Japão reabre mercado à carne bovina britânica

Bloomberg

Presença de farinha de carne e ossos na ração do gado foi considerada a causa do surto de "vaca louca" no Reino Unido

Depois de quase um quarto de século, o governo do Japão levantou o veto às importações de carne britânica, nas vésperas da visita do primeiro-ministro japonês, Shinzo Abe, ao Reino Unido.

A proibição havia sido imposta em 1996, depois de um surto de encefalopatia espongiforme bovina no Reino Unido. Acredita-se que a mal da "vaca louca", como é conhecido popularmente, provoque em humanos a doença de Creutzfeldt-Jakob, que é fatal.

A remoção da proibição não apenas permite a Abe trazer um presente à primeira-ministra britânica, Theresa May, mas também chega no momento em que o Reino Unido está deixando a União Europeia, que impôs restrições às exportações de alimentos japoneses depois do desastre nuclear de Fukushima, em 2011.

O Ministério da Saúde do Japão informou que, após discussões com o governo britânico e de inspeções no Reino Unido, "a importação de carne e órgãos bovinos vai recomeçar". Foi mantido, porém, o veto sobre a carne de vacas com mais de 30 meses e sobre certas peças, como a medula espinhal, consideradas de alto risco para a transmissão da doença da "vaca louca".

O Reino Unido passou décadas insistindo que sua carne era segura e que a proibição não tinha justificativa científica. A UE levantou seu veto às carnes britânicas depois de dez anos, em 2006, e a China fez o mesmo em 2018.

Da mesma forma, o Japão insiste que os alimentos de Fukushima e províncias vizinhas são seguros. Em 2018, a UE abandonou a exigência de certificados para certos alimentos, incluindo o arroz de Fukushima, embora tenha mantido algumas restrições.

Apesar da proibição à carne britânica, o Reino Unido ajudou na campanha japonesa contra as restrições a suas exportações de alimentos, como em 2017, quando Boris Johnson era secretário de Comércio Exterior, e bebeu na frente das câmeras um suco de pêssegos de Fukushima.

Abe viajou para a Holanda nesta quarta-feira. Na quinta, voa para o Reino Unido, onde se espera que vai voltar a encorajar May a evitar uma saída não negociada da UE. Isso vai ser considerado como um apoio implícito ao acordo de saída que a primeira-ministra luta para aprovar no Parlamento.

"O mundo está observando a saída britânica da UE", disse Abe, antes de partir, no aeroporto de Haneda, em Tóquio. "Gostaria de dizer a May o que o Japão pensa e discutir isso com ela". Ele também disse considerar "extremamente válido" discutir com May o risco de uma saída não negociada.

O recente acordo de livre comércio entre UE e Japão vai reduzir as tarifas do país sobre a importação da carne europeia de 38,5% para 9% ao longo de um período de 15 anos, o que traz boas oportunidades de exportação para os criadores britânicos, caso consigam garantir as mesmas condições após o Brexit.

O Japão, porém, também reduziu suas tarifas de importações da Austrália, Canadá e Nova Zelândia, sob os termos da Parceria Transpacífico (TPP, na sigla em inglês), e provavelmente vai oferecer concessões similares aos Estados Unidos nas negociações comerciais marcadas para começar daqui a alguns meses. (Tradução de Sabino Ahumada)

Contexto

A abertura do mercado de carne bovina do Japão ao Reino Unido foi a segunda anunciada pelo país asiático desde dezembro de 2018. Além dos britânicos, os exportadores do Uruguai conseguiram a autorização para vender carne bovina aos japoneses. Trata-se de um mercado muito cobiçado. Segundo o Departamento de Agricultura dos EUA (USDA), o Japão é o terceiro maior importador de carne bovina. Líder na exportação, com cerca de 20% do comércio global de carne, o Brasil não pode vender ao Japão. Historicamente, autoridades japoneses utilizam o status sanitário do Brasil para o vírus da febre aftosa como um argumento para evitar a abertura. Com o aval dado ao Uruguai, que possui um status semelhante ao brasileiro, o argumento perdeu força, segundo frigoríficos nacionais (LHM).

Fonte: Valor | Por Robin Harding | Financial Times, de Tóquio