Indústria reage a uma nova onda de rejeição a produto modificado

Leonardo Rodrigues/Valor / Leonardo Rodrigues/ValorLavoura de soja em Barreiras (BA); plantio de variedades transgênicas no Brasil já atinge cerca de 80% do total semeado

"Cuidado. Pode conter organismos geneticamente modificados". A placa na gôndola de cereais não está em um mercadinho de bairro da França, onde a desconfiança em relação aos transgênicos é arraigada. Ela foi colocada em Great Barrington, em Massachussets, e tem sido replicada país afora. Nos Estados americanos a discussão sobre a identificação de transgênicos nos rótulos de alimentos também ganha corpo, o que já vem sendo tratado como uma nova onda de rejeição à biotecnologia e obrigou a indústria a sair em defesa própria.

Se as dúvidas voltaram a despontar em um mercado consolidado para as vendas de transgênicos, naqueles ainda a serem conquistados a situação não parece diferente. Estratégica para a expansão da biotecnologia, a China também vê o surgimento de vozes contrárias a ela. Em um movimento intensificado no último ano, ativistas passaram a alardear nas mídias sociais relatos de câncer e outras doenças supostamente provocados por transgênicos, inflamando o debate sobre segurança alimentar no país e o domínio dos EUA no mercado mundial de sementes.

Esse quadro mostra que a transgenia ainda é uma incógnita para muitos. "Em uma visão retrospectiva, erramos em não nos comunicarmos com nossos diferentes públicos", afirmou o chairman e CEO da Monsanto, Hugh Grant, a analistas, enquanto manifestantes protestavam do lado de fora da sede, em St Louis. O mea-culpa inédito era em resposta ao movimento do contra, revitalizado com a "Marcha Mundial contra a Monsanto" e com a versão adaptada de "Occupy Monsanto".

A desconfiança afeta toda a indústria. "O problema", diz uma fonte do setor, "é a contaminação do debate político". Isso pode representar atrasos nas aprovações de tecnologias. "A China é um exemplo disso. Após pressão pública, o plantio de uma variedade de arroz com a tecnologia Bt, resistente a pragas, foi interrompido para a realização de mais testes de segurança", diz.

Por questões políticas, grandes produtores também continuam fechados ao plantio de transgênicos, como Rússia, Ucrânia e Polônia, além de boa parte dos países europeus. Neles, só a importação de matéria-prima alterada para a fabricação de ração animal é permitida.

"Não sei o porquê desse debate. O transgênico está na vida das pessoas há décadas. A insulina é transgênica. A vacina para Hepatite A e B também. Há hoje mais de 300 medicamentos com moléculas recombinantes, salvando vidas, e ninguém fala disso", diz Elibio Rech, pesquisador da Embrapa Recursos Genéticos e Biotecnologia. "Agora vamos elevar a oferta de alimentos melhores do ponto de vista de produtividade ao agricultor e nutricional aos consumidores".

Para tentar reverter esse quadro, as empresas de biotecnologia agrícola abandonaram parcialmente a discrição em favor de uma estratégia de comunicação pró-ativa. Em alguns casos, criaram canais em seus sites, onde o público pode tirar dúvidas com especialistas. Em outros, formaram grupos de trabalho em universidades e de orientação a mães e donas de casa dos EUA preocupadas com a alimentação da família para tentar reduzir a rejeição.

Desde a aprovação do tomate "Flavr Savr", em 1994, e da primeira soja tolerante ao glifosato, em 1996, os transgênicos entraram na dieta humana e animal sem que boa parte das pessoas se desse conta disso.

"Talvez o problema seja que o nosso elo é com o agricultor, e não com o público urbano", diz Geraldo Berger, diretor de regulamentação da Monsanto no Brasil. Diferentemente de outros países, no Brasil houve um arrefecimento das críticas aos transgênicos à medida em que a tecnologia ganhou o campo e o Greenpeace, seu maior opositor, abandonou a bandeira.

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Fonte: Valor | Por Bettina Barros | De São Paulo

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