G-20 muda foco para encarar novo nível de preços agrícolas

Até 2007, o custo do milho mal aparecia no radar dos líderes mundiais mais destacados, normalmente mais interessados em geopolítica. Mas essa falta de interesse pelas commodities alimentares mudou abruptamente – e isso transparece no México, que desde ontem, e durante toda a semana, sedia a reunião de cúpula do G-20, em Los Cabos.

A alta da cotação do milho desencadeou uma significativa elevação do preço da tortilla, um alimento básico no país. As revoltas populares causadas pela alta da tortilla marcaram o início do que se tornou uma grande crise alimentar global entre 2007-2008. Desde então, o México e outros países do G-20 incluíram em suas agendas o crescente problema representado pela escalada dos preços das commodities agrícolas, sua volatilidade e os reflexos dessa conjunção para a economia global.

A segurