Importação substitui insumo local

Ana Paula Paiva/Valor / Ana Paula Paiva/Valor
Julio Gomes de Almeida: não há acúmulo de estoques de bens intermediários

Se não fosse pela ajuda de combustíveis e lubrificantes, a produção de bens intermediários teria encolhido nos primeiros nove meses de 2013, sentindo o impacto do forte aumento nas importações neste ano. De janeiro a setembro, a fabricação de produtos usados como matéria-prima para a indústria aumentou apenas 0,2% em relação ao mesmo período do ano passado, segundo dados do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE).

Sem a expansão de 7,6% na produção de derivados de petróleo e gás no período, os bens intermediários teriam registrado retração de 0,8% nos primeiros nove meses deste ano, pelos cálculos da Tendências Consultoria. Sozinho, o setor de combustíveis e lubrificantes contribui com mais de 12% da produção de intermediários no Brasil.

Enquanto a produção doméstica de intermediários ficou quase estagnada, a quantidade de produtos intermediários importados pelo Brasil aumentou 9,9% de janeiro a setembro em relação ao mesmo período do ano passado, de acordo com a Fundação Centro de Estudos do Comércio Exterior (Funcex). Para analistas, o salto nas importações explica grande parte do raquítico desempenho dos bens intermediários neste ano. Os números do IBGE mostram que, de janeiro a setembro, cinco dos oito grupos que compõem a categoria registraram queda na produção. Juntos, esses cinco grupos respondem por quase 75% da produção de intermediários no Brasil.

O setor de bens intermediários é o mais amplo da indústria, sendo responsável por 55% da produção brasileira. Por ser uma categoria tão abrangente, composta por mais de 400 itens de diversos segmentos, o gerente da Pesquisa Industrial Mensal Produção Física do IBGE, André Macedo avalia que são muitos os fatores que interferem na fabricação dos produtos. "Há influências de demanda, importações, clima, preço. E cada segmento reage de forma distinta a tudo isso", diz. "Considerando o fato de que o crescimento dos bens de consumo neste ano foi de 0,4% até setembro, com queda de 0,2% em semiduráveis e não duráveis, a quase estabilidade de bens intermediários é razoável", avalia.

Julio Gomes de Almeida, ex-secretário de Política Econômica do Ministério da Fazenda, diz que só dois fatores justificam o fraco desempenho de intermediários neste ano: o enfraquecimento das exportações e uma nova onda de importações. "Não há acúmulo de estoques", ressalta, descartando tal possibilidade. O volume exportado de bens intermediários cresceu – 6,4% em relação aos nove primeiros meses de 2012 -, mas a quantidade de combustíveis vendida no exterior encolheu 30,6% na mesma comparação.

De acordo com a Confederação Nacional da Indústria (CNI), a participação de produtos importados no consumo nacional chegou a 21,8% nos 12 meses encerrados em setembro, o maior patamar da série histórica iniciada em 2007. Ao mesmo tempo, a fatia da produção industrial destinada ao mercado estrangeiro ficou em 19,2%, mantendo-se no menor nível desde o começo de 2012.

"A produção de intermediários é o coração da indústria e, no Brasil, esse setor é muito bem constituído. Estamos perdendo espaço para as importações e não conseguimos elevar as exportações por falta de competitividade", afirma Almeida, que espera arrefecimento do setor nos próximos meses. "Só vamos ver uma melhora na produção de bens intermediários se o mercado externo ganhar fôlego, e não há sinais de que isso acontecerá a curto prazo."

Além de não ver espaço para uma reação dos ramos em que já há queda na produção, Almeida avalia que há grande possibilidade de que o segmento de peças e equipamentos para transporte – um dos poucos que se mantêm em campo positivo, ao lado de combustíveis e lubrificantes e peças e acessórios para bens de capital – perca fôlego nos próximos meses

Com quase 10% de participação na categoria de intermediários, as fábricas de peças e equipamentos para transporte aumentaram a produção em 3% de janeiro a setembro deste ano, frente ao mesmo período de 2012. "Esse aumento será esporádico. Agora que os incentivos à indústria automobilística começam a ser retirados, é provável que os resultados esmoreçam", afirma o ex-secretário.

