É hora de o mercado doméstico reagir

Em boa medida, a natureza das incertezas que definirão os resultados do agronegócio brasileiro no ano que vem é a mesma que influenciou os rumos do setor em 2016. As perspectivas para o mercado doméstico são melhores, é verdade. Em contrapartida, cresceram, com a eleição de Donald Trump à presidência dos EUA, os riscos de reveses no front externo, derivados de um discurso protecionista que será traduzido em medidas práticas ainda difíceis de mensurar. Mas, se a maior parte das principais cadeias produtivas da agropecuária do país sobreviveu bem às intempéries deste ano que chega ao fim, os sinais atuais indicam que 2017 tende a ser até mais positivo, inclusive para áreas que hoje não têm muito a comemorar.

Em linha gerais, é o que aponta o estudo "Perspectivas para o Agronegócio Brasileiro – 2017", recém-concluído pela equipe do Rabobank Brasil. E, após uma longa entrevista com os autores do trabalho – os analistas Adolfo Fontes, Andres Padilla, Andy Duff, Jefferson Carvalho, Maurício Barbosa, Renato Rasmussen e Victor Ikeda – e com o economista-chefe do banco no país, Mauricio Oreng, é possível considerar que há menos o que temer do futuro do que havia no passado. O que, diga-se de passagem, não deixa de ser uma grande coisa depois de dois anos de queda do Produto Interno Bruto (PIB). "O próximo ainda será um ano de estabilização. Crescimento mesmo, só em 2018", diz Oreng.

Ao mesmo tempo em que chama a atenção para as incógnitas derivada do "fator Trump" no front externo – e suas consequências sobre o câmbio, que foi alvo de uma recente revisão para cima em 2017 (de uma média de R$ 3,15 para R$ 3,30) -, Oreng realça avanços domésticos que tendem a melhorar o ambiente para os negócios no próximo ano. Ainda que reconheça que problemas políticos perdurem, o economista acredita que a tendência para a governabilidade do país é de melhora. Ele concorda que o viés inflacionário é descendente, embora ainda veja nesse ponto motivos para preocupação, e vê com bons olhos o estabelecimento do teto para os gastos públicos, mas insiste na necessidade de o país tocar suas reformas, que serão vitais para a retomada econômica – que, de qualquer forma, será lenta.

Entre todos os segmentos do agronegócio brasileiro, talvez o que esteja mais atento à velocidade dessa retomada é o de carnes, que sofreu com aumento de custos e demanda retraída em 2016, com forte pressão sobre as margens dos frigoríficos, especialmente os de frango e suínos. Mas não só. Afinal, este ano ficou marcado pela queda do consumo per capita das três carnes principais, a começar pela bovina, e as notícias mais positivas ficaram restritas ao comércio internacional, como analisa Adolfo Fontes. Aparentemente, há condições para um maior equilíbrio no segmento no ano que vai começar.

"Em 2016, faltou boi, mas sobrou carne. Só que a mudança do ciclo da pecuária tende a se acentuar em 2017, o que beneficia a indústria depois de anos de oferta escassa, e a demanda doméstica deverá reagir", diz ele. Fontes ressalva, ainda, que este ano não foi apenas de más notícias nessa frente. Finalmente foi aberto o comércio bilateral de carne bovina in natura com os Estados Unidos e a China já desponta como o quarto principal mercado para os frigoríficos de carne bovina no exterior. E para frango e suínos, que estão com as exportações aquecidas, a tendência de queda de custos dos grãos deverá oferecer algum refresco para as margens operacionais no ano que vem.

"Em 2016, o maior impacto para a indústria produtora de proteínas animais veio da quebra da safra de milho, por causa dos efeitos do fenômeno El Niño. Como a produção deve voltar ao normal nesta safra 2016/17, os preços do produto deverão começar a cair já a partir do fim do primeiro trimestre do próximo ano. Mas, com a quebra, este também foi um ano de aprendizado para a indústria, sobretudo em relação a novas fontes de abastecimento", diz Renato Rasmussen, em referência às compras de milho que frigoríficos e cooperativas fizeram na Argentina e no Paraguai para contornar a escassez doméstica do cereal.

Também a produção de soja, carro-chefe do agronegócio brasileiro, deverá registrar aumento expressivo na safra que começará a ser colhida a qualquer momento, engrossando uma confortável oferta global liderada pelos americanos, mas a forte demanda externa, principalmente da China, poderá manter as cotações internacionais em patamares remuneradores. E, nesse contexto, a recuperação das vendas no segmento de insumos como fertilizantes e defensivos poderá ter continuidade, a depender do câmbio e do crédito disponível na praça, como observa Victor Ikeda.

Para os segmentos de cana, café e laranja, cujos preços se mantiveram também elevados em 2016, as perspectivas dos analistas do Rabobank Brasil são ainda positivas, em boa medida graças a ofertas restritas. "Foi um ano excelente para o mercado de açúcar. Mas, como todo ciclo, este também vai chegar ao fim, e as usinas precisam retomar os investimentos para se preparar para isso", afirma Andy Duff. "Para o suco de laranja, as perspectivas são bastante positivas, tendo em vista os estoques globais, que estão muito baixos. A verdade é que para o mundo não há outra saída a não ser comprar o suco brasileiro", diz Andres Padilla. "No caso do café, é bom o cenário para preços e margens de produção, após dois anos de problemas na oferta. O desafio é das indústrias, que precisam manter margens", completa Jefferson Carvalho.

  • Por Fernando Lopes | De São Paulo
  • Fonte : Valor

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