Impulso ao açaí no Norte do país

Divulgação

Produção de açaí em Bailique: novo selo tende a garantir preços mais elevados

Tradicional na região amazônica do país e cada vez mais valorizado no Centro-Sul do Brasil e no exterior, o açaí tem tudo para se tornar sinônimo de desenvolvimento social para mais de 300 produtores de Bailique, arquipélago localizado a 160 quilômetros de Macapá, capital do Amapá.

Com produção estimada em pouco mais de 2,5 mil toneladas por safra, o distrito é a primeira região produtora de açaí do país a receber certificação florestal da FSC (Conselho de Manejo Florestal, em inglês), bastante usada no mercado de madeira e papel e celulose.

O selo, entregue em dezembro para 76 produtores de Bailique, incentiva a regularização fundiária, garante o manejo florestal sustentável e promove boas práticas trabalhistas, como o uso de equipamentos de proteção individual.

"Esse açaí certificado traz o valor da saúde do trabalhador e da segurança, além de garantir o respeito a áreas de preservação permanente e de matas ciliares. Também torna viável a manutenção do açaí na natureza e o modo tradicional de vida dos produtores", afirma Fernanda Rodrigues, coordenadora técnica da FSC Brasil.

Com o selo, os produtores da região esperam poder agregar valor à oferta local, hoje comercializada por menos de R$ 1 o quilo, ante os mais de R$ 3,50 praticados em Belém, no Pará, onde o fruto da palmeira é vendido aos consumidores finais.

"A gente foi atrás para saber o motivo disso [a diferença de preços] e descobrimos que, geralmente, o açaí é tirado sem nenhum cuidado na região, sem muita higiene ou boas práticas, o que prejudica a qualidade", diz Geová Alves, presidente da associação de produtores de Bailique.

A entidade foi criada em 2013. Desde então, cerca de 300 produtores da região foram capacitados. Os 76 que já receberam o certificado da FSC fazem parte do grupo.

O selo ganha particular importância num um momento em que o cultivo do açaí se espalha pelas regiões de várzea na Amazônia. Segundo José Antonio Leite de Queiroz, analista da Embrapa Amazônia Oriental, a derrubada de vegetação nativa com o intuito de adensar os açaizeiros e elevar sua produtividade tem sido comum, tendo em vista os aumentos da demanda e dos preços do produto.

"Essa solução dá resultado no curto prazo, o que tem estimulado os ribeirinhos a adensar a cultura. No médio prazo, no entanto, o açaizal tende a parar de produzir", diz Queiroz. Conforme ele, por ser uma árvore que retira nutrientes da parte superficial do solo, o açaizeiro depende da vegetação nativa para manter altos índices de produtividade.

Com o avanço do desmatamento, a Embrapa contabiliza áreas inteiras de açaí abandonadas no Norte do país devido ao manejo florestal equivocado.

O Brasil produziu 216 mil toneladas em 2015, segundo dado mais recente do IBGE. Desse total, 60% são consumidos nos Estados produtores, 30% vão para os mercados do Sudeste, como São Paulo, Rio e Minas, e 10% são exportados.

Dentro e fora do país é crescente o consumo da fruta, na forma de suco, polpa e outros subprodutos. Não por acaso, portanto, a produção brasileira dobrou de 2005 a 2015, e o valor anual dessa produção saltou de R$ 103,2 milhões para R$ 480,6 milhões na comparação.

Importador do produto na França há cerca de três anos, o empresário Damien Binois afirma que uma das maiores dificuldades que ainda enfrenta é justamente encontrar no mercado o açaí certificado, com os padrões exigidos pelo mercado europeu.

"Infelizmente, ainda hoje o padrão de qualidade é muito baixo, sem pasteurização ou controle eficiente sobre a polpa e teor de sólidos". Binois diz que passou a importar o produto após fazer mestrado sobre a cultura do açaí no Brasil.

"Há hoje muitas empresas que estão trabalhando com foco apenas no mercado brasileiro, onde as exigências de qualidade são menores. Para atuar no exterior, contudo, as exigências são maiores", ressalta o importador francês.

Desde que iniciou suas atividades, a Nossa!, empresa de Binois, tem registrado crescimento de três dígitos. Ele calcula que, na Europa, ainda há menos de dez empresas que comercializam açaí.

Com a expectativa de aumento dos preços recebidos e a potencial abertura de novos mercados, a comunidade de produtores de Bailique ainda terá que superar outros entraves para promover seus desenvolvimento social.

Geová Alves, presidente da associação de produtores de Bailique, conta que, desde que os primeiros certificados foram entregues, algumas empresas tem demonstrado interesse em processar a fruta da região e um projeto de educação foi estabelecido em parceria com uma instituição holandesa.

Essa instituição, que prefere se manter no anonimato à associação de produtores, doou um valor suficiente para a construção de uma escola e a compra de um barco, permitindo que os moradores vendam a produção diretamente em Belém, sem atravessadores.

"Como contrapartida, a gente se comprometeu a reunir os produtores e criar um fundo, que vai manter a escola da família funcionando a partir da renda gerada pelo açaí", afirma Alves.

Por Cleyton Vilarino | De São Paulo

Fonte : Valor

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *