês) da JBS, Guilherme Cavalcanti. O executivo assumirá o cargo em meados de janeiro, após a conclusão da fusão entre Suzano e Fibria – Cavalcanti é o atual CFO desta última.

"Guilherme seguramente terá papel relevante e vai ajudar nesse processo [de listagem das ações nos EUA]", disse Tomazoni. Segundo ele, os principais executivos seguirão na sede da empresa nos Brasil. Se uma mudança aos EUA for necessária em razão do IPO, isso poderá ser revisto.

O novo CEO global da JBS também ressaltou que o IPO nos Estados Unidos permitirá uma "aceleração do nosso crescimento". Na avaliação do executivo, a área de alimentos processados da JBS nos Estados Unidos apresenta as maiores oportunidades de crescimento – ou seja, de novas aquisições. "Seguramente, é a maior oportunidade de todos os negócios que a gente tem", afirmou.

Desenvolver o negócio de alimentos processados nos EUA é um velho sonho da JBS. O projeto foi iniciado no começo de 2017, quando a JBS USA comprou a Plumrose, de presunto. Na ocasião, o então CEO da JBS, Wesley Batista, afirmou que aquele era o início de um movimento que visava a construir um negócio de marcas nos EUA tão forte quanto é a Seara no Brasil. Ele chegou a dizer que novas aquisições do porte da Plumrose, comprada por cerca de US$ 230 milhões, poderiam ocorrer. No entanto, a delação premiada dele e do irmão Joesley Batista acabou adiando os planos da companhia.

Aos poucos, porém, a JBS retoma os planos. No início de 2018, a empresa contratou Tom Lopez, que estava na Kraft-Heinz, para comandar a Plumrose. Em agosto, em visita da reportagem a algumas plantas da empresa nos EUA, o CEO da JBS USA, André Nogueira, disse que a contratação de Lopez sinalizava o tamanho da ambição para a Plumrose. "Ele está muito acima do tamanho do nosso negócio hoje, mas foi contratado para [fazer a Plumrose] crescer", disse na ocasião.

Além dos Estados Unidos, a gestão de Tomazoni terá como foco ampliar a estrutura de distribuição na Ásia. "É um mercado muito importante para nós", afirmou o CEO da JBS, citando recentes acordos de exportação firmados para ampliar as exportações para a China. No início de novembro, a empresa assinou um memorando de entendimentos com o braço de alimentos frescos do Alibaba para exportar US$ 1,5 bilhão em carnes à China.

Afora a China, a JBS também poderá ingressar na Tailândia. Conforme o Valor já informou, a Pilgrim’s Pride está na disputa pela aquisição dos ativos que a BRF colocou à venda no país asiático e na Europa. Na teleconferência, Tomazoni não mencionou a possibilidade. Na terça-feira, reafirmou ao Valor, sem citar alvos, que a Pilgrim’s avalia aquisições.

As possíveis compras não devem alterar o compromisso da JBS com a "disciplina financeira", disse Tomazoni. Desde maio do ano passado, quando a delação dos Batista levou a JBS a repactuar as dívidas com os bancos no Brasil, a empresa vem quitando débitos e reduzindo o índice de alavancagem (relação entre dívida líquida e Ebitda), que saiu de 4,3 vezes em junho de 2017 para 3,4 vezes em setembro deste ano. De lá para cá, pagou US$ 4,3 bilhões em dívidas, o que permite uma economia anual de US$ 300 milhões em juros. Em agosto, Tomazoni já disse buscar uma alavancagem de 2 vezes em 2019.

Tomazoni também terá a missão de resgatar a reputação da JBS. "Tenho abordagem de tolerância zero para a questão de compliance e governança", disse. Na bolsa, os investidores reagiram bem à promoção de Tomazoni e à contratação de Cavalcanti. As ações da JBS registraram a maior alta do Ibovespa, com valorização de 5,49%, a R$ 12,11. O índice subiu 0,47% ontem.

Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

Fonte : Valor