Hidrelétricas perdem até 30% com clima, diz Coppe

Aline Massuca/Valor / Aline Massuca/Valor
Roberto Schaeffer no Fórum de Ciência, Tecnologia e Inovação, no Rio

As mudanças climáticas tendem a exigir investimentos adicionais do Brasil em geração elétrica da ordem de US$ 50 bilhões até 2035 ou 2040, disse ontem o pesquisador Roberto Schaeffer, professor de planejamento energético do programa de pós-graduação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (Coppe/UFRJ).

Os recursos teriam de ser aplicados em projetos de geração térmica a gás e em novas linhas de transmissão de eletricidade, que ajudariam a compensar perdas de até 30% na capacidade de geração de usinas hidrelétricas afetadas pelas mudanças de clima.

"Para o mercado não ficar desabastecido [em consequência do efeito das mudanças climáticas sobre a oferta de água para as hidrelétricas], o país teria que instalar outras plantas [térmicas a gás] que iriam repor a energia perdida das fontes hídricas, sobretudo aquelas a fio d’água [sem reservatórios]. Seria uma espécie de seguro pelas mudanças climáticas, algo que estimamos em cerca de US$ 50 bilhões [até 2035]", disse Schaeffer. Ele disse que o investimento em usinas térmicas e no reforço às linhas de transmissão de energia elétrica tem o objetivo de fazer com que o sistema brasileiro fique "invulnerável" à mudança climática.

Schaeffer afirmou que as projeções constam de estudos sobre possíveis cenários de mudança climática no Brasil e seus efeitos sobre o setor energético brasileiro. "Quando analisamos como as mudanças climáticas vão impactar a temperatura e os níveis de chuvas, notamos que há uma tendência de o Nordeste virar uma região árida, quase um deserto, e a Amazônia se savanizar", disse Schaeffer.

Nesse cenário e considerando que grande parte da expansão hidrelétrica está na região norte, incluindo usinas a fio d’água, chegou-se à conclusão de que poderia se perder até 30% de capacidade de geração hidrelétrica até 2035-2040. "Em alguns momentos, poderia ter déficit de capacidade instalada batendo em quase 30%."

A conta considera ainda que a mudança climática poderia levar a períodos secos ainda mais secos e a períodos úmidos talvez mais úmidos, mas sem efeitos nos casos das hidrelétricas a fio d’água.

Schaeffer participou de painel sobre clima no Fórum sobre Ciência, Tecnologia e Inovação para o Desenvolvimento Sustentável, dentro da programação paralela da Rio+20.

No debate, o pesquisador da Coppe reconheceu que a crise econômica na Europa está colocando as preocupações com a mudança climática em segundo plano. "Com a crise, esse assunto [a mudança do clima] deixa de ser prioridade e, ao não investir ou deixar de manter linhas de pesquisa [sobre o tema], se perde tempo", disse Schaeffer.

Ele reconheceu, porém, que a crise trouxe um efeito positivo relacionado à redução das emissões de gases responsáveis pelo aquecimento global como resultado de uma menor atividade econômica. O pesquisador disse que, em momentos de crise, tende-se a descontinuar certos programas. Citou como exemplo incentivos ou legislações que podem estar sendo criadas para estimular transporte público mais limpo e para aumentar a eficiência energética.

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Fonte: Valor | Por Francisco Góes | Do Rio

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