Indústria da carne reage à relatório de agência da OMS

A indústria mundial da carne reagiu com fúria ao fato de ter produtos considerados cancerígenos pela Agência Internacional de Pesquisa sobre o Câncer (IARC), braço da Organização Mundial da Saúde (OMS). A IARC divulgou relatório no qual sinalizou que carnes processadas como bacon e salsicha são cancerígenas, e que a carne vermelha também pode ser.

Em uma tentativa de minar até antecipadamente as constatações da IARC, o Instituto Norte-Americano de Carnes (Nami) acusou o órgão de "dramático e alarmista". "A carne vermelha e a carne processada estão entre as 940 substâncias analisadas pela IARC que teoricamente apresentam um certo ‘perigo’", afirmou Barry Carpenter, presidente do Nami. "Somente uma substância, um produto químico encontrado nas calças ‘legging’, foi declarada pela IARC agente não causador de câncer", disse ele.

Robert Pickard, professor da Universidade de Cardiff, que faz parte do Meat Advisory Panel (MAP), do Reino Unido, acrescentou: "Evitar a carne vermelha não é uma estratégia de prevenção ao câncer. Escolher uma dieta sem carne vermelha é uma escolha; não é vital para a saúde".

Carrie Ruxton, nutricionista associada ao MAP, disse que o consumo médio de carne pelos britânicos, de 71 gramas por dia, está muito perto do recomendado por especialistas do governo (70 g). "A maioria das pessoas não precisa reduzir o consumo de carne vermelha", disse. "Na verdade, alguns grupos como mulheres, adolescentes e crianças em idade pré-escolar poderiam comer mais carne para se aproveitar de seus muitos benefícios nutricionais".

Especialistas independentes demonstraram ontem cautela com as conclusões da IARC. "Embora haja evidências epidemiológicas para uma associação estatisticamente significativa entre o consumo de carne processada e o câncer colorretal, é importante enfatizar que o efeito é relativamente pequeno e o mecanismo está mal definido", disse o professor Ian Johnson, membro emérito do Institute of Food Research do Reino Unido.

"É inadequado sugerir que qualquer efeito adverso do bacon e das salsichas sobre o câncer colorretal é comparável aos perigos do tabaco, que é carregado de substâncias cancerígenas conhecidas", afirmou ele.

Este ano, outro relatório da IARC já havia declarado que o glifosato, agente químico usado em defensivos agrícolas, provavelmente é cancerígeno. A iniciativa levou a americana Monsanto, companhia que mais depende do glifosato em seus produtos, a se declarar "ultrajada" e acusar a IARC de "tendenciosa e movida por políticas".

"A IARC diz que você pode apreciar suas aulas de ioga e ginástica, mas não pode respirar o ar (cancerígeno de classe I) ou se sentar perto de uma janela por onde entra a luz do sol (classe I)", afirmou Carpenter, do Nami.

Confira a reação no Brasil em

www.valor.com.br/u/4287628 e www.valor.com.br/u/4287382

Por Clive Cookson | Financial Times
Fonte : Valor

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