Interesse chinês pelos lácteos traz euforia ao setor

A abertura do maior mercado importador de lácteos do mundo ao produto brasileiro pode mudar completamente o atual cenário do setor que, no Rio Grande do Sul, enfrenta grave crise. Apenas ao anunciar, ontem, que passaria a importar leite em pó, leite condensado e queijo do Brasil, a China já mudou o ânimo da indústrias por aqui e deu nova liquidez ao produto. Basta lembrar que hoje o País tem em estoque cerca de 50 mil toneladas de leite em pó, segundo o Sindicato da Indústria de Laticínios e Produtos Derivados do Estado (Sindilat), o que pressiona os preços para baixo. Para o secretário-executivo do Sindilat, Darlan Palharini, a simples perspectiva de ter uma nova porta de escoamento ao produto já é suficiente para reanimar o combalido ânimo do setor e as constantes oscilações e quedas nos preços. Para se ter uma ideia da importância do anúncio, o gigante asiático costuma importar anualmente 800 mil toneladas de leite em pó, o que equivale a 132% de toda a produção brasileira (600 mil toneladas). Números como esse levam o superintendente técnico da Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA), Bruno Lucchi, a considerar o anúncio como das melhores e mais importantes medidas para o agronegócio nos últimos anos. "E vale destacar que a cadeia do leite é feita basicamente por pequenos e médios produtores, que serão os grandes beneficiados quando as exportações efetivamente começarem, o que agora vai depender de câmbio, negociações, regulamentações e outras questões", explica Lucchi. A Viva Lácteos, Associação Brasileira de Laticínios, avalia que a expectativa é que, após o processo de habilitação, o País possa exportar US$ 4,5 milhões em produtos lácteos. De acordo com o Ministério da Agricultura, o Brasil tem 24 empresas do setor habilitadas a embarcar esses produtos para o mercado chinês. Ainda que a pasta não tenha divulgado os nomes, o Sindilat afirma que no Rio Grande do Sul, de um total de sete empresas habilitadas às exportações em geral, ao menos duas já têm permissão para vender ao mercado chinês, a CCGL e Dália, além de possivelmente a planta da Lactalis no Estado. As exportações gaúchas de lácteos, hoje equivalente a menos de 1% da produção, de acordo com Sindilat, tendem a ser significativamente catapultadas. De acordo com o diretor de Políticas Agrícolas do governo do Estado, Ivan Bonetti, os lácteos, hoje inexistentes na lista dos 30 principais produtos exportados pelo Estado, poderão aparecer rapidamente entre os 15 maiores, apenas para começar. Mas obviamente há alguns obstáculos que o País ainda terá de equacionar para ser competitivo no outro lado do mundo, explica o secretário-executivo do Sindilat. Uma das dificuldades a serem contornadas é o preço brasileiro, que hoje não é competitivo no mercado internacional, diz Palharini. "A cotação global, hoje, é de US$ 3,1 mil por tonelada, o que equivale a cerca de R$ 11 mil com o câmbio em R$ 3,7. No Brasil, a tonelada vale R$ 15 mil", calcula o representante do sindicato. Palharini pondera, no entanto, que o governo brasileiro poderá dar um impulso inicial com apoio para equalização e suporte aos embarques no porto, como alternativa. O executivo calcula, por exemplo, que se em vez de apoiar o setor a reduzir o atual estoque e melhorar os preços no mercado interno com a aquisição de 30 mil toneladas, com um custo de R$ 450 milhões, poderia aplicar R$ 50 milhões como apoio às exportações desta quantidade. "Mas, independentemente de termos, hoje, um preço competitivo, o fato é apenas ter uma nova janela que irá regular melhor o mercado interno e suas grandes oscilações", comemora Palharini. Para o superintendente técnico da CNA, as perspectivas são imensas. Isso porque a China, se convertidos todos os produtos à base de leite em litros, consome apenas 100 ml per capita por ano. No Brasil, para efeito de comparação, diz Lucchi, são 500 ml. E o Brasil tem reais e grandes chances de aumentar essa ingestão mesmo que o mercado chinês já seja amplamente abastecido pela Europa e Nova Zelândia (que exporta 95% de sua produção). "A China tem uma característica de sempre tentar diversificar e ampliar parceiros. Além disso, os chineses veem nos importados uma fonte preferencial de segurança alimentar, sem falar que a classe média chinesa cresce ano a ano em população e consumo", analisa Lucchi.

Fonte: Jornal do Comércio

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