Investigação flagra leite com ureia e água no RS

Fernando Goettems/Agência RS / Fernando Goettems/Agência RS

Galpão em Ibirubá, onde grupo teria fraudado leite antes de enviar a indústrias

O Ministério da Agricultura e o Ministério Público Estadual do Rio Grande do Sul (MPE) desbarataram ontem um esquema de adulteração de leite cru com água e ureia praticado por cinco transportadoras nos municípios de Ibirubá, Tapera, Selbach, Horizontina, Crissiumal e Guaporé.

A chamada operação "Leite Compen$ado" resultou na prisão preventiva de seis pessoas ligadas às empresas. Três entrepostos de resfriamento foram interditados, e a indústria Latvida teve as instalações lacradas pela Secretaria Estadual da Agricultura por também apresentar problemas adicionais, como más condições de higiene.

Os suspeitos movimentaram 100 milhões de litros de leite desde abril de 2012, quando começaram as investigações. Eles adicionavam água para aumentar o volume do produto destinado à elaboração de leite UHT das marcas Líder, Mu-Mu, Italac e Latvida e acrescentavam ureia para compensar a perda nutricional provocada pela diluição. A ureia contém formol, considerado cancerígeno pela Organização Mundial de Saúde (OMS) e pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer, informou o MPE.

A Secretaria Nacional do Consumidor (Senacon) do Ministério da Justiça também notificou as empresas responsáveis pelas marcas envolvidas. Elas terão 10 dias, após o recebimento, "para apresentar a documentação técnica e laboratorial pertinente ou, de forma imediata, o recall dos produtos envolvidos, nos termos do Código de Defesa do Consumidor", informou, em nota, o ministério.

A fraude foi comprovada por análises químicas que identificaram a presença do formol no produto final mesmo após a pasteurização. O MPE informou que mais de 100 toneladas de ureia foram compradas pelos acusados e que até agora foi possível detectar a substância em nove lotes de leite longa vida das quatro marcas. Todos eles foram retirados do mercado. A adulteração configura crime hediondo de corrupção de produtos alimentícios, previsto no artigo 272 do Código Penal.

A chefe da divisão de defesa agropecuária do Ministério da Agricultura no Estado, Ana Stepan, atribuiu às indústrias parte da responsabilidade pelos possíveis danos aos consumidores. Segundo ela, as empresas devem fazer o "autocontrole" da qualidade do produto final, apesar da fiscalização periódica do MAPA. Conforme o ministério, mais de 300 mil litros de leite foram bloqueados nos três entrepostos de resfriamento interditados e há suspeitas de que parte do produto contaminado era levada regularmente para o Paraná, pois entre os presos está um veterinário daquele Estado.

Em nota, a Líder, marca da LBR – Lácteos Brasil, informou que o leite UHT da empresa apontado na investigação foi retirado do mercado em fevereiro. Disse ainda que descredenciou cinco transportadoras terceirizadas de leite cru e fechou um dos postos de resfriamento no Estado por causa da ação de fraudadores na região. A Líder afirmou que faz dupla checagem, nos postos de resfriamento e na fábrica, mas desde janeiro não detectou nenhuma adulteração no leite cru recebido.

A Mu-Mu, do grupo gaúcho Vonpar, divulgou nota observando que a investigação está focada "no transporte entre o produtor e os postos de resfriamento, onde o produto fica armazenado antes da entrada em nossa fábrica", e afirmou que atende "a todos os requisitos e protocolos de testes de matéria-prima exigidos pelo Ministério da Agricultura". A Italac informou que "o problema foi pontual" e "aconteceu no transporte do leite cru entre a fazenda e o laticínio, antes de ser industrializado".

O Sindicato das Indústrias de Laticínios do Rio Grande do Sul (Sindilat-RS) e a Associação Brasileira da Indústria de Leite Longa Vida (ABLV) também divulgaram notas isentando as empresas do setor. As entidades afirmaram que as indústrias foram "prejudicadas" pela adulteração de leite cru e garantiram que os estoques disponíveis no varejo estão aptos para o consumo. O Valor tentou contato por telefone com a Latvida, mas não foi atendido. (Colaboraram Alda do Amaral Rocha, de São Paulo, e Thiago Resende, de Brasília)

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Fonte: Valor | Por Sérgio Ruck Bueno | De Porto Alegre

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