Irrigação responde por 69% do volume consumido no país

Regis Filho/Valor / Regis Filho/Valor
A agricultura irrigada está no centro do debate, porque apesar ter produtividade maior seu desempenho não é ideal

O boi já foi apontado como vilão da sustentabilidade, no que diz respeito ao consumo excessivo de água. De fato, bebe bem – cerca de 50 a 80 litros por dia, dependendo da raça, temperatura local, níveis de insolação, umidade relativa do ar, alimentação e manejo. Segundo estudos da organização Water Footprint Training, sediada na Holanda, para se obter um quilo de carne são necessários 15,4 mil litros de água, considerando todas as etapas do processo produtivo, do nascimento do animal até a mesa dos comensais. Tal estudo considerou a realidade europeia, em grande parte diferente do Brasil mas, mesmo menor, caso o levantamento fosse replicado aqui, o número impressionaria.

O cálculo da WFT inglês inclui a água absorvida por meio dos alimentos habituais (volumosos, concentrados e suplementos) até o abate aos três anos de idade, o que o boi bebeu neste período, os gastos no transporte etc. Outros números: para produzir um quilo de queijo é preciso 5 mil litros de água; um quilo de arroz, 2,5 mil; um quilo de pão de forma tradicional, 1,6 mil litros; um litro de leite, mil litros; um de cerveja, 300.

A pecuária não é, porém, o setor que mais consome água no Brasil. Segundo o Relatório de Conjuntura dos Recursos Hídricos da Agência Nacional de Água (ANA), é a irrigação. Considerando as demandas consuntivas – nos quais parte da água utilizada no processo produtivo não retorna à sua fonte original -, o Brasil retira 1.841,5 metros cúbicos por segundo de suas fontes. A irrigação responde por 47% do volume; os sistemas de abastecimento urbano, 26%; a indústria, 17%; os animais, 8%; e a população rural, 2%. Do total, o país utiliza 986,4 metros cúbicos por segundo, assim distribuídos: irrigação, 69%; animais, 12%; abastecimento urbano, 10%; indústria, 7%; e população rural, os mesmos 2%.

"Não gosto muito da palavra consumo neste contexto, porque ela induz a erros de interpretação", diz Devanir Garcia dos Santos, gerente de uso sustentável da água e do solo da ANA. Por isso, o emprego dos termos "consuntivos" e "não consuntivos" no Relatório de Conjuntura – uso não consuntivo é aquele cujas águas retornam à fonte de suprimento em sua totalidade após utilizadas, como ocorre na piscicultura, na navegação, na recreação, na hidroeletricidade e em outras áreas de atividade.

"Quando alguém diz, por exemplo, que um boi consome "xis" litros, muita gente subentende que o líquido ingerido se exauriu, esquecendo-se da evapotranspiração, do ciclo natural, enfim. Na verdade, a água na natureza é sempre a mesma", diz. A relação volume de água versus produto acabado é emblemática, segundo ele. Foi definida há quase 20 anos, quando o pesquisador inglês A.J. Allan concluiu estudo a respeito em várias cadeias alimentares e cunhou a expressão "água virtual" para designar a água embutida e normalmente não contabilizada nos processos produtivos, como a contida nos volumosos, concentrados ou suplementos utilizados nos sistemas de confinamento ou as gramíneas ruminadas pelo boi quando solto no pasto – de 75% a 85% da estrutura corpórea dos vegetais ou animais, não custa lembrar, é formada por água. De lá para cá, a proporção vem sendo discutida e debatida em artigos, palestras, conferências, sites e blogs, mas ainda presta-se a malentendidos.

Para Devanir, um dos maiores entraves ao consenso nacional sobre sustentabilidade e o consequente aperfeiçoamento da legislação sobre recursos hídricos e gestão das águas é a desinformação. "A Rio+20 é uma oportunidade e tanto para a sociedade brasileira aparar arestas e definir um caminho que atenda a todos", afirma, referindo-se, indiretamente, à polêmica entre ruralistas, ambientalistas, pesquisadores e outros setores da sociedade civil sobre o novo Código Florestal, ainda em tramitação no Congresso.

A agricultura irrigada está no centro do debate. Segundo a ANA, as lavouras brasileiras ocupam 54,2 milhões de hectares de área, dos quais 4,5 milhões são irrigados. A produtividade é, em média, três vezes maior do que as lavouras de sequeiro, podendo chegar a 10 ou 12 vezes mais em cultivos específicos. Porém, como o próprio governo e entidades representativas do agronegócio admitem, seu desempenho está longe do ideal.

"A ineficiência é um dos aspectos centrais da questão ambiental", afirma o professor Marcos Folegatti, titular do Departamento de Engenharia de Biossistemas da Escola Superior de Agricultura Luis de Queiroz (Esalq), de Piracicaba (SP). "Qualquer ineficiência no sistema de produção implica em grandes volumes de água retirados dos mananciais desnecessariamente, que poderiam ser utilizados para produzir mais alimentos ou liberados para outros setores sem ampliar o volume de captação, diminuindo assim a pressão sobre os recursos hídricos", destaca.

Fonte: Valor | Por José Augusto Bezerra | Para o Valor, de São Paulo

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