Grãos menores podem limitar safra de café de Minas Gerais

Colheita mecanizada em fazenda do Café Santa Mônica em Machado (MG): seca no período de floração afetou maturação dos frutos e atrasou retirada dos grãos
Nesta safra 2015/16 de café, que está sendo colhida, os produtores de Minas Gerais estão tendo mais trabalho para encher uma saca. Além do atraso de 20 a 30 dias na colheita em comparação com o ano passado no Estado, os grãos da espécie arábica que estão sendo retirados dos cafeeiros estão mais miúdos do que o esperado.

"Os grãos estão menores e isso significa que é preciso mais café para fazer um saca [de 60 quilos]", observa Andre Luiz Garcia, pesquisador da Fundação Procafé. No maior Estado produtor de café do país, apenas entre 8% e 10% dos grãos colhidos até agora podem ser classificados como peneira 17 acima (mais graúdos), que são os mais demandados na exportação. O normal seria um volume superior a 20% de cafés com essa classificação, segundo ele.

A situação pode ser vista no Estado de uma maneira geral, segundo a Fundação Procafé, e pode ser explicada por problemas climáticos na época do enchimento dos grãos. "A seca e a estiagem foram tão grandes em 2014 que as plantas não conseguiram se recuperar dos efeitos colaterais", afirma Garcia.

A falta de chuvas na florada, entre setembro e outubro, prejudicou o desenvolvimento e afetou a fisiologia da planta, explica o pesquisador. Depois, as altas temperaturas e a ausência de chuvas em dezembro e janeiro passados comprometeram o enchimento dos grãos. Isso significa impacto sobre a produtividade.

Até lavouras irrigadas de café sofreram com as altas temperaturas e poucas chuvas entre dezembro e janeiro. Na fazenda do Café Santa Mônica, por exemplo, em Machado, no sul de Minas, a quantidade de grãos miúdos nesta safra deve superar a do ciclo passado, segundo Arthur Moscofian Jr., fundador do Café Santa Mônica. A razão, diz, "é que não choveu o suficiente durante o desenvolvimento dos grãos".

"Mesmo com irrigação, os cafeeiros foram afetados porque a evapotranspiração foi maior que a quantidade de água que pudemos jogar", afirma Moscofian. O produtor informa que na safra passada 40% a 50% do café colhido na fazenda era peneira 17 acima, o tamanho mais demandado pelos importadores. No atual ciclo, a Santa Mônica deve colher 30% do volume com essa classificação.

O presidente da Cooperativa Regional de Cafeicultores em Guaxupé (Cooxupé), a maior de café do país, Carlos Alberto Paulino da Costa, afirma que há diferentes situações, dependendo da região de produção de café em Minas Gerais. No caso da região sul do Estado, informa, a quantidade de café colhida está dentro do esperado, mas os grãos são mais miúdos. Já no Cerrado mineiro, a produção é menor e os grãos apresentam tamanho normal.

Segundo ele, antes do início da colheita, em junho, a estimativa era de uma produção de 8 milhões de sacas na região de atuação da Cooxupé, mesmo volume da safra anterior. Agora, avalia, a produção "deve ser menor" e um dos motivos para isso são os grãos mais miúdos. A Cooxupé atua nas regiões do Cerrado mineiro, sul de Minas e também no Estado de São Paulo.

Além de afetar o rendimento das lavouras, a incidência de grãos menores tem reflexo nos preços de negociação do café, já que grãos maiores são mais valorizados.

Em junho, a Conab estimou que a produção de café em Minas Gerais deve alcançar 23,64 milhões de sacas na safra 2015/16, 4,4% mais do que no ciclo anterior. Mas os números devem ser revisados. Em sua estimativa, a Conab também já considerava que parte da produção em Minas Gerais deve ser de "peneira mais baixa" por conta dos problemas climáticos que comprometeram o enchimento dos grãos.

Em levantamento encomendado pelo Conselho Nacional do Café (CNC), a Procafé projetou, em março passado, que Minas Gerais deve ter produção total entre 21,5 milhões e 22,950 milhões de sacas. Comparado com volume colhido em 2014/15 no Estado, segundo a Conab, a variação deve ser de uma queda de 5% a um aumento de 1,3%.

Os grãos mais miúdos não são a única preocupação dos cafeicultores de Minas Gerais. Na Cooperativa Agrária de Machado (Coopama), no sul do Estado, a colheita está com três semanas de atraso.

João Emygdio Gonçalves, presidente da cooperativa, afirma que a expectativa é receber cerca de 170 mil sacas de café nesta safra, mas até agora só 35 mil sacas foram entregues pelos cooperados.

A principal razão para o atraso da colheita, segundo produtores e especialistas, é que a falta de chuvas entre setembro e novembro passados gerou floradas desuniformes em 2014, afetando a maturação dos grãos. "Na safra passada, recebemos 200 mil sacas. Mas nesta, a produtividade está menor e o tamanho dos grãos também", diz o presidente da Coopama, que tem 1.850 cooperados espalhados por 32 municípios.

Por Alda do Amaral Rocha | De Machado (MG) e São Paulo

Fonte : Valor

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