Gestores de recursos redimensionam risco em ação da BRF

Gestores de recursos com posições em BRF tentam medir os estragos que a Operação Trapaça ainda podem ter sobre as ações da empresa. Após o tombo da ordem de 23% dos papéis na bolsa na segunda e terças-feiras – e queda no valor de mercado de mais de R$ 5,4 bilhões -, fazem contas e ajustam o tamanho da exposição.

Fundos estrangeiros acionistas da fabricante de alimentos começaram a reduzir o tamanho das posições na própria segunda-feira. Conforme o Valor apurou, gestoras como Franklin Templeton, BlackRock e T Rowe estiveram entre os acionistas vendedores, que ajudaram a empurrar a ação para a casa dos R$ 24.

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Blackrock e Templeton não comentam e a T. Rowe não retornou até o fechamento desta edição. Os gestores não esclareceram se têm restrições em suas políticas de investimento em manter participação em empresas sob investigação criminal.

Entre as casas locais, houve quem tenha vendido os ativos antes do episódio ao perceber que a companhia ficou mais reclusa em meio ao processo de troca do conselho de administração. Outros observam as cotações, consideram que as ações ficaram baratas, mas temem os desdobramentos que as investigações ou sanções comerciais no exterior possam ter sobre os resultados operacionais da fabricante de proteínas.

Um gestor diz ter montado a posição em BRF entre novembro e dezembro, sob a tese de que o mercado de grãos vinha se normalizando e que a recuperação da demanda doméstica impulsionaria as receitas da companhia no Brasil. "Mas no meio do caminho ficamos desconfortáveis porque a empresa não passava nenhuma informação objetiva, não validava as nossas projeções para 2018 e 2019. O risco aumentou", diz.

Metade da posição foi vendida na primeira semana de janeiro, quando o papel estava na casa dos R$ 40,00, e a outra parcela quando a ação entrou em rota de desvalorização, na faixa de R$ 35 a R$ 36, após a BRF apresentar resultados ruins no quarto trimestre de 2017 e aparecerem os primeiros questionamentos sobre a gestão da empresa.

Apesar de considerar que se trata de uma companhia com um portfólio interessante, com marcas ícones no mercado, caso de Sadia e Perdigão, e ter potenciais direcionadores de valor à frente, mesmo a R$ 24, ele diz não estar "desesperado para comprar". Conforme lista, no curto prazo, não há aparentemente uma solução simples, não se sabe por quanto tempo algumas plantas ficarão fechadas, se as exportações serão barradas ou ainda se a BRF vai ter que recorrer a uma capitalização para reduzir a alavancagem.

A percepção é que o cenário se desanuvie um pouco quando for eleito o novo conselho de administração, em abril, e a companhia comece a se reorganizar. "O ativo vale e as marcas valem. Não é nada que vá quebrar a empresa, longe disso. A questão é que está desarrumada."

Outro gestor que ainda tem BRF em carteira acha que a ação está barata e negocia na bolsa com desconto em relação ao seu valor intrínseco. "Mas não sabemos se vamos aumentar a posição, porque um evento desses mexe com os fundamentos de curto prazo", afirma. Vender os ativos não é uma hipótese que tenha sido cogitada. "Nesse patamar, em tese, é uma oportunidade de compra."

Para outro gestor de recursos que tem investimento em BRF, o novo capítulo da crise envolvendo a companhia não foi suficiente para mudar a estratégia da casa, nem no segmento de ações nem em crédito, cuja posição da gestora é ainda maior. A instituição aproveitou para aumentar a posição em ações na última onda de venda do papel, deflagrada pela movimentação de acionistas para destituição do conselho de administração e dos resultados considerados fracos.

"Estamos confortáveis com a posição, o papel já estava barato [quando compramos] e agora ficou de graça", diz. Na avaliação dele, as vendas de ações foram lideradas por fundos machucados com o desempenho ruim, pois têm que dar satisfações aos cotistas e não podem correr o risco do "imponderável". Ele se refere aos potenciais efeitos da investigação sobre fraude para operação da empresa, como a suspensão das exportações. Se o impacto for contido, ele ainda vê potencial de ganho, especialmente no longo prazo.

Já o gestor de patrimônio de um fundo familiar que chegou a ter 100% do patrimônio dessa carteira em BRF diz que já vinha ao longo do tempo desinvestindo para tornar o portfólio mais diversificado. Saiu de uma fatia superior a 45% no fim de novembro para menos metade disso.

Em relatório, o Itaú BBA destacou ter acompanhado encontros da administração da BRF com investidores na semana passada nos Estados Unidos e que ficou claro, para a equipe, que os estrangeiros viam a tese de investimento na BRF como "complicada", mas que não havia uma resistência relacionada à governança, diferentemente do caso de JBS. Para o banco, essa situação agora pode mudar.

Por Adriana Cotias, Alessandra Bellotto e Maria Luíza Filgueiras | De São Paulo

Fonte : Valor

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