Impasse trabalhista e falta de consenso prolongam crise da citricultura

Grandes indústrias ainda não abriram preços, pois estão dando prioridade ao processamento da fruta dos pomares próprios

Venilson Ferreira

Eduardo Ongaro

Foto: Eduardo Ongaro / Canal Rural

Apenas uma empresa média, a Sucorrico, de Araras (SP), abriu preços e oferece R$ 6 pela caixa de laranja

A crise enfrentada pela citricultura brasileira ainda está longe de terminar, com quebra de 25% na safra que está sendo colhida, estimada pelas indústrias em 289,9 milhões de caixas de 40,8 kg. Os produtores reclamam que a colheita da laranja precoce está avançada e já existem perdas nos pés, porque as grandes indústrias ainda não abriram preços, pois estão dando prioridade ao processamento da fruta dos pomares próprios. Apenas uma empresa média, a Sucorrico, de Araras (SP), abriu preços e oferece R$ 6 pela caixa de laranja, valor bem abaixo do mínimo estabelecido pelo governo federal de R$ 11,45 por caixa e distante dos R$ 14/caixa esperados pelos citricultores.
A crise prolongada do setor, que se arrasta há três anos, foi debatida hoje na Semana de Citricultura, evento realizado no Centro de Citricultura Sylvio Moreira, do Instituto Agronômico de Campinas, em Cordeirópolis (SP). A criação do Conselho de Produtores e Exportadores de Suco de Laranja (Consecitrus), que estabeleceria parâmetros técnicos para fixação dos preços da laranja, é apontada como solução para melhorar o relacionamento comercial no setor e proporcionar melhor remuneração dos citricultores. No entanto, a falta de consenso vem adiando a implantação do Consecitrus, que foi aprovado pelo – Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade), em fevereiro deste ano.
Na avaliação do presidente da Comissão de Citricultura do Ministério da Agricultura, Marco Antonio do Santos, a criação do Consecitrus esbarra nas vaidades pessoais e na preocupação sobre quem vai mandar. Ele fez este comentário ao criticar o posicionamento do presidente da Federação de Agricultura e Pecuária de São Paulo (Faesp), Fábio de Salles Meirelles, que entrou com um embargo no Cade contra a participação da Sociedade Rural Brasileira (SRB) no Consecitrus.
Na opinião de Santos, o presidente da Faesp ao entrar com o embargo contra a SRB “não pensou no produtor e nem consultou os presidentes dos sindicatos rurais dos municípios citrícolas”. Além da Faesp e da SRB, também tem direito a voto no conselho a Associação Brasileira de Citricultores (Associtrus) e a Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBR).
O diretor-executivo da Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBR), Ibiapaba Netto, defende o avanço nos entendimentos entre os diversos elos da citricultura, como forma de organizar o setor para enfrentar desafios como a estagnação das exportações brasileira de suco de laranja, que nos últimos anos permanecem no patamar de 1,1 milhão de toneladas.
Ele disse a demora na abertura de preços pelas indústrias se deve também ao impasse trabalhista gerado por uma decisão do Tribunal Regional do Trabalho, de Campinas, que manteve a sentença de primeira instância obrigando as indústrias a se responsabilizar pelo trabalho no plantio, tratos culturais e colheita da laranja nos pomares de seus fornecedores. As indústrias recorreram ao recorrer ao Tribunal Superior do Trabalho.
A decisão do TRT de Campinas preocupa os produtores, pois temem que para atender às exigências da Justiça as indústrias concentrem as compras das frutas nos grandes fornecedores, excluindo os pequenos e médios.
O setor aguarda a abertura de preços pelas indústrias para pedir ao governo o lançamento de leilões de prêmios para equalização de preços (Pepro), destinados a conceder subsídios aos produtores na comercialização da laranja. Marco Antonio Santos afirmou que o Ministério da Agricultura propôs R$ 50 milhões para subsidiar os citricultores, valor que já foi aprovado pelo Planejamento e agora está no Ministério da Fazenda.
Pelo valor atualmente pago pela Sucorrico, em Araras, os produtores receberiam do governo R$ 5,45/caixa. Mas os produtores ainda sonham com uma reação dos preços pagos pelas indústrias, como a citricultora Valéria Maria Quartiere, de Amparo (SP), que na safra passada vendeu a laranja a R$ 7/caixa, bem abaixo do custo de produção. Ela tem um pomar de 300 mil pés de laranja, que produzem 350 mil caixas da fruta.

Fonte: Ruralbr

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