GRÃOS – Produtores comemoram ganhos com a soja recorde no Rio Grande do Sul

Safra de 20,1 milhões de toneladas transformou o Rio Grande do Sul no segundo maior estado produtor de soja

Safra de 20,1 milhões de toneladas transformou o Rio Grande do Sul no segundo maior estado produtor de soja

Imagine o leitor o seguinte cenário: sair de uma forte quebra da colheita de soja no ano passado para uma supersafra que rendeu, em média, 56 sacas da oleaginosa em cada um dos 500 hectares plantados em Joia, no Noroeste do Estado. Ao perceber que teria resultado tão positivo na safra deste ano, o produtor rural Rafael Fontana respirou aliviado, comemorou, mas adotou logo a prudência para lidar com a lucratividade histórica. "A minha prioridade foi botar as contas das safras passadas em dia. Pagar tudo o que tinha ficado de negociações, porque não é sempre que conseguimos fazer esse caixa para a propriedade", conta.

A realidade dele foi uma constante entre os 258 mil produtores de soja do Rio Grande do Sul neste ano. A estimativa do Ministério da Agricultura é de que, somente no Estado, o valor bruto da supersafra da soja resulte em R$ 50,6 bilhões circulando na economia gaúcha este ano, ou 104,1% a mais do que em 2020, quando a quebra média chegou a 47% na safra.

Foi a lucratividade do setor que impactou diretamente na alta de 4% do PIB gaúcho no primeiro trimestre. Isso sempre representa maiores investimentos em imóveis, veículos, maquinário, tecnologia e em melhorias na estrutura da propriedade. Mas, como o próprio Fontana faz questão de repetir: "desta vez, com moderação".

Ele é um dos agricultores que adotou, como uma espécie de mantra, a máxima de que "é em ano bom que produtor quebra", atribuída ao economista-chefe da Farsul, Antônio da Luz. A cautela é justificada uma vez que a produção de soja deu um salto: passou de 10,7 milhões de toneladas no ano passado (com uma quebra de quase 50% devido à estiagem) para 20,1 milhões de toneladas da oleaginosa. Este feito levou o Rio Grande do Sul a ultrapassar o Paraná, ocupando a segunda posição entre os maiores produtores de soja do Brasil em 2021 (a lista é liderada pelo Mato Grosso, com 35,9 milhões de toneladas da oleaginosa).

Para completar o cenário positivo, finalmente os sojicultores gaúchos podem comemorar a alta nos preços das commodities. No início do plantio, a saca era negociada, em média, a R$ 95,00. Na colheita, ultrapassou os R$ 160,00. Uma alta que alguns produtores rurais ainda rentabilizam, já que em torno de 20% da produção segue estocada. Por outro lado, com a necessidade de ter liquidez para uma safra que até o final de 2020 ainda era incerta, cerca de 35% da produção foi vendida antecipadamente, com preços inferiores a R$ 90,00 por saca.

"Este é um ano que dá oportunidade para todos organizarem o caixa. Investir, somente com o valor que exceder a esta prioridade, e sempre pensando na própria produção, porque todos precisam estar preparados para outras crises, outras estiagens, a diminuição de capacidade do poder público em renegociar dívidas. Esses obstáculos fazem parte da atividade. É sempre um erro dar como resolvida a questão do caixa por um ano de boa safra", explica Antônio da Luz.

Resultados dão fôlego para novos investimentos

Não há levantamentos concretos sobre qual era o tamanho da dívida dos produtores de soja gaúchos antes da safra. Em novembro do ano passado, a Associação dos Produtores de Soja do Rio Grande do Sul (Aprosoja/RS) estimava que grande dos produtores no Estado já devia uma safra e meia para bancos, tradings e cooperativas. Se, em anos normais, não passava de uma centena os que recorriam ao resgate do seguro rural, no ano passado, em torno de 10 mil produtores, dos 53,7 mil contratantes para a soja, solicitaram vistorias do seguro Proagro no Rio Grande do Sul.

De acordo com o consultor da Aprosoja/RS José Domingos, o ritmo de busca de capital para custeio no Plano Safra recém lançado pelo governo federal, disponibilizando R$ 251,22 bilhões em recursos – 6,3% a mais do que em 2020 – tende a seguir o mesmo, e, diferentemente de outros anos, sinalizando o bom resultado da atual safra, não há nova pressão para renegociação de dívidas.

"Quanto mais se produz, maior a capacidade de pagamento. Então, não quer dizer que seja ruim aumentar a busca por recursos no Plano Safra, por exemplo, para custeio, porque, se há boa gestão na propriedade, há maior capacidade de cobrir estes valores", completa Antônio da Luz.

Quando o valor recebido com a safra supera expectativas, o fôlego fica ainda maior. Décio Teixeira, que preside da Aprosoja/RS e planta há 50 anos entre Joia e Cruz Alta, saldou inclusive débitos futuros com o resultado dos 800 hectares que cultivou nesta safra. "Consegui quitar dívidas que só vão vencer no ano que vem. Foi um ano excepcional. Colher bem e vender bem é muito raro no Rio Grande do Sul", comemora.

Também em Joia, o produtor rural Rafael Fontana ainda devia em torno de 25% dos valores negociados na safra do ano passado. Pagou e sobraram recursos. Já havia vendido 40% da produção antecipadamente, e agora tem 15% ainda estocados para garantir o seu capital de giro.

FERNANDO DIAS/DIVULGAÇÃO/JC

Eduardo Torres

Fonte : Jornal do Comércio

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