Indústria de carnes de frango e suína quer ‘virar a página’

Ana Paula Paiva/Valor

"Nem tenho condições de explicar quanto foi duro 2018", disse Francisco Turra

Prestes a encerrar o biênio mais turbulento de sua história, a indústria exportadora de carnes de frango e suína lançou ontem uma iniciativa para virar a página – e, assim, deixar a seção policial que vem pautando o dia a dia dos frigoríficos desde a Operação Carne Fraca.

Para reverter a trajetória descendente das exportações – rota que, em grande medida, foi provocada por embargos de países que alegaram fragilidades do sistema de inspeção sanitária do país -, a Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA) mapeou, em parceira com a Ernst & Young, um grupo de mercados inexplorados – mas já abertos.

A meta da ABPA é ampliar as exportações combinadas de carne de frango e carne suína em quase 30% até 2020. Segundo o vice-presidente de mercados da entidade, Ricardo Santin, é plausível elevar as exportações mensais para 500 mil toneladas. Neste ano, foram, em média, 392,3 mil toneladas por mês. "Estamos confiando nos mercados que já temos", afirmou.

Entre os mercados praticamente inexplorados, Santin citou o Paquistão, que já abriu seu mercado ao frango do Brasil há mais de cinco anos. "Abrimos, mas nunca tínhamos vendido", disse. No radar também está a recuperação dos embarques a países que já foram relevantes no passado recente, como o Egito. "A Venezuela já comprou 300 mil toneladas por ano e um dia vai voltar", afirmou Santin, esperançoso de que a crise no vizinho possa logo ser revertida.

Na Ásia, a ABPA também vê potencial nos mercados de Camboja, Mianmar e Taiwan. A China, é claro, deverá ser o vetor mais importante do crescimento dos embarques. O momento para os frigoríficos brasileiros é particularmente positivo, dada a oportunidade aberta pelo surto de peste suína africana que atingiu a China. O vírus pode reduzir a produção anual de carne suína do país em mais de 10% (cerca de 5 milhões de toneladas), obrigando Pequim a importar mais para suprir seu déficit.

Para 2019, a expectativa da ABPA é que as exportações brasileiras de carne de frango e carne suína cresçam entre 2% e 3%. "É uma estimativa conservadora", disse, argumentando que essa projeção não leva em conta o aumento da demanda da China que deverá ocorrer por conta da peste suína.

O cenário mais positivo contrasta com a avaliação feita ontem pela ABPA sobre 2018. "Nem tenho condições de explicar quanto foi duro o ano", disse o presidente da ABPA, o ex-ministro da Agricultura Francisco Turra, ao abrir a entrevista coletiva de fim de ano organizada pela associação.

De acordo com estimativas divulgadas pela ABPA, as exportações de carne de frango diminuíram 5,1% em 2018, para 4,1 milhão de toneladas. No caso da carne suína, os embarques recuaram 8% neste ano, para 640 mil toneladas. Em receita, as exportações de carne de frango renderam cerca de US$ 6,5 bilhões este ano, queda de 9,7% ante os US$ 7,2 bilhões do ano passado. Na mesma comparação, os embarques de carne suína devem cair mais de 20%, a US$ 1,1 bilhão.

Segundo Turra, os frigoríficos de suínos foram prejudicados pelo embargo da Rússia, que perdurou durante a maior parte deste ano. Moscou representava, até 2017, cerca 40% das exportações de carne suína do Brasil. O presidente da ABPA lembrou as dificuldades para reabrir o mercado da Rússia. Até o presidente Michel Temer foi acionado para tratar do assunto em encontro bilateral com o mandatário russo, Vladimir Putin.

Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

Fonte : Valor

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