De acordo com o IBGE, grande parte do aumento na produção de peças e equipamentos para transporte se deve às vendas de caminhões. Esse comércio está sendo normalizado, depois de quedas resultantes das antecipações de compra, provocadas pelas mudanças nos motores dos veículos para atender à nova legislação. "O PSI [Programa de Sustentação do Investimento] e a safra recorde de grãos também contribuíram para o incremento das vendas", diz Macedo.

Neste ano, os insumos industriais básicos – que incluem diversos tipos de minérios, além de fertilizantes, fibras e fumo – foram os que mais contribuíram negativamente para a produção de intermediários. Influenciado pelo minério de ferro, o grupo, que representa 9,1% dos bens intermediários, contabilizou queda de quase 6% em sua produção de janeiro a setembro. "A extração de minério de ferro não teve um recuo tão forte, mas como sua importância é grande, levou o grupo para o campo negativo", diz Macedo, lembrando que houve uma desaceleração na demanda pelo produto.

Em dólares, as exportações brasileiras de minério de ferro cresceram menos de 1% neste período, de acordo com o Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior. Por se tratar de uma commodity, o minério de ferro sofre grande influência do mercado internacional, sobretudo da China, principal parceiro comercial do Brasil. O levantamento da Funcex mostra que, nos nove primeiros meses de 2013, houve queda de 0,5% na quantidade de minerais metálicos exportados pelo Brasil.

Os insumos industriais elaborados, por sua vez, embora respondam por 54% da produção de bens intermediários, recuaram pouco (0,3%) de janeiro a setembro, frente ao mesmo período de 2012 e, por isso, pressionaram menos os resultados do setor.

Nesse grupo estão inseridos mais de 300 itens, que vão desde materiais elétricos até tecidos de algodão, passando por cimento, embalagens de papel, sacos de lixo e fertilizantes. "Como esse grupo é muito extenso e heterogêneo, não é possível atribuir uma ou duas causas ao seu comportamento. Há segmentos que registraram crescimento de até dois dígitos nesse ano, enquanto outros sofreram grandes quedas", afirma Macedo, do IBGE.

"A produção do setor de papel e celulose, por exemplo, foi afetada pelas paralisações nas fábricas para manutenção, enquanto as empresas ligadas à construção tiveram bom desempenho, mesmo com o mercado em desaceleração", diz o gerente do IBGE.

A baixa na fabricação de bens semiduráveis e não duráveis teve influência sobre a produção de alimentos e bebidas para a indústria. Mesmo com o crescimento no volume de vendas nos supermercados neste ano – 1,2% de janeiro a setembro frente ao mesmo intervalo de 2012 -, a produção de bebidas caiu 1,93% e a de alimentos teve apenas ligeira elevação, de 0,2%, no período.

Com isso, a fabricação de alimentos e bebidas elaborados destinados à indústria, que inclui itens como farinhas de trigo e milho, fubá, açúcar, manteiga e óleo de soja, recuou 1,2%, enquanto entre os produtos básicos (apenas dois são considerados pelo IBGE, arroz descascado e castanha de caju beneficiada), a queda chegou a 9% nos primeiros nove meses de 2013, frente ao mesmo intervalo de 2012.

"A inflação pode ter influenciado o mercado de alimentação, levando os consumidores a comprar em menor quantidade", diz Almeida. De janeiro a setembro, os preços de alimentos e bebidas no varejo subiram 5,83%, superando a alta de 3,79% do Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) no período. "Se a demanda nos supermercados cai, a indústria produz menos e compra menos matéria-prima. É um efeito em cadeia", comenta o diretor de economia da Associação Brasileira das Indústrias da Alimentação (Abia), Denis Ribeiro.

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Fonte: Valor | Por Francine De Lorenzo | De São Paulo

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