Intervenções do governo preocupam

A combinação de fatores favoráveis ao segmento arrozeiro não impede que representantes dos agricultores e da indústria apontem motivos particulares de apreensão. Entre os produtores, o temor é com uma eventual intervenção do governo federal caso os preços passem a representar uma ameaça real para o aumento da inflação, enquanto os beneficiadores reclamam que o ritmo de venda da matéria-prima está mais lento do que o desejável.

"Os produtores estão fazendo uma retenção um pouco excessiva da safra", afirma o presidente do Sindicato da Indústria do Arroz do Rio Grande do Sul (Sindarroz-RS), Elton Doeler. Segundo ele, não existe falta de produto no mercado nem de estoques nas beneficiadoras, mas a comercialização do grão está em uma faixa de 600 mil toneladas por mês, ante uma média mensal de consumo de 1 milhão de toneladas.

Para o empresário, "quanto maior o preço do arroz, maior a rentabilidade do negócio", mas o segmento precisa de "fluidez" do abastecimento ao longo do ano para evitar variações bruscas no momento em que o produto vai a mercado. Ele diz que, apesar do fortalecimento das grandes empresas, a indústria arrozeira não é "cartelizada" e as altas de custos não foram integralmente repassadas aos consumidores no varejo.

A defasagem no preço final chega a 10% e, em algum momento, terá que ser eliminada, o que pode forçar a venda dos estoques públicos para conter a alta, entende Doeler. O volume nas mãos do governo, entretanto, é de apenas 561 mil toneladas. Para o consultor Carlos Cogo, o maior "fantasma" que paira sobre os produtores é a possibilidade de retirada da Tarifa Externa Comum (TEC) de 12% sobre as importações de arroz beneficiado de fora do Mercosul.

O arroz tailandês, por exemplo, que na relação equivalente ao produto em casca chega hoje ao Brasil por cerca de R$ 34,70 a saca de 50 quilos (incluindo o frete), sem a TEC cairia para menos de R$ 32, o que daria forte estímulo à importação por parte da indústria, alerta Cogo. "Mesmo sem zerar a tarifa, já tem gente fazendo as contas para importar por causa da alta dos preços", comenta o consultor.

O presidente da Federação das Associações de Arrozeiros do Rio Grande do Sul (Federarroz), Henrique Dornelles, reconhece que, além da alta das exportações e da introdução da soja na várzea como fonte de renda complementar, a moderação do governo na oferta de arroz no ano passado contribuiu para o "bom momento" do segmento. Mesmo assim, ele admite que os produtores ficam "apreensivos" com a possibilidade de intervenção porque o arroz pesa na inflação e é um "produto político".

Em 2013, a Conab vendeu pouco menos de 230 mil toneladas em leilões nos meses de janeiro, julho, setembro e novembro, quando as cotações da saca estavam acima de R$ 34, e também em dezembro, quando o valor atingiu R$ 36. Já no ano anterior, foram vendidas 300 mil toneladas em pregões a partir de agosto. "O governo agiu no momento certo para não penalizar o consumidor nem deixar o preço cair demais", avalia o presidente do Instituto Riograndense do Arroz (Irga), Cláudio Pereira.

Conforme Dornelles, as condições atuais permitem pensar em uma ampliação da área plantada no Rio Grande do Sul, que oscila de 1,1 milhão de hectares para 1,25 milhão – ou até 1,3 milhão de hectares – sem impactos negativos nos preços. O principal gargalo, porém, é o sistema logístico, principalmente para escoamento da produção dos municípios da fronteira oeste do Estado para o porto de Rio Grande e para a região Sudeste do país, diz ele.

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Fonte: Valor | Por Sérgio Ruck Bueno | De Porto Alegre

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