Já são menos positivas as perspectivas para o confinamento no país

Dado Galdieri/Bloomberg / Dado Galdieri/Bloomberg
Confinamento em Barretos, no interior de São Paulo: no início do ano, expectativa era de crescimento superior a 15%

Afetada nos últimos dois anos pela escalada dos preços dos grãos e pelos pesados custos para a aquisição de animais, a criação de bovinos no sistema intensivo de confinamento no país iniciou 2014 com perspectivas promissoras, com previsões de avanço de mais de 15%. Embalados pela disparada das cotações do boi gordo, que atingiu patamar recorde em março em consequência da severa estiagem que castigou as pastagens do Centro-Sul do Brasil, os confinadores vislumbravam margens "gordas", mas um balde de água fria caiu sobre os mais otimistas em abril.

Em meio à queda dos preços do boi e dos custos de produção mais salgados nas últimas semanas – notadamente nos casos do milho e do boi magro -, alguns analistas já questionam a magnitude do crescimento que de fato será registrado nessa criação intensiva. Em alguns casos, a margem do confinador já está ameaçada.

Neste momento, porém, parece claro que o crescimento durante o chamado "primeiro giro" do confinamento está dado. As dúvidas dos analistas pairam sobre o "segundo giro", considerado o mais importante. Tradicionalmente, o uso do sistema de confinamento no Brasil se concentra na entressafra das pastagens (entre maio e novembro), como forma de complementar a oferta de boi gordo. Em 2013, foram confinados cerca de 4 milhões de bovinos no Brasil, ou pouco mais de 10% dos abates totais.

Durante a entressafra, o sistema tem seu nível de capacidade mais utilizado entre agosto e novembro – o chamado "segundo giro". Isso ocorre porque os efeitos da entressafra sobre a oferta de boi gordo criado a pasto são maiores a partir de agosto. Desse modo, o número de animais confinados de maio a julho – o "primeiro giro" – costuma ser menor. Cada bovino fica, em média, 90 dias no confinamento. Portanto, um mesmo confinamento pode ter sua capacidade utilizada duas vezes durante a entressafra.

"A expectativa é de crescimento, mas tudo ainda está meio nebuloso", diz a analista Lygia Pimentel, da consultoria FCStone. Ela lembra que, em abril de 2013, grande parte dos especialistas também projetava aumento no número de animais confinados. Mas a alta do preço do boi magro frustrou as expectativas e o volume confinado caiu 10%, segundo estimativa da Associação Nacional dos Confinadores (Assocon).

A alta do boi magro voltou a assombrar os criadores nas últimas semanas, num movimento que pode ter consequências no segundo giro e se refletir, inclusive, em uma pressão de alta sobre os preços do boi gordo entre outubro e novembro, o auge da entressafra.

De acordo com Bruno Andrade, gerente executivo da Assocon, os associados da entidade, que representa os maiores confinadores do país, não garantiram sequer a compra de um número de boi magro – animal entre 11 a 14 arrobas – suficiente para igualar o volume confinado no ano passado. "Só garantimos 70% do gado até agora", afirma ele.

Nesse contexto, a estimativa inicial da Assocon de um robusto crescimento de 16% não deve mesmo se realizar – esse número deve ser revisto pela metade até o fim do ano, acredita Andrade. "A reposição está cara. A margem do confinador não vai ser tão folgada, mas ainda assim esperamos ter crescimento", afirma.

Conforme Lygia Pimentel, da FCStone, a atual cotação do boi magro – em torno de R$ 1.300, segundo levantamento do Cepea/Esalq – ainda traz uma margem positiva para o confinador. Mas ela diz que é cada vez mais difícil comprar o boi magro a R$ 1.300. Em alguns casos, afirma, o animal já chega a custar R$ 1.400, o que começa a achatar margens.

JBS e Minerva Foods, dois dos maiores frigoríficos do país, ainda estão mais otimistas. Na avaliação das empresas, a pecuária brasileira passa por um momento de intensificação de tecnologia que naturalmente elevará o uso dos confinamentos, em parte porque as áreas de pastagens vem diminuindo no Brasil, cedendo área para as lavouras de culturas como a soja.

Fernando Saltão, diretor da área de confinamentos da JBS, discorda da avaliação que considera o sistema intensivo de engorda como um modelo especulativo, que se movimenta à mercê das cotações do boi no mercado futuro. Conforme Saltão, o perfil dos produtores que utilizam os confinamentos da JBS o fazem de maneira estratégica. "O confinamento está virando uma indústria para o ano todo", afirma ele.

Diante dessa avaliação, Saltão estima que o número de bovinos confinados nas unidades da JBS deve crescer para cerca de 250 mil animais, ante os 230 mil bois do ano passado. Os confinamentos da JBS tem capacidade estática para abrigar 190 mil animais.

A Minerva também tem boas perspectivas. Segundo Fabiano Tito Rosa, gerente de pesquisa de mercado da empresa, nem a alta "não esperada" do milho prejudicará o confinamento. Já a Marfrig, outro frigorífico de peso, é mais conservadora. "O preço do boi gordo para outubro [no mercado futuro] não está estimulando", diz José Pedro Crespo, gerente de compra de gado da empresa. Segundo ele, a conta do confinamento "não está fechando" devido às altas de boi magro e milho.

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Fonte: Valor | Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

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