Greenpeace acusa empresa de descumprir acordo ambiental

O Greenpeace divulga hoje, mundialmente, relatório sobre a contribuição da JBS no desmatamento da Amazônia. Intitulado "JBS Reprovado – Como a maior empresa de carnes do planeta continua massacrando a Amazônia", o documento, fruto de pesquisas de campo de 18 meses, acusa a empresa de continuar a descumprir compromissos acordados com a sociedade civil e o Ministério Público Federal: não comprar animais provenientes de áreas desmatadas, de territórios indígenas ou de propriedades rurais embargadas por empregar pessoas em condições análogas à escravidão.

A organização ambientalista também anunciará hoje o nome de cinco clientes externos da JBS que teriam concordado em romper ou não renovar contrato com a empresa devido às acusações. São eles: as redes britânicas de supermercados Sainsbury, Princess (do Grupo Mitsubishi), Asda e Clarks, de calçados, a sueca Ikea (que compra couro da JBS via processadores italianos) e a gigante holandesa Sligro Food Group. "Passamos três meses enviando relatórios e informações sobre a JBS a essas empresas através de nossos campaigners na Europa", afirmou André Muggiati, da campanha Amazônia do Greenpeace.

Sem saber informar a participação dessas empresas na carteira de clientes internacionais da JBS – que não deve ser grande -, a notícia é mais uma dor de cabeça para a maior processadora de proteína animal do mundo, que nos últimos tempos tem tentado mostrar avanços na gestão ambiental de suas operações. Procurada, a JBS informou, por nota, que em análise prévia de uma cópia do documento obtida pela empresa foram constatadas "inconsistências" nos dados. A JBS só se pronunciará depois que tiver acesso ao conteúdo das acusações.

O relatório faz um "checklist" de nove pontos acertados em outubro de 2009, quando o acordo pela preservação da Amazônia foi costurado por JBS, Marfrig e Minerva – os três maiores frigoríficos do Brasil – e o MPF. Desta vez, o Greenpeace centrou foco em Mato Grosso, principal produtor de gado bovino no país, e encontrou cinco irregularidades na compra de animais de fornecedores diretos da JBS. Diz o documento que as propriedades (ver mapa) forneceram 687 bois para abatedouros da JBS de junho a dezembro de 2011, mesmo embargadas por desmatamento pelo Ibama.

Outras 11 fazendas acusadas de desmatamento ilegal pelo governo federal teriam fornecido, no mesmo período, 7.344 animais a 15 fazendas que têm contratos diretos com a JBS. Isso pode significar que a empresa está prestando mais atenção à qualidade ambiental de seus fornecedores (quem faz a engorda dos animais), mas que estes não tomam as mesmas precauções na ponta inicial da cadeia (o criador).

Citando nomes de propriedades e proprietários rurais, datas de compra e volume de animais comercializados, o relatório do Greenpeace também aponta outras irregularidades na cadeia de custódia da carne bovina da JBS: a compra de animais criados em fazendas com funcionários mantidos em condições de escravidão. Caso da Fazenda Santa Rita de Cássia, localizada em Juruá e incluída na lista negra do Ministério do Trabalho. "Em dezembro de 2010, a fazenda mantinha dez funcionários nessa condições. Em agosto de 2011, forneceu 135 animais à Fazenda Olho D’Água II e 118 animais à Fazenda Beira Rio", todas da mesma cidade, "que forneceram animais à JBS em outubro, novembro e em dezembro de 2011". Muggiati afirma que as investigações mostraram que essas propriedades estavam no site do Ministério do Trabalho à época da comercialização.

Dez fazendas localizadas em terras indígenas também foram fornecedores de bois a plantas de abate da JBS em Mato Grosso. Muggiati lembra que, como o BNDES tem fatia de 31,4% na JBS, o governo tem responsabilidade direta sobre a atuação da empresa. "O que nós fizemos foi um trabalho básico (…) Abrimos a lista de não conformidade no site do Ibama e Ministério do Trabalho e cruzamos com as provas que obtivemos sobre comércio de animais da JBS. Por isso, estamos pedindo cautela com os produtos da empresa".

A falta de monitoramento prometido pela JBS também preocupa o Greenpeace. Segundo os ambientalistas, a relação entre ONG e empresa, já estremecida pela falta de resultados, azedou de vez quando o principal item do compromisso de 2009 foi mudado unilateralmente, abrindo o flanco para novas picadas na floresta. Segundo Muggiati, o desmatamento "zero" passou a ser substituído nos discursos da empresa por desmatamento "ilegal".

Politicamente, o discurso contaria a bandeira global do Greenpeace – "em um mundo ameaçado pela mudança climática, não é tolerável a destruição de florestas"; na prática, não garante a Amazônia em pé.

Como parte do esforço em ampliar o controle no fornecimento, a JBS investiu recentemente em treinamento de seus compradores de carne e equipamentos. Hoje, cada caminhão que chega a uma propriedade no bioma amazônico faz uma coordenada por GPS do local, que passa a servir de referência para o monitoramento ambiental. A partir dos dados de desmatamento, a JBS sobrepõe imagens oficiais de satélite às coordenadas geográficas das propriedades. Se há desmatamento no raio de dez quilômetros de um fornecedor, ele é informado sobre a suspensão de entrega até que a situação seja esclarecida ou resolvida.

Mas o diabo está no detalhe. "Como eles podem saber se aquele desmatamento é legal se não há mapa georreferenciado das fazendas?", pergunta Muggiati. Ele diz, ainda, que há quase um ano pede para ver os resultados da auditoria externa prometida. Coincidência ou não, a JBS enviou o resultado das auditorias por e-mail ao Greenpeace ontem.

© 2000 – 2012. Todos os direitos reservados ao Valor Econômico S.A. . Verifique nossos Termos de Uso em http://www.valor.com.br/termos-de-uso. Este material não pode ser publicado, reescrito, redistribuído ou transmitido por broadcast sem autorização do Valor Econômico.
Leia mais em:

http://www.valor.com.br/empresas/2693980/greenpeace-acusa-empresa-de-descumprir-acordo-ambiental#ixzz1x1ElqYS7

Fonte: Valor | Por Bettina Barros | De São Paulo

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *