Grãos estocados na Argentina somam US$ 12 bi

Para Marangoni, "é natural" que o produtor espere uma rentabilidade melhor
O campo é uma das esperanças dos candidatos à eleição presidencial na Argentina para a recuperação dos níveis de reservas em moeda estrangeira no país. O presidente do Banco Província, Gustavo Marangoni, disse hoje que a quantidade de grãos estocados soma US$ 12,5 bilhões em divisas que entrarão no país quando os contratos de exportação forem liquidados. Esse valor equivale a 46% das reservas registradas no Banco Central da Argentina.

Os grãos estariam estocados em silos-bolsa à espera da mudança de governo, em 11 de dezembro. Os dois candidatos que disputam a sucessão de Cristina Kirchner se comprometem a tirar as taxas cobradas para exportação da maior parte dos produtos agrícolas, em vigor desde 2007. Por isso, os produtores rurais teriam preferido aguardar a posse do novo presidente para liquidar contratos de exportação.

Além de presidente do Província, Marangoni é um dos principais conselheiros de Daniel Scioli, o candidato governista que disputa a eleição presidencial. Segundo o executivo, com os dólares dos grãos estocados o país ganharia fôlego e tempo para voltar a ter acesso aos financiamentos do mercado internacional.

Os representantes dos produtores têm outros números de estoque. Segundo a Sociedade Rural Argentina, da safra 2014/15 restou um estoque equivalente a US$ 8,8 bilhões, que "depende da volatilidade de preços no mercado internacional". Segundo a entidade, 75% da colheita da safra de soja já foi vendida, um percentual superior ao do ano passado, que nessa época estava em 68%. "Não podemos deixar de vender porque temos que pagar as contas; a inflação não perdoa", destaca o presidente da entidade, Miguel Etchevere.

As chamadas "retenções" ou direitos de exportação variam de acordo com o produto e foram criadas sob o princípio de taxar vendas de bens produzidos pela natureza; ou seja, pela exploração produtiva da terra. Marangoni calcula que, na média, isso equivale, para o produtor, como se ele recebesse o equivalente a menos de 70% da cotação do dólar.

Para o presidente do Banco Província, "é natural" que o produtor espere por uma rentabilidade melhor. "Há um forte vínculo entre devolver mais rentabilidade ao campo e engrossar as divisas", observa. De acordo com ele, Scioli se compromete a zerar as taxas de produtos como trigo e milho logo depois da posse. No caso da soja, a cobrança seria reduzida gradativamente.

Além do fim das taxas para a exportação, há também, entre os produtores, grande expectativa de que a próxima equipe econômica faça uma desvalorização do peso, embora os candidatos neguem a intenção de promover uma maxidesvalorização cambial.

Para o reforço das reservas, Marangoni diz que a equipe de Scioli também espera que uma parte dos dólares em poder da população volte ao mercado do país. Os economistas calculam que os argentinos têm perto de US$ 200 bilhões espalhados em contas no exterior, cofres de bancos ou guardados em casa. É o chamado dólar "colchão". O país precisa de algum fôlego em reservas em moeda estrangeira enquanto negocia com credores para sair do "default".

O setor agropecuário é um dos que aguardam com mais ansiedade a mudança de governo na Argentina. Além das taxas, o governo de Cristina Kirchner limitou a venda externa de produtos, principalmente carne bovina e trigo. O sistema de licenças para exportar visava evitar a alta de preços no mercado interno.

O efeito, segundo Etchevere, foi uma perda de rentabilidade que desestimulou a atividade. Durante esse governo, diz o empresário, deixaram de ser semeados 2 milhões de hectares, uma área superior ao tamanho do Uruguai, e 95 mil empresários do setor pecuário desistiram da atividade. A Sociedade Rural Argentina estima que o país poderia chegar em 2020 a uma produção anual de grãos de 150 milhões de toneladas, um terço a mais que o volume atual.

"Ao invés de tratar o setor como aliado, o atual governo nos vê como inimigos", afirma Etchevere. O setor poderá ter, no entanto, um aliado na Casa Rosada se forem confirmados nas urnas os resultados das últimas pesquisas. O candidato à eleição presidencial favorito atualmente é Maurício Macri, prefeito de Buenos Aires e empresário.

Macri, que passou à frente de Scioli nas pesquisas depois do primeiro turno das eleições, já deu sinais positivos ao agronegócio, como a presença nas feiras de agropecuária que, durante o kirchnerismo não foram visitadas sequer pelos ministros da Agricultura. Macri tem oito pontos de vantagem em relação a Scioli, de acordo com as pesquisas.

"Com exceção de Scioli, todas as forças políticas do país já demonstraram apoio ao agronegócio, que emprega um terço da mão de obra do país", diz Etchevere. O empresário suspeita que a eleição de Scioli represente o risco da continuidade. Segundo ele, mais do que nomes, o país precisa de políticas públicas que restabeleçam a atividade e acabem com a inflação. Seja quem for o vencedor, o ciclo de um governo tido como inimigo do campo já está no fim. No dia 22 os argentinos definem o sucessor de Cristina.

Por Marli Olmos | De Buenos Aires

Fonte : Valor

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