"Importadores e consumidores ajudam a nos defender na OMC", afirma Francisco Turra

Ex-ministro da Agricultura e atual presidente da Associação Brasileira de Proteína Animal fala sobre o cenário do mercado brasileiro e internacional de carnes

"Importadores e consumidores ajudam a nos defender na OMC", afirma Francisco Turra Arquivo pessoal/Arquivo pessoal

Turra exibe no Exterior adaptações da indústria para conquistar mercados, como o abate halal, para os islâmicosFoto: Arquivo pessoal / Arquivo pessoal

Do período em que foi ministro da Agricultura (1998 e 1999) até hoje, Francisco Turra, presidente da recém-criada Associação Brasileira de Proteína Animal (ABPA), viu as exportações do setor serem multiplicadas por 10. Do final dos anos 1990, lembra de um mercado de US$ 1,6 bilhão, restrito a carne enlatada ou cozida. Hoje, o gaúcho de Marau representa internacionalmente produtores e indústrias de aves e suínos que recheiam gôndolas de mais de 150 países.

– Há 16 anos, a febre aftosa e a febre suína africana marcavam o carne brasileira nos mercados internacionais. Um país que não controlava isso deixava uma imagem péssima entre os compradores e afetava também outros setores. Hoje, incluindo a carne bovina, os negócios somam US$ 16,5 bilhões – compara.

É a partir dessas vivências que Turra embasa suas opiniões sobre disputas por mercados globalizados, diplomacia brasileira e estratégias que podem ajudar a carne beneficiada no Brasil a ganhar espaço em prateleiras de supermercados mundo afora.

Disputas internacionais

Estamos entrando com um painel contra a Indonésia na Organização Mundial do Comércio (OMC). Entre países membros, não se pode fechar um mercado sem razão. Na sanidade, não há problema, nem nas tarifas. Quando se vai firmar o acordo, eles não assinam. Já temos um advogado contratado, em um processo que custará em torno de R$ 800 mil e será demorado, mas que servirá como exemplo para outros. Na Indonésia o quilo do frango custa cerca de US$ 10. Conseguiríamos colocar o produto brasileiro lá por US$ 2,50 para o consumidor. Sabe o que ocorre? Para o consumidor, é uma bênção quando o Brasil entra: é competitivo em preço e oferece carne saudável. Já para o produtor local, somos uma ameaça. São importadores e consumidores que ajudam a nos defender nos painéis da OMC.

Negócios em família

Emperra o acordo quando no governo com o qual estamos conversando há alguém importante ou influente com negócios no setor. Na Nigéria, onde existem quase 180 milhões de pessoas, que comem só 1,5 quilo de frango por habitante ao ano, ocorreu isso. Não conseguimos avançar para lá desde a época do presidente Obasanjo (Olusegum Obasanjo, que liderou o país entre 1999 e 2007). Com ele, podia-se falar de tudo, menos de frango: era dono de três indústrias de aves.

Diplomacia brasileira

Preparamos a defesa para os painéis internacionais, mas cabe ao governo e ao Itamaraty entrar com ações na OMC. No caso da Indonésia, já era para estar resolvido no final do ano passado. Está amarrado por questões diplomáticas nossas. Temos um problema no Brasil: falta coragem de cobrar as coisas. Fazemos um trabalho péssimo nesse sentido. A África faz o diabo conosco, e o Brasil não se impõe na mesa de negociação.

É um desastre nossa falta de mais acordos de livre comércio, como faz o Chile, que tem acerto com 80% dos mercados. Sabe o que eles fazem? Compram frango do Brasil e exportam por lá. A diplomacia brasileira tem medo de fazer acordos até com a União Europeia, prende-se ao Mercosul. Aí, a Argentina não anda bem, e os negócios não vão adiante. Precisamos de mais acordos fora do Mercosul. Depois, que venham a Argentina, o Uruguai…

O Brasil se prende a um bloco econômico que não se entende.

Com barreiras sanitárias não temos problemas, mas em barreiras tarifárias temos, e muitos, por falta de acordos. Sem entendimento entre os governos, os países cobram de nós o que querem. A Índia, por exemplo, já abriu o comércio para o frango brasileiro há três anos. É um sonho de consumo, mas não vendemos meio quilo de frango para lá. A tarifa é de 100%, por falta de acerto.

Corrupção no caminho

A corrupção é um problema em alguns mercados. Não para nós, como entidade, mas para as empresas que, depois do caminho aberto, vão lá negociar. Há um caso recente onde o governo deu a primazia do negócio a alguns importadores. E esses importadores pintam e bordam. Determinado negociador chegou a nos dizer que o Brasil era muito inflexível, que tinha de agradar mais o comprador. Estava falando de pagamento por fora. Em certos casos, as empresas saem do mercado porque isso se torna um desastre.

Certa vez, ouvi de uma autoridade do Irã que deixaram de comprar de nós porque ficaram magoados com Dilma. Falaram que Lula os tratava bem. Disse que voltariam a comprar por necessidade. Ainda assim, a certificadora das importações teria de ser a empresa do filho dele.

Novos mercados para suínos

Temos 155 países abertos para a carne de frango, e vendemos para quase todos. Nos restam apenas algumas pedreiras, em razão de difíceis negociações, na África e Ásia. Para os suínos, estamos chegando a 80 acordos. Mas vendemos, efetivamente, no máximo a 30. Estamos trabalhando melhor o mercado japonês e de olho nos Estados Unidos, na África do Sul, na Coreia do Sul e no México, para onde estou indo em julho.

Epidemias e o Brasil

O mercado americano passa por um grande problema de sanidade com a diarreia suína. Da mesma forma, ocorre com os canadenses, os mexicanos e os colombianos. Se mantivermos isso controlado, distante do Brasil, será um bela oportunidade de crescer.

A Rússia, nos últimos três meses, reabilitou oito unidades brasileiras para exportação. Por quê? Necessidade. Dependiam dos Estados Unidos, de onde não querem comprar, da Europa, onde a produção não está crescendo, e do Brasil. Os americanos perderam cerca de 14% do rebanho com a diarréia suína (já seriam 8 milhões de animais mortos). Mas queremos ser menos dependentes do mercado russo, como deixamos de ser no segmento de aves. No frango, não há dependência, o maior cliente, a Arábia Saudita, responde por 18% das compras, e o mercado islâmico, ao todo, 33%.

Onde o frango pode chegar

O prazo médio para abertura de um novo mercado é de cinco anos. Na China, foram nove anos. Temos aberto em torno de três mercados por ano. Para expandirmos as fronteiras do frango, o problema é que já fomos muito longe. O que fica de fora são pedreiras, no que diz respeito à negociações. O que são as pedreiras? Indonésia, Malásia, Paquistão, Vietnã, Nigéria e vários países africanos. Basicamente, Ásia e África.

Fonte: Zero Hora | por Thiago Copetti