Gado e arroz cedem terreno para a soja

A paisagem do Pampa gaúcho vive uma transformação sem precedentes nos últimos 50 anos. A chamada Metade Sul do Rio Grande do Sul, historicamente ocupada pela pecuária e a cultura do arroz irrigado cede espaço cada vez maior para a soja – e de maneira embrionária para videiras. A Federação da Agricultura do Rio Grande do Sul (Farsul) estima que 600 mil hectares de soja foram plantados nos municípios da região – como Candiota, Bagé, Hulha Negra e Don Pedrito, que há três anos computavam área média de 3 mil hectares do grão e saltaram para 80 mil hectares cada. A tradicional pecuária não consegue mais competir com outras culturas como a soja. Foi assim na Argentina, no Uruguai e agora no Brasil.

Vários fatores dão impulso à mudança, desde a evolução genética e descoberta de variedades de soja de ciclos indeterminados, passando pela demanda do mercado por esta proteína vegetal e, mais recentemente, pelo consumo de alimentos em ascensão na China e pela quebra de safra nos Estados Unidos que ajudaram a elevar o preço mundial da commodity. "Simplesmente, não tem volta", diz Gedeão Avancini Pereira, diretor da Farsul.

Cada hectare de soja rende ao produtor R$ 2,4 mil, considerando a produção de 40 sacas por hectare. Se forem 60 sacas/ha, o rendimento sobe para R$ 3,6 mil por hectare. A pecuária de corte garante cerca de R$ 200,00 por hectare. "Sempre digo que pecuária de corte só se faz no mundo onde não se consegue fazer outra atividade que não seja rentável no hectare", afirma Pereira.

Qual o futuro da pecuária gaúcha? Num horizonte de cinco a dez anos sobram dois caminhos: "Ou avançamos tecnologicamente para nos verticalizar ou a pecuária fatalmente vai diminuir", diz o dirigente da Farsul. "Se o produtor colher entre 35 e 40 sacas de soja por hectare neste ano, que não é nada excepcional, ele vai continuar investindo", sinaliza. Segundo Gedeão, a soja já chega com sistema de irrigação por pivô central. O Rio Grande do Sul tem hoje um plantel de aproximadamente 14 milhões de cabeças, considerado estável nos últimos anos. Desse total, entre 11 milhões e 12 milhões são de pecuária de corte.

Sob o ponto de vista genético, a pecuária está em um processo conhecido como britanização de animais – uma exigência do mercado por carnes de origem britânica, de raças como Aberdeen Angus, Hereford e Shorthon para atender paladares mais refinados. Até pouco tempo atrás, restaurantes e churrascarias de alto padrão de São Paulo e outros Estados abasteciam-se na Argentina. Ocorre que mudanças políticas internas no país vizinho motivaram a redução do plantel de 52 milhões para 40 milhões de cabeças, além da perda de qualidade com o deslocamento dos rebanhos para as províncias da região Norte e, ainda, o contingenciamento nas exportações.

"Isso fez com que o Brasil olhasse para cá em busca dessa carne, atraindo grandes frigoríficos que passaram a remunerar bem o produtor, principalmente aqueles que possuem animais jovens", explica Gedeão. Cerca de 50 mil novilhos são levados para o centro do país anualmente. O preço da arroba subiu. Alcança entre R$ 104 e R$ 105 no Estado e R$ 97,00 em São Paulo. Vale mais do que as raças continentais, como a Charolês, Limousin e Normando. O gado gaúcho começa a ficar todo preto e com a cara branca.

O Estado prepara-se para colher perto de 12 milhões de toneladas de soja, um aumento de 25% sobre a média histórica das últimas safras. Muito além dos minguados 4 milhões de toneladas da safra passada, fortemente atingida pela seca. "Este ano tivemos somente uma leve estiagem", festeja Jorge Rodrigues da Farsul, lembrando que a última safra "normal" foi a de 2010/2011.

"A nossa economia ainda depende muito da agricultura. É o carro-chefe da quase totalidade dos municípios gaúchos", observa Rodrigues. De acordo com a Fundação de Economia e Estatística (FEE), a agropecuária representa menos de 10% do PIB gaúcho. A agricultura familiar no Estado conta com mais de 400 mil estabelecimentos, que ocupam uma área superior a 6 milhões de hectares. "Temos vocação para produzir alimentos", diz o dirigente da Farsul.

O trigo gaúcho, relegado há décadas por grande parte dos moinhos brasileiros para a produção de pães – por causa da pecha de má qualidade – já atingiu o mesmo patamar de excelência do trigo argentino, líder na preferência industrial. "Até pouco tempo atrás, 80% do cultivo do cereal era do tipo brando; atualmente 80% são de trigo duro, o mesmo importado da Argentina", conta Sérgio Dotto, chefe do escritório da Embrapa de Passo Fundo. Fora o câmbio, todavia, o principal entrave para adquirir o trigo gaúcho é o elevado custo logístico. Como a maioria dos grandes moinhos está situada na costa brasileira – alguns ao lado ou mesmo dentro de zonas portuárias – é mais vantajoso para eles trazer da Argentina (ou até dos Estados Unidos, como pleiteiam moinhos do Nordeste).

Com mais de 30 anos de experiência no mercado, o consultor Luiz Carlos Pacheco, dono do site trigo&farinha.com faz o cálculo: o frete médio de transporte marítimo da Argentina para a costa brasileira é de R$ 22 a tonelada. Já para levar o trigo produzido em Carazinho ou Passo Fundo para moinhos do Rio de Janeiro, Bahia e Minas Gerais (a mesma tonelada via rodoviária) custa R$ 160. Até Fortaleza sobe para R$ 300. Ou seja, o maior obstáculo que os gaúchos enfrentam é estar no extremo sul do país e a 300 km do Porto do Rio Grande. Mas mesmo que chegasse ao porto, ainda assim o trigo gaúcho sofreria com o transporte de cabotagem: não há embarcações de bandeira brasileira para transportar o cereal. "É inviável levar o trigo do Rio Grande do Sul para a região Sudeste. O trigo do Paraná vai por rodovia até São Paulo por causa da distância entre os Estados", explica Pacheco.

O Rio Grande do Sul poderia produzir, hoje, 6 milhões de toneladas de trigo, o suficiente para atender toda demanda interna do país. Produz 2,5 milhões e utiliza no inverno (é uma cultura típica de inverno) apenas um terço dos cerca de 5,5 milhões de hectares disponíveis na estação. "Fizemos um cálculo e chegamos a conclusão: se usássemos 3 milhões de hectares poderíamos colher 6 milhões de toneladas. E o curioso é que, fora o trigo, a triticale, a cevada e o centeio, nós não temos alternativa em grande escala para esta região fria do Estado", informa o chefe da Embrapa Passo Fundo "Nosso trigo, exceto quando chove na colheita, é tão bom ou até melhor do que o da Argentina", ressalta Dotto, que estimula os triticultores a comercializar o trigo na África, que importa por ano US$ 15 bilhões do cereal. "É mais barato do que levar para São Paulo", avisa.

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Fonte: Valor | Por Guilherme Arruda | Para o Valor, de Porto Alegre

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