Grupo do pecuarista Jonas Barcellos fecha parceria e avança em genética

L.Adolfo/Valor / L.Adolfo/Valor
Renato Barcellos, no laboratório da Geneal: empresário diz que mercado para clonagem é promissor e que meta é produzir 80 a 100 clones bovinos por ano

Um dos maiores criadores de gado bovino selecionado do país, o empresário mineiro Jonas Barcellos fez uma parceria com a empresa que detém a patente da técnica de clonagem de animais usada para "fabricar" a ovelha Dolly, nos anos 90.

Barcellos – dono do grupo Brasif – vinha investindo desde 2009 na Geneal, sua empresa de melhoramento genético de bois e vacas. Sua equipe já clonou 35 bovinos. De acordo com Renato Diniz Barcellos Correa, filho de Jonas, a parceria com a americana ViaGen vai acelerar o desenvolvimento técnico nos processos de clonagem.

Formalizada em dezembro do ano passado, a parceria já foi reconhecida pelo Instituto Nacional de Propriedade Industrial (INPI), órgão vinculado ao Ministério do Desenvolvimento, Indústria e Comércio Exterior (Mdic). O INPI reconheceu a patente da ViaGen em 2011 no Brasil. Na semana passada, em entrevista ao Valor, a família e os pesquisadores do projeto falaram, pela primeira vez, sobre a parceria.

A ViaGen, sediada em Austin, no Estado do Texas, detém a patente das técnicas desenvolvidas por cientistas da Escócia para a clonagem de Dolly. Segundo o diretor técnico da Geneal, Rodolfo Rumpf, a companhia americana, líder mundial na área de clonagem animal, tentava se aproximar do mercado pecuário brasileiro quando a família mineira iniciou conversas para uma parceria. O Brasil tem uma predominância de raças zebuínas, enquanto nos Estados Unidos é de raças europeias.

Ao ser licenciada pela ViaGen no Brasil, a Geneal passou a ter acesso à tecnologia – transferência que já começou a ser feita com a visita de técnicos dos EUA a Uberaba e vice-versa. Rumpf diz que, além disso, a Geneal participará do desenvolvimento de novas técnicas junto com os pesquisadores no Texas. Por fim, segundo Rumpf, a empresa dos Barcellos fica em posição mais confortável em relação a outros laboratórios que trabalham com clonagem no Brasil no que diz respeito ao uso de um conhecimento patenteado.

Em um mundo dado a tradicionalismos como é o da pecuária, há ainda resistências por parte de muitos empresários em relação a clonar vacas ou touros valorizados para a reprodução. A dúvida mais comum é se os animais clonados serão tão produtivos quanto os originais e se vale gastar com esse tipo de serviço. Quem tenta a técnica quer ter, por exemplo, uma vaca idêntica a uma campeã que produz 40 embriões por ano – transferidos para serem gestados em várias vacas. O mercado potencial não é o dos animais clonados, mas, sim, de suas crias.

"Vislumbramos um mercado muito bom para a clonagem", diz Renato Barcellos, diretor da Brasif Pecuária, um dos negócios do Grupo Brasif. A Geneal é uma das empresas da Brasif Pecuária. "Queremos ver se chegamos a produzir 80 a 100 clones por ano, numa primeira fase, cada um na faixa dos R$ 50 mil", diz ele. A empresa não fala qual sua expectativa de ganhos com o negócio.

Por enquanto, cerca de 140 animais já foram clonados em todo o país pela Geneal e outros laboratórios, estima a companhia. À medida que os filhos desses clones crescem, a resistência do setor vai diminuindo, afirma o pecuarista.

Desde 2009, a Geneal já entregou 35 bezerros clonados. Até então, no entanto, a empresa vinha atuando em regime pré-operacional. Este ano, o primeiro de fato em operação no mercado, a estimativa da empresa é entregar 40. Além de clones, a Geneal se dedica também a fertilização in vitro e a serviços com DNA para gado.

Com relação à clonagem, a Geneal começou em 2009 com um grau de eficiência baixo no que diz respeito ao número de embriões. Seus técnicos tinham de transferir 200 embriões para conseguir um clone. Um percentual de acerto de 0,5%. Com o progresso das pesquisas, esse percentual subiu para 1,5% e, no ano que vem, Barcellos espera chegar a 2,5% a 3%. Os avanços até então foram conseguidos graças às pesquisas da equipe da Geneal em parceria com a Embrapa. A ViaGen consegue uma eficiência de 8% nos EUA. A meta é, aqui e lá, atingir a marca dos 10%. Isso diminui custos e tende a ampliar o mercado.

A demanda por clones da Geneal é principalmente de reprodutores e matrizes das raças nelore, gir e também de girolando. Criadores em Minas Gerais e São Paulo são os mais interessados.

Bezerrinha nada convencional

"Brasília da Cerrados". Esse é o nome da bezerrinha ao lado, o primeiro animal clonado a partir de células de tecido adiposo de um bovino adulto e não um clone convencional, a partir de células embrionárias. A técnica foi realizada pela Embrapa, que apresentou ontem a bezerra nascida no dia 23 de abril. Segundo a Embrapa, o animal é saudável e evolui normalmente, diferentemente de testes com outros métodos de clonagem. "Há relatos na literatura de tentativas de clonagem a partir de células-tronco induzidas de células adiposas, mas o animal nasceu morto. No nosso caso, é a primeira vez que nasce um animal saudável utilizando-se esse tipo celular como fonte de células-tronco", explicou o pesquisado Carlos Frederico Martins. Segundo ele, o objetivo é "futuramente clonar animais geneticamente modificados para produzirem, por exemplo, a insulina ou fatores de coagulação humana, que possam ser liberadas a partir do leite bovino".

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Fonte: Valor | Por Marcos de Moura e Souza | De Uberaba (MG)

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