GRÃOS | Safra recorde, problemas também

Velhos obstáculos da infraestrutura, como ineficiências em armazenagem e transporte, se acentuam com a perspectiva de colheita de 185 milhões de toneladas

Se a safra brasileira de grãos cresce em progressão aritmética, as estruturas de armazenagem e transporte não têm acompanhado essa evolução, o que deixa especialistas de logística e o setor produtivo em estado de alerta. Com previsão de colheita de 185 milhões de toneladas, conforme o último levantamento da Companhia Nacional de Abastecimento (Conab), a preocupação agora é saber como a infraestrutura vai se comportar.
Esse assunto será debatido no último dia da Expodireto Cotrijal, numa promoção conjunta da Câmara dos Deputados, do Senado e da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Sul. Segundo a senadora Ana Amélia Lemos (PP-RS), que presidirá a audiência pública, os produtores brasileiros têm feito um trabalho excelente, equiparado ao dos maiores concorrentes, como os Estados Unidos, mas que se perde no pós-colheita devido à ineficiência de armazenagem, transporte e à demora dos governos em solucionar o problema de escoamento da safra.
– Para que o Brasil tenha uma estrutura viária como a dos americanos, por exemplo, é preciso investir R$ 177 bilhões para a construção de 9,6 mil quilômetros de novas rodovias, fazer a duplicação de 15 mil quilômetros, a pavimentação de 7,6 mil quilômetros e recuperação de pavimento de 28,7 mil quilômetros. Na região da Expodireto, entre Victor Graeff e Tio Hugo, no coração da produção de soja, temos 16 quilômetros de estrada que estão inviáveis – alerta a senadora.
Uma das soluções seria a mudança para os modelos ferroviário e hidroviário, que se mostram eficazes em outros países. Nos EUA, 60% do transporte da safra é feito por rios, enquanto no Brasil o índice é de apenas 5%. Segundo Mauro Roberto Schlüter, professor de logística da Universidade Mackenzie, de Campinas (SP), o principal problema é a concentração de poucas empresas operando nos transportes por ferrovias e hidrovias:
– Qualquer pane causa um colapso no sistema de transporte brasileiro. Todos falam nesta mudança de matriz de transporte, mas existem variáveis que dificultam essa modificação, e o monopólio no serviço é uma delas.
Essa opinião é compartilhada por Fábio Trigueirinho, secretário geral da Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove), que acrescenta ainda aos problemas a estrutura portuária deficitária.
– Nos últimos cinco anos, aumentamos ao menos 45 milhões de toneladas na produção brasileira de grãos, mas as estruturas são as mesmas – adverte.
Segundo Trigueirinho, com a adoção da lei 12.619/12, sobre a jornada de trabalho dos motoristas profissionais, o setor não teve tempo de se adequar às novas regras, o que encarece o frete. Só no trecho de 2,3 mil quilômetros de Sorriso, em Mato Grosso, até o porto de Paranaguá, no Paraná, o custo subiu 50% ante 2012, para R$ 290 por tonelada.
Com esse cenário, segundo estudo da Confederação Nacional do Transporte (CNT), o atraso na logística provoca um custo de 11,6% do PIB, ante 8,7% nos EUA – uma diferença de R$ 120 bilhões entre os dois países quando se trata de escoar a produção agrícola.
Grãos
nestor.junior@zerohora.com.br

NESTOR TIPA JÚNIOR

Os pontos de esgotamento logístico

ARMAZENAGEM

n Conforme dados da Conab, a capacidade estática (disponível em um determinado momento) atual no país é de 148,34 milhões de toneladas. Está longe do preconizado pela Organização das Nações Unidas para Agricultura e Alimentação (FAO), que determina um total de 120% da colheita de grãos. Se a safra chega a 185 milhões de toneladas, o ideal de acordo com a FAO seria de 222 milhões de toneladas de capacidade de armazenagem.

RODOVIAS

n É o principal modal para transporte da safra brasileira de grãos. No entanto, a falta de manutenção das estradas traz perdas na hora do transporte. De acordo com a senadora Ana Amélia Lemos, com base em levantamento do Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (Cepea), é preciso investir R$ 177 bilhões para a construção de 9,6 mil quilômetros de novas rodovias, fazer a duplicação de 15 mil quilômetros, a pavimentação de 7,6 mil quilômetros e recuperação de pavimento de 28,7 mil quilômetros.

HIDROVIAS E FERROVIAS

n Especialistas indicam que o uso desses modais desafogariam as estradas e trariam redução de custos no transporte. Conforme dados da Abiove, o Brasil tem potencial de 42 mil quilômetros de hidrovias e 28,7 mil quilômetros de ferrovias, mas pouco utiliza estes meios para escoar os grãos. Um dos problemas apontados é a falta de um marco regulatório eficiente, o que cria monopólios e concentração de poucas empresas que operam esses serviços, o que encarece o custo.

PORTOS

n Mesmo que o anúncio feito em dezembro do ano passado de investimentos de R$ 54,2 bilhões para os portos brasileiros, o longo prazo dado – até 2017 – preocupa o setor, já que a tendência é de crescimento da safra nos próximos anos. Principal caminho da soja para a China, o porto de Santos (SP) é a mais importante porta de saída do produto, com 9,2%. Rio Grande está em terceiro lugar, com 5,8%, perdendo também para Paranaguá (PR), segundo os dados do Ministério do Desenvolvimento.

FRETE

n É considerado um dos mais caros do mundo. Segundo dados da Associação Nacional dos Exportadores de Cereais, o frete médio por tonelada de soja no Brasil foi de US$ 98 em 2012, enquanto nos Estados Unidos foi quase cinco vezes menor, fechando em US$ 20. A situação piorou depois da implementação da nova lei que regula a jornada de trabalho dos motoristas profissionais. A Abiove estima que são necessários pelo menos 50 mil novos profissionais para manter o fluxo de transporte nas rodovias brasileiras sem atrasar a entrega da produção nos portos do país.

Fonte: Zero Hora

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