Irrigação gera classe de emergentes para negócios no campo

MARCOS NAGELSTEIN/JC

Strada (primeiro à direita) e o grupo de produtores de Chiapeta desembarcaram em Esteio

Strada (primeiro à direita) e o grupo de produtores de Chiapeta desembarcaram em Esteio

O agricultor Vanderlei Strada, o irmão Marcos, o sogro Emílio Ortmann e os vizinhos de lavoura Airton Schwambach e Maurício Schäfer integram a classe emergente da Expointer 2012. O grupo desembarcou no Parque Assis Brasil na quarta-feira com uma única missão: comprar maquinário para irrigação, segmento que pode não ser o mais significativo em cifras de venda do setor na mostra, mas é o mais badalado. A clientela, que alimenta negócios de um ramo até então inexpressivo em 35 anos de feira, foi fisgada pelo abatimento de parcelas e menos burocracia nas licenças ambientais e outorga de água, quitutes do programa estadual Mais Água, Mais Renda.
Donos de pequenas áreas de terra, onde cultivam soja, milho e pastagem para vacas leiteiras, os colonos de Chiapeta, localizada no Alto Uruguai, somarão 80 hectares irrigados em 2012. Nos próximos anos, pretendem fazer mais, assim como o governo, que projeta dobrar os atuais 70 mil hectares de milho e soja irrigados em quatro anos. Strada vai gastar R$ 104 mil para levar água a 15 dos 70 hectares. Fez as contas e aposta que a produtividade pagará a despesa. “Agora só perco safra se vier granizo”, compara o agricultor, que teve quebra de 90% da soja na safra passada. Do grupo, só Valdemar Maçalai ainda não se decidiu pelo investimento. “Já tenho o projeto. Só falta contratar”, conta Maçalai. Os amigos previnem que é bom não arriscar.
Fabricantes dos equipamentos, que ganharam uma quadra exclusiva na feira deste ano, registram demanda bem acima da projetada e apostam que as aquisições vieram para ficar. “É uma barbada a linha de crédito, e o comprador paga cinco das sete parcelas”, resume Carlos Barbieri, superintendente de negócios rurais do Banrisul, que somou até esta quinta-feira R$ 2,6 milhões em vendas de 16 maquinários. O coordenador-técnico do programa, Paulo Lipp, já eleva de 400 para 500 produtores com projetos para implantar. “A demora é de três a seis meses, pois cada equipamento é sob medida”, contabiliza. A estratégia da Secretaria da Agricultura tem sido formar uma rede de assistência técnica e adesão ao programa com o envolvimento da Emater-RS, cooperativas e até varejo de máquinas.
O diretor-presidente da fabricante Fockink, Siegfried Kwast, compara o volume de negociações de máquinas com a principal feira da cultura de grãos, a Expodireto, de Não-Me-Toque. “Não esperava que fosse tanto. O produtor tem tudo para contratar e ficou mais ágil”, garante Kwast, que opera com a fábrica em Panambi em três turnos 24 horas. O dono da Hidrotec, Genésio Hendler, espera negociar 50 unidades de carretéis de irrigação (que operam com mangueiras) até este sábado. O volume equivale a cinco meses de pedidos da empresa.
No estande da americana Valmont, o engenheiro-agrônomo Vinícius de Melo diz que os pedidos estão 30% acima do esperado. “Vendemos dez equipamentos em um dia”, comemora Melo. Novato na venda de pivôs e carretéis, Pedro de Oliveira, que vende a marca Krebs na região da Campanha, ostenta dados sobre ganhos de produtividade com irrigação e só reclama da tramitação de linhas de crédito de maior valor, que dependem do aval do Bndes. “Tem agropecuarista pagando com recursos próprios”, cita.
O pecuarista de Quaraí Luiz Antônio Goldztein decidiu implantar, neste ano, pivôs em 40 dos 2,5 mil hectares de campo. “Quero elevar o índice de animais por hectare com estabilidade da pastagem e só estou começando”, projeta Goldztein.

Juros menores do PSI devem impulsionar vendas

O maior saldo em vendas ligadas a máquinas para irrigação ocorre para linhas da agricultura familiar, mas o recente corte de juros do PSI-Finame, que passarão de 5,5% para 2,5% ao ano, anunciado na quarta-feira pelo governo federal, deve ampliar a captação em segmentos de médio e grande porte de produtores. Como a política depende de oficialização pelo Banco Central (BC), instituições como Badesul deverão assinar os contratos após a feira e devem rever taxas dos financiamentos que ainda não foram repassados, antecipou o diretor-presidente do banco de fomento, Marcelo Lopes.
A instituição superou nesta quinta-feira o saldo de negócios global de toda a Expointer de 2011. O volume chegou a R$ 302,7 milhões, em 320 pedidos, ante R$ 272 milhões do ano passado em 263 demandas. Tratores e colheitadeiras lideraram o estoque. Do volume total, 23 foram de pacotes de equipamentos para levar água à lavoura, um crédito de R$ 14 milhões “Este volume ajudou sim, pois não tínhamos este segmento. Já superamos a meta global que era de R$ 300 milhões. O que vai ocorrer daqui para frente só Deus sabe”, diagnostica Lopes.
O presidente do Sindicato das Indústrias de Máquinas e Implementos Agrícolas do Estado (Simers), Cláudio Bier, disse que se o corte do PSI tivesse chegado 15 dias antes teria mudado a história do faturamento do setor. “Poderíamos alcançar R$ 1,5 bilhão”, avaliou Bier, que espera nível próximo a R$ 1 bilhão. O diretor-presidente da Fockink, Siegfried Kwast, espera uma corrida às máquinas até dezembro. “Quem estava em dúvida de contratar, vai deixar de estar. Quando teremos taxa tão boa como essa?”, provoca o industrial.

Fonte: Jornal do Comércio | Patrícia Comunello

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *