Greve terá impacto de longo prazo

 

Pecuária leiteira e cadeia do frango enfrentam solavanco com reflexo no ritmo de produção e na sanidade

Postado em 2 de março de 2015

Produtores lavam rua com leite em Pitanga, no centro do PR. Imagem Reprodução

Produtores lavam rua com leite em Pitanga, no centro do PR. Imagem Reprodução

Autor: José Rocher

Os prejuízos da greve dos caminhoneiros para o agronegócio irão além das cifras milionárias registradas nas duas últimas semanas. Cálculos aproximados indicam que o Paraná deixou de arrecadar mais de R$ 300 milhões na produção de leite e de carne de frango, mas as consequências vão se prolongar, conforme o setor produtivo.

As indústrias temem perder confiança dos consumidores nos mercados interno e externo. Por enquanto, o presidente do Sindicato das Indústrias de Produtos Avícolas do Paraná (Sindiavipar), Domingos Martins, descarta a imposição de barreiras sanitárias às exportações.
Ele observa, porém, que o fato de 3 milhões de aves terem sido submetidas a alimentação deficiente terá reflexos como o crescimento irregular do plantel. Esse fator interfere na renda do produtor e na dos frigoríficos, com mudanças no padrão dos cortes.

As indústrias informaram não ter interrompido as exportações, mas confirmaram que milhões de aves ficaram mais tempo que o normal nos aviários. Os plantéis que passaram do peso para exportação devem ser distribuídos no mercado interno. A oferta extra de alguns cortes deve acarretar redução de preço (e de arrecadação), como estímulo ao consumo.

As indústrias que interromperam suas atividades terão de negociar com sindicatos para a compensação das horas de trabalho perdidas. Caso não haja descontos, além de reduzirem o abate e a arrecadação, terão custo maior no semestre.

Queijo barato

A alta nos preços observada pelo consumidor é considera relativa. A oferta menor que o consumo é momentânea e não remunera a indústria.

É o que ocorre em relação à paranaense Lactobom. A empresa conseguiu a façanha de não interromper a coleta de leite durante a greve, mas teve de alterar sua logística. “Destinamos um volume maior de leite para produção de queijo, que depende menos de transporte mas dá menos lucro”, conta o diretor da empresa, Jandir Fausto Bombardelli.

A proporção do leite destinado á produção de queijo tipo mozarela foi elevada de 20% para 40% na unidade de Toledo (Oeste). A fabricação passou da casa de 2 mil para a de 3 mil quilos ao dia.
“Nosso negócio não é queijo, é leite. O queijo é só excedente”, relata. A cada dez litros de leite, a empresa arrecada R$ 16. Com o queijo resultante desse mesmo volume, a renda cai para R$ 11 a R$ 12, compara.

“Teremos de vender o queijo mais barato para estimular a saída”, prevê Bombardelli. A empresa distribui o alimento para as regiões de Oeste, Noroeste e Norte, além de Curitiba. Não há garantia de que a redução de preço seja repassada ao consumidor, aponta.

A vantagem da estratégia foi evitar que fosse jogado leite fora, relata. Como coleta a produção de unidades leiteiras próximas, a Lactobom depende menos de frete que as grandes indústrias do setor e conseguiu driblar a greve. “Dos nossos 103 produtores da região de Toledo, nenhum jogou leite fora, e aproveitamos tudo”, comemora.

Fonte: Gazeta do Povo