Investigação sobre fraude no leite ainda está longe do fim

Operação do Ministério Público Estadual em conjunto com o Ministério da Agricultura é ampliada no Estado e atua sobre núcleos em Rondinha, Boa Vista do Buricá e Horizontina

Investigação sobre fraude no leite ainda está longe do fim Ricardo Duarte/Agencia RBS

Investigadores recolheram amostra de leite cru de caminhão-tanque numa propriedade em Rondinha Foto: Ricardo Duarte / Agencia RBS

Carlos Wagner

carlos.wagner@zerohora.com.br

Mais cinco mandados de prisão cumpridos pelo Ministério Público do Estado (MPE) e pelo Ministério da Agricultura não significam o fim da busca por fraudadores do leite. As informações que serão obtidas no material apreendido e nos interrogatórios dos supostos envolvidos estão ajudando a montar o esqueleto das próximas operações, sempre com foco nos postos de resfriamento, que recebem o produto dos caminhoneiros e encaminham para as indústrias.

A segunda fase da operação Leite Compen$ado começou ainda na noite de terça-feira e se estendeu até a manhã de quarta-feira com três equipes formadas por 26 policiais, 10 servidores do MPE e seis promotores de Justiça em Rondinha, Boa Vista do Buricá e Horizontina. O esquema busca elevar os ganhos por meio de adição de água e ureia com formol no leite.

Dias antes, havia sido montada uma base de operações em Palmeira das Missões. Policiais tinham a missão de vigiar os passos dos suspeitos, enquanto eram feitos os últimos ajustes nos pedidos de prisões preventivas.

Quando a Justiça concedeu os mandados, a primeira prisão efetuada foi a do vereador Larri Lauri Jappe (PDT), de Horizontina, empresário transportador de leite cru. O MPE temia que Jappe estivesse preparando uma fuga. Na Câmara de Vereadores da cidade, foi aberta ontem comissão parlamentar de inquérito para apurar quebra de decoro de Jappe.

Em Rondinha, foram presos os irmãos Antenor Pedro Signor e Adelar Roque Signor, e o caminhoneiro Odirlei Focalli. O quinto pedido de prisão foi de Daniel Riet Villanova, recolhido no Presídio Estadual de Espumoso desde a primeira fase da operação.

Lista com os lotes de leite adulterado divulgada pelo Ministério Público

Na casa do transportador Paulo Rogério Schultz, em Boa Vista do Buricá, foi encontrado um papel indicando variação da fórmula já conhecida pelo MPE para adulteração do leite: uso de açúcar e sal para disfarçar o acréscimo de ureia.

– Cada um aplica a sua fórmula – afirma Mauro Rockenbach, promotor de Justiça responsável pela operação, ao descartar a chance de a receita ser a mesma usada para adulteração em outros núcleos de produção.

Esquemas de cada núcleo operariam de forma independente há pelo menos um ano, segundo o MPE

Rondinha
Os empresários Antenor Pedro Signor e Adelar Roque Signor levariam leite adulterado ao posto Marasca, de Selbach, onde supostamente contavam com ajuda de técnicos para vender leite inadequado. Depois que o MP interditou o posto, passaram a resfriar o leite a um local próximo a Três de Maio, também com fiscalização deficiente. O leite era vendido para a associação de cooperativas paranaense Confepar e para a gaúcha VRS, fabricante da marca Latvida. Três pessoas foram presas.

Boa Vista do Buricá
Seria comandado por um caminhoneiro que recolhe leite em vários locais no interior do município e em Três de Maio. Conforme o MPE, ele fraudava o leite com ureia e o entregava em vários postos de resfriamento. Teriam sido adulterados 6,5 mil litros de leite que seria enviado à Confepar. O Ministério Público fez o pedido de prisão preventiva do empresário, rejeitado pela Justiça. Novo pedido foi feito. Um mandado de busca e apreensão em um caminhão foi cumprido.

Horizontina
Seria coordenado por Larri Lauri Jappe, vereador do PDT. Na primeira operação, o MPE pediu a prisão, mas não foi concedida pela Justiça. Na ocasião, foram encontradas na propriedade dele três toneladas de ureia e, em uma das cargas de leite, foram encontrados traços de ureia com formol. Nesta quarta-feira, após a Justiça aceitar um novo pedido de prisão, Larri Jappe foi detido. Vendia para a indústria da LBR, fabricante da marca Líder, em Crissiumal.

Ibirubá
Produtores receberiam o pagamento da indústria por uma quantidade acima do que realmente haviam vendido e dividiriam o lucro com transportadores e técnicos do posto de refrigeração da Marasca, em Selbach. A mistura era feita nos caminhões ou em propriedades sem condições de armazenar o produto. O leite seria vendido para as indústrias Mu-mu, Italac e Confepar, no Paraná. Foram denunciados 11 suspeitos, e seis estão presos. O posto da Marasca foi interditado no dia 8 de maio.

Guaporé
Foram denunciados pelo MP Leandro e Luis Vicenzi, sócios-proprietários da empresa LTV. Em um posto de refrigeração próprio, já interditado, eles fariam a adulteração e revenderiam a diversas indústrias do Estado, como a VRS, fabricante do Latvida, e a Pavlat, de Paverama. Leandro e Luis foram indiciados.

O que dizem
Larri Lauri Jappe
O advogado Kácio Gelain afirmou que o suposto risco de fuga do seu cliente, que motivou a prisão, não se mostrou justificado – sendo que o suspeito sempre permaneceu na cidade, sendo preso em casa. Quanto às três toneladas de ureia apreendidas na propriedade de Jappe, argumentou que a mercadoria se tratava de estoque de um comércio colonial do vereador, na Vila Cascata, e que, desde a primeira operação, o vereador se mostrou disposto a colaborar com a investigação – apresentando documentos e relatórios de coletas.

Antenor Pedro Signor, Adelar Roque Signor e Odirlei Focalli
O advogado dos três, Marcelo Gregianin, disse que ainda não teve acesso aos autos, e que falará depois de estudar a documentação.

Daniel Riet Villanova (que já estava preso no presídio de Espumoso)
O advogado Paulo Cesar Garcia Rosado afirmou que seu cliente não recebeu notificação e não teve acesso ainda ao novo pedido.

ZERO HORA – Rondinha

Fonte: Zero Hora

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