Heringer pede recuperação

A Fertilizantes Heringer confirmou as expectativas e entrou com pedido de recuperação judicial na comarca da cidade de Paulínia (SP), "em caráter de urgência", no fim da noite de segunda-feira. A notícia fez as ações da companhia despencarem na B3. A queda ontem foi de 30,4%, o que reduziu o valor de mercado da empresa em R$ 56 milhões.

Segundo o advogado do caso, Julio Mandel, a dívida total da Heringer chega a R$ 1,5 bilhão – cerca de 80% em dívidas quirografárias (ou seja, sem garantia real).

Mandel afirmou que a recuperação judicial foi pedida após a russa EuroChem executar uma dívida de R$ 54,98 milhões, o que provocou o bloqueio de todas as contas da Heringer. "Estávamos negociando com credores e isso poderia evitar a recuperação, mas com as contas bloqueadas não houve saída". A Heringer pediu o desbloqueio das contas.

"Ao arrepio da lei processual vigente e sem qualquer respeito ao direito da ampla defesa e do contraditório, referido Juízo presumiu a ‘insolvência’ da Heringer – o que não se presume em nenhum cenário em um Estado Regular de Direito – e promoveu, repita-se, sem oitiva desta parte, o bloqueio total de suas contas e movimentações financeiras, simplesmente paralisando a empresa", aponta o documento de pedido de recuperação judicial ao qual o Valor teve acesso.

Segundo dados do processo, a juíza Marta Brandão Pistelli ficará responsável por julgar o pedido.

Fontes de mercado afirmaram que a própria EuroChem é uma forte candidata a adquirir as operações da Heringer. A russa já detém 50% da Fertilizantes Tocantins. Outra forte concorrente para adquirir a Heringer é a canadense Nutrien – oriunda da fusão entre a Potash e a Agrium -, que já detém 9,5% do capital da empresa brasileira.

A expectativa de venda da companhia chegou a motivar, recentemente, uma alta acumulada de 76,5% das ações da Heringer na B3, apesar dos fracos resultados financeiros e operacionais. De acordo com dados do Valor Data, o capital de giro da companhia estava negativo em R$ 1,3 bilhão no fim do terceiro trimestre do ano passado. Na prática, a companhia vinha queimando caixa e só teria condições de quitar as dívidas de curto prazo (que vencem em até um ano) com a venda de ativos.

Em comunicado enviado à Comissão de Valores Mobiliários (CVM), a Heringer confirmou que iniciou um processo de reestruturação operacional que culminou na suspensão das atividades nas unidades de Rondonópolis (MT), Dourados (MS), Três Corações (MG), Uberaba (MG), Rio Verde (GO), Porto Alegre (RS), Rio Grande (RS), Paranaguá (PR) e Rosário do Catete (SE).

Na tarde de ontem, a companhia convocou assembleia extraordinária de credores para 20 de fevereiro. A assembleia tem como função principal discutir a recuperação judicial e autorizar a diretoria "a praticar todos os atos necessários à efetivação" da RJ.

Em comunicado, Heringer afirmou que "a administração da companhia empreendeu esforços e estudos, em conjunto com seus assessores legais e financeiros, para otimizar a situação de liquidez e o perfil de endividamento da companhia nos últimos meses, tentando, inclusive, buscar potenciais investidores no sentido de equilibrar as demandas de capital de giro para manter as atividades operacionais".

Contudo, destacou o comunicado, "a situação da companhia se deteriorou". Em 2018, aponta documentos divulgados pela Heringer, sua receita somou R$ 3,8 bilhões, queda de 20,8% ante 2017.

Por Kauanna Navarro e Fernanda Pressinott | De São Paulo

Fonte : Valor

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