Impasse da areia depende de ação do Estado

Empresários e ambientalistas aguardam resposta do governo gaúcho a fim de solucionar o problema da extração

Jefferson Klein

ANTONIO PAZ/JC

Pereira anuncia zoneamento do Guaíba para exploração de areia

Pereira anuncia zoneamento do Guaíba para exploração de areia

Se empreendedores e ambientalistas discordam em alguns pontos sobre a extração de areia no rio Jacuí, eles concordam em algo: o governo do Estado precisa agilizar a discussão e a busca de repostas para o problema da falta do mineral no mercado gaúcho. O impasse foi desencadeado com a proibição da retirada de areia do rio, que começou no dia 15 de março, por determinação da Justiça Federal.
O presidente do Sindicato da Indústria da Construção Civil no Rio Grande do Sul (Sinduscon-RS), Paulo Vanzetto Garcia, afirma que o governo começou a “se movimentar”, manifestando preocupação sobre o tema, mas de forma muito lenta. Ele acrescenta que as entidades que representam o setor da construção estão esperando pela confirmação de uma audiência com o governador Tarso Genro. “Todos estão cobrando uma postura do governo”, enfatiza o dirigente. Garcia argumenta que o Estado precisa definir o local para exercer a mineração e fiscalizar essa ação.
Na tarde de ontem, o empresário reuniu-se com o presidente da Fiergs, Heitor Müller, para solicitar o apoio da federação nesse assunto. O presidente do Sinduscon-RS defende ainda a elaboração de um plano diretor para viabilizar a mineração no Guaíba e na Lagoa dos Patos. Porém, ele adverte que essa é uma resposta de longo prazo. O dirigente calcula que um estudo como esse levaria cerca de um ano e meio para ser concluído.
O presidente do Sindicato da Indústria da Construção de Estradas, Pavimentação e Obras de Terraplanagem em Geral no Estado do Rio Grande do Sul (Sicepot), Nilto Scapin, revela que a prefeitura de Porto Alegre foi notificada ontem sobre algumas obras que poderão parar por falta de areia. Entre os empreendimentos que sofrem esse risco ele cita os corredores de ônibus BRTs das avenidas Bento Gonçalves e Protásio Alves. O dirigente apoia a ideia de que a mineração no Jacuí deveria ser liberada novamente com um controle ambiental mais rígido. Ele também sustenta que deveria ser avaliada a mineração no Guaíba e na Lagoa dos Patos. “O impacto ambiental no Guaíba seria muito menor do que no Jacuí, até porque seria possível dragar no meio, onde há a navegação, o que contribuiria para a prática desse transporte”, diz Scapin.
O presidente do Sicepot informa que já há empresas trazendo areia de Santa Catarina para suprir a demanda, mas fazer o mesmo de locais mais distantes seria inviável por causa dos custos. Scapin adverte que, se a falta de matéria-prima persistir por muito tempo, além da redução do ritmo das obras, poderão ocorrer demissões no setor. O presidente do Sindicato dos Trabalhadores nas Indústrias da Construção Pesada no Estado do Rio Grande do Sul (Siticepot), Isabelino Garcia dos Santos, confirma que há o temor de demissões. Ele destaca que a areia é um dos principais insumos da indústria da construção e admite que não está otimista quanto a uma solução rápida do problema.
O presidente da Associação para Pesquisa de Técnicas Ambientais (Apta), Clóvis Braga, é outro que frisa que é preciso fazer o zoneamento para a mineração de areia no Estado. A ONG foi a responsável pela ação civil pública que levou a juíza Vânia Hack de Almeida, da Vara Federal Ambiental de Porto Alegre, a proibir a extração no Jacuí, conforme ela, para proteger o rio. Braga afirma que as entidades ligadas ao segmento da construção estão exagerando com as declarações de que as obras irão ser interrompidas. Ele salienta que, mesmo não podendo mais extrair areia do Jacuí, não quer dizer que não se tenha material à disposição. O presidente da Apta sugere locais como os rios Camaquã, Santa Maria e Cacequi para realizar a extração do mineral.
Braga comenta que há 10 anos a Apta alerta o governo do Estado que o Jacuí não suportava mais a prática de mineração. “Parece que não está havendo vontade política do Estado para resolver essa questão”, aponta Braga.
De acordo com o presidente da Apta, o Jacuí precisará “descansar” pelo menos 20 anos até que se possam realizar extrações nele novamente. “Por que só o Jacuí, não está na hora de os outros rios contribuírem?”, indaga o dirigente. Ele considera o Guaíba e a Lagoa dos Patos como outras possíveis opções.
Já a presidente do Instituto Augusto Carneiro (IAC), a ambientalista Kathia Vasconcellos Monteiro, crê que existe o perigo de as obras pararem. Ela lembra que cerca de 95% da areia que abastecia a Região Metropolitana era proveniente do rio Jacuí.

Secretário confirma o zoneamento do rio Guaíba

Conforme o secretário estadual do Meio Ambiente, Neio Lúcio Pereira, o zoneamento ecológico e econômico do Guaíba será feito pelo governo. Contudo, ele diz que se trata de um trabalho que levará mais de um ano. Pereira relata que até o final de 2013 o governo do Estado irá adquirir um ecobatímetro (equipamento de sondagem), que será empregado no Guaíba. A estimativa é de que o equipamento custe aproximadamente US$ 1 milhão. Os recursos serão provenientes do Banco Mundial. O secretário acrescenta que também será feito um termo de referência para o zoneamento do rio Jacuí. “Mas é claro que não é algo que se faz da noite para o dia”, afirma Pereira.

Fonte: Jornal do Comércio

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