Interessados na empresa põem as barbas de molho

A Continental Grain, multinacional que atua e investe no setor de agronegócio, colocou em compasso de espera uma articulação silenciosa que fazia junto com grandes fundos internacionais para construir uma participação expressiva, de 30% ou mais, na BRF. O objetivo era tentar participar da composição de um novo conselho de administração e, junto com os fundos de pensão, dar um norte majoritário ao negócio. Fundos de longo prazo e companhias de alimentos estrangeiras que sempre mantiveram a BRF na mira para possíveis aquisições de fatias relevantes ou até controle acionário também colocaram as barbas de molho, a despeito do preço de liquidação que as ações da companhia atingiram.

A companhia de investimentos do governo de Cingapura Temasek, por exemplo, há anos olha com vontade para a BRF. "Mas no cenário atual seria impossível tentar comprar uma fatia relevante da empresa", disse fonte próxima à Temasek ao Valor. Segundo essa pessoa, a repercussão da operação da Polícia Federal (PF) não é o principal obstáculo, pois "tende a passar". "O problema é que a cadeia de comando da empresa está quebrada, o que transforma a BRF em uma aposta e não em uma tese de investimento", afirmou.

Para banqueiros de investimentos, tampouco os atuais acionistas relevantes, como Abilio Diniz, os fundos de pensão Petros e Previ e a gestora Aberdeen venderiam suas fatias acionárias num ato de desespero. "Não existe urgência de liquidez por parte dos principais acionistas", avaliou. Fontes próximas às fundações também asseguram que não venderão nos atuais preços. A exceção possível seria a gestora Tarpon, que tem sofrido saques de seus cotistas. Mas, ainda assim, a gestora deve evitar vender seus papéis a qualquer preço. "Tem muita gente ciscando, mas a governança é tão enrolada que ninguém tem coragem de fazer um movimento ousado", disse um banqueiro.

Buscando alinhamento com as fundações Petros e Previ, a Continental Grain comprou no mês passado uma pequena participação na BRF – mas antes do tombo gerado pela Operação Trapaça, terceira etapa da Operação Carne Fraca, que chegou a tirar mais de R$ 5 bilhões do valor da companhia. O objetivo da múlti era fazer mais compras, ao mesmo tempo em que outros fundos aumentariam suas aplicações – como a própria Aberdeen e fundos de pensão estrangeiros que ainda estavam conversando. Porém, a Continental agora quer mais clareza do impacto da Carne Fraca sobre a BRF antes de avançar em sua intenção.

Caso se torne possível estimar o tamanho do problema, os planos podem até ser retomados antes da assembleia marcada para 26 de abril para apreciar o pedido de Petros e Previ para destituição do atual conselho de administração e eleição de uma nova chapa. O movimento das fundações, porém, não deve sofrer modificação por causa da Carne Fraca – o que muda é apenas a intensidade da participação de alguns fundos estrangeiros que fariam uma aposta maior.

Alguns nomes convidados para a chapa montada por Petros e Previ (que, se eleita, muda 70% dos conselheiro) já estão prontos para eventuais substituições, seja por mudanças na composição anunciada ou por pedido de voto múltiplo por esse grupo de estrangeiros – de forma amistosamente combinada com as fundações.

O objetivo da Continental e de outros fundos estrangeiros, que poderão representar mais de 50% do capital da BRF é consolidar uma maioria política. Juntos, Petros, Previ e Aberdeen já têm 27%. Não há intenção de formar um bloco de controle formal, mesmo porque isso é dificultado pelo estatuto da empresa, que prevê obrigação de oferta por 100% do capital em caso de formação de fatia superior a 33,3%.

Trata-se de um movimento parecido ao feito pela gestora Tarpon, em 2013, quando atraiu Previ e o empresário Abilio Diniz para um bloco informal na BRF. Em meio aos resultados fracos da empresa, a aliança acabou desfeita.

Na avaliação de fontes do mercado financeiro, compradores estratégicos vão esperar a definição do conselho de administração, do corpo de executivos e dos números dos próximos trimestres, que tendem a ser negativos. Nas contas de um banqueiro, há risco de que o Ebitda (lucro antes de juros, impostos, depreciação e amortização) da BRF em 2018 cair bem abaixo dos R$ 3,2 bilhões do ano passado. "O preço do milho subiu, a Rússia está fechada e outros mercados devem se fechar. É preciso ver como tudo isso vai afetar o resultado da empresa", disse, lembrando que a BRF pode ficar pressionada porque os vencimentos de dívida dos próximos dois anos somam R$ 9 bilhões – quase metade do total bruto (R$ 20,4 bilhões).

O interesse da Continental Grain na BRF é antigo. O americano Paul Fribourg, presidente da multinacional, tem acompanhado de perto a BRF nos últimos três anos. Ele é conselheiro da Restaurant Brands International, empresa da 3G que concentra os investimentos em redes de alimentação como Burger King e Tim Hortons.

Foi lá que Fribourg ganhou proximidade com os investidores brasileiros. O Valorapurou que, no início de 2017, ele procurou a gestora brasileira para uma aquisição mirabolante da BRF, que também incluía uma fusão com a Minerva Foods, que atua no mercado de carne bovina.

Fribourg chegou a se reunir com os principais executivos da Minerva para propor o negócio, e dizer que deixaria nas mãos deles a companhia combinada. As conversas duraram cerca de dois meses, mas não foram adiante. Assim, a Continental já queria começar a comprar ações da BRF na bolsa em 2017, para negociar um prêmio com blocos de investidores, aproveitando o desconto da ação – de lá para cá, o preço só caiu e as incertezas só aumentaram.

Por Vanessa Adachi, Graziella Valenti, Luiz Henrique Mendes e Maria Luíza Filgueiras | De São Paulo

Fonte : Valor

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