Indústria do trigo defende política nacional para incentivar produção

Silvia Costanti/Valor

O embaixador Rubens Barbosa, presidente da Abitrigo: incentivos à cadeia

Em meio à perspectiva de retomada da demanda doméstica por pães e outros alimentos à base de trigo, a indústria moageira está apresentando ao governo Bolsonaro uma proposta de política nacional de estímulo à cadeia produtiva para incentivar o crescimento da oferta nacional do cereal.

Nesta semana, a Associação Brasileira da Indústria do Trigo (Abitrigo) vai procurar o Ministério da Agricultura para protocolar a proposta, já apresentada à ministra Tereza Cristina na véspera de sua posse. Segundo o embaixador Rubens Barbosa, presidente da entidade, a ministra recebeu a proposta "com entusiasmo".

"O objetivo é ter um aumento da independência da importação. Mas não significa ter um mercado fechado", afirmou Barbosa ao Valor. Segundo ele, a perspectiva de crescimento do mercado brasileiro tem atraído interesse de países que já fornecem o cereal ao país, como Argentina, EUA – que voltaram a pressionar pela isenção da TEC para uma cota de 750 mil toneladas – e, mais recentemente, Rússia, que realizou um embarque de 26 mil toneladas ao Brasil no ano passado.

Essa política, disse Barbosa, seria uma forma de acompanhar o avanço do consumo. "Não é uma política de substituição de importação, mas de crescimento com a demanda".

Elaborada em 2018, a política reúne propostas sobre mudanças no ambiente legal e regulatório, na produção agrícola, em incentivos fiscais, no estímulo aos investimentos, na facilitação do comércio internacional e em logística e infraestrutura.

Quanto à produção, um dos aspectos que a política quer fomentar é a regionalização e a especialização do cultivo, de acordo com a demanda dos moinhos. "Nos EUA, tem Estado especializado em um tipo de trigo". Para Barbosa, há espaço para a expansão da fronteira do trigo rumo a Mato Grosso e outras áreas do Cerrado. Segundo ele, a Embrapa tem avançado no controle do brusone, uma doença fúngica, o que pode destravar o cultivo nessas áreas.

Para o comércio internacional, a Abitrigo defende a convergência de regras no Mercosul, principal região fornecedora do trigo importado. Em 2018, a Argentina representou 87% do cereal importado pelos moinhos, seguida do Paraguai, com quase 5%. A modernização dos portos e da cabotagem – para facilitar o transporte de trigo do Sul aos moinhos do Nordeste – é outra necessidade para incentivar a cadeia, embora o volume movimentado hoje seja "marginal", disse.

Em logística, a Abitrigo defende a disponibilização de linhas de crédito para a construção de silos e a privatização dos armazéns da Conab.

A política elaborada pela Abitrigo também prevê alterações na política de incentivos fiscais para garantir isonomia tributária a toda a cadeia. Atualmente, a incidência de ICMS sobre o trigo, por exemplo, é diferente entre os Estados. A indústria defende ainda medidas gerais para facilitar os investimentos privados, com desburocratização e segurança jurídica.

Quanto ao ambiente regulatório, Barbosa citou a padronização de rótulos de produtos derivados de trigo e dos limites de resíduos.

Por Camila Souza Ramos | De São Paulo

Fonte :Valor