Indústria ainda restringe conilon nos blends de café

Um ano depois de ter alcançado preços recorde no país, o café conilon retornou a patamares vistos antes da quebra da produção nacional, mas as indústrias do setor ainda não voltaram a usar a matéria-prima nas mesmas proporções em seus blends.

Antes do forte recuo da colheita em duas safras consecutivas, em decorrência da seca no principal Estado produtor, Espírito Santo, as indústrias que produzem café torrado e moído tradicional utilizavam, em média, 50% de conilon e 50% de arábica em seus blends. Mas com a alta meteórica dos preços do conilon em função da escassez de oferta, passaram a usar entre 80% e 90% de arábica na mistura.

E, apesar do recuo dos preços do conilon, as torrefadoras ainda não voltaram a usar a mesma quantia que utilizavam antes. "O volume de conilon nos blends não voltou aos níveis anteriores", afirma Nathan Herszkowicz, diretor-executivo da Associação Brasileira da Indústria de Café (Abic). Hoje, segundo informações das indústrias de café, a proporção está em 80% de arábica e 20% de conilon.

Segundo ele, há disponibilidade "normal" de cafés conilon e de arábica no mercado, "apesar de a safra 2017/18 não ter sido tão grande", mas a "indústria não está comprando as quantidades que comprava de conilon porque diminuiu a fatia no blend".

O conilon foi substituído principalmente por cafés arábica tipo consumo interno duro, considerado de menor qualidade. Esse produto é geralmente mais caro que o conilon, mas ficou mais barato durante o auge de falta de oferta.

Conforme acompanhamento da Abic com base em várias fontes do mercado, em outubro de 2016, o conilon capixaba bateu R$ 522 por saca, enquanto o arábica consumo interno era negociado a R$ 490,00. No último dia 16, segundo o mesmo acompanhamento, a saca do conilon estava em R$ 355,00 e a do arábica consumo interno, R$ 440,00.

Para Herszkowicz, "se houver previsibilidade [na oferta]", a indústria pode voltar a utilizar mais conilon em seus blends. Ele afirma, no entanto, que "problemas do passado recente" deixam a indústria cautelosa.

Edimilsom Calegari, gerente geral da Cooperativa dos Cafeicultores de São Gabriel (Cooabriel), de São Gabriel da Palha (ES), diz que a queda dos preços do conilon levará a indústria a usar a espécie novamente em maiores quantidades nos blends. Isso, porém, não ocorre do dia para a noite e deve ser uma mudança gradativa, uma vez que implica alterações no sabor do café, da mesma forma que o maior uso de arábica levou a uma mudança no sabor da bebida.

Para ele, o recuo das cotações do conilon pode ser explicado principalmente pela maior oferta de arábicas inferiores – que podem substituir o produto no blend. Essa disponibilidade maior ocorre em função da queda das exportações brasileiras de café este ano, afirma.

Além disso, Calegari considera que a retração dos preços do conilon se deve à perspectiva de uma recuperação na produção brasileira da espécie na safra 2018/19, que está em fase de desenvolvimento, graças ao clima mais favorável que nos ciclos anteriores. Segundo ele, para o Espírito Santo, a avaliação é de que pode haver um crescimento de 20% a 30% na comparação com as 5,9 milhões de sacas colhidas no ano-safra 2017/18.

Jorge Luiz Nicchio, presidente do Centro do Comércio de Café de Vitória, também avalia que a tendência é que a indústrias reduzam a fatia de arábica nos blends diante da queda dos preços do conilon. "Hoje o conilon está a R$ 355 a saca. Há um ano estava em R$ 550,00", diz. "O conilon caiu mais do que o arábica".

O dirigente acredita que as torrefadoras voltarão a usar 40% de conilon nos blends no próximo ano. "A indústria vai voltar ao blend de 50% de conilon e 50% de arábica no café. Aos poucos vai voltar", acrescenta Carlos Alberto Paulino da Costa, presidente da mineira Cooxupé.

Por Alda do Amaral Rocha | De São Paulo

Fonte : Valor

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