Importação de cacau continua difícil

Processadores de cacau instalados no país continuam preocupados com a falta de opções para importar a amêndoa. O Brasil precisa comprar a matéria-prima do exterior para atender à demanda doméstica, mas, dos três países autorizados a fornecer o produto (Costa do Marfim, Gana e Indonésia), a indústria afirma que pode contar, atualmente, apenas com um.

"Se aparecer algum problema em Gana, não teremos alternativa", diz Walter Tegani, secretário-executivo da Associação das Indústrias Processadoras de Cacau (AIPC). Segundo ele, a Indonésia não está mais vendendo o produto ao Brasil porque ampliou seu parque processador e, com isso, planeja inclusive começar a importar matéria-prima da Costa do Marfim. Já o país africano, maior produtor mundial da commodity e normalmente um grande fornecedor do Brasil, está barrado pelo Ministério da Agricultura desde agosto de 2012, depois que duas de suas cargas chegaram ao porto de Ilhéus, na Bahia, com insetos ainda vivos.

Como a análise de risco de pragas deflagrada por essa contaminação ainda não foi finalizada, a entrada da matéria-prima da Costa do Marfim no Brasil segue proibida. Luís Rangel, diretor do Departamento de Sanidade Vegetal do Ministério da Agricultura, afirma que a demora se deve ao grande número de análises demandadas – mais de 2 mil processos envolvendo diversos produtos- para uma estrutura insuficiente para atendê-lo. Mas ele acredita que o trabalho deverá estar concluído até junho. A análise de risco será discutida com especialistas da Comissão Executiva do Plano da Lavoura Cacaueira (Ceplac), vinculada ao ministério, e poderá ser alvo de pedido de revisão.

Uma missão com técnicos brasileiros esteve na Costa do Marfim no fim de 2013. Conforme Rangel, o grupo não avaliou detalhes da produção de cacau do país africano, mas o processamento da commodity e as certificações do produto. Para o diretor do ministério, é possível dizer que o governo da Costa do Marfim toma todas as medidas para garantir os procedimentos e certificações acordados entre os dois países. Assim, ainda não é possível afirmar se as pragas encontradas nas cargas que chegaram ao Brasil são simplesmente de armazenagem ou quarentenárias, aquelas que constituem ameaça à economia agrícola do país ou região importadora exposta.

Depois de "reabrir" a Costa do Marfim, a intenção é fazer análises de risco de outros países africanos, como Camarões e Togo, afirma Rangel. Todavia, não há prazo para isso. "A prioridade é a Costa do Marfim".

Enquanto a situação não é resolvida, a indústria brasileira vem importando cacau apenas de Gana. As empresas processadoras de cacau associadas à AIPC moeram 230,2 mil toneladas da amêndoa em 2013, 2,4% menos que em 2012. Não há uma projeção fechada para 2014, mas Tegani afirma que os sinais atuais sugerem uma nova queda.

A menor moagem foi reflexo, também, de uma retração no consumo de chocolate. No ano passado, a produção brasileira de chocolates caiu 0,3%, para 800 mil toneladas, em linha com o comportamento da economia do país em geral, segundo a Associação Brasileira da Indústria de Chocolates, Cacau, Amendoim, Balas e Derivados (Abicab).

Em 2013, as importações de cacau dos processadores ligadas à AIPC totalizaram 34 mil toneladas (US$ 82,7 milhões), ante quase 55 mil em 2012 (US$ 183,1 milhões).

A produção brasileira de cacau no chamado "temporão" (maio a setembro) deste ano deverá ser maior e totalizar 1,9 milhão de sacas, ante 1,39 milhão de sacas em 2013, de acordo com Thomas Hartmann, sócio-diretor da TH Consultoria e Estudos de Mercado.

O clima mostrou-se favorável à produção no primeiro trimestre, mas em abril choveu demais, o que inibe o amadurecimento dos frutos e favorece o aparecimento de doenças fúngicas, como a vassoura-de-bruxa e a podridão parda, explica Hartmann. Mas, segundo ele, o clima voltou a colaborar neste mês. A safra brasileira de cacau 2013/14 (maio de 2013 a abril deste ano) deverá se situar entre 190 mil e 195 mil toneladas, conforme estimativas prévias, abaixo das 239,85 mil toneladas da temporada 2012/13, conforme Hartmann.

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Fonte: Valor | Por Carine Ferreira | De São Paulo

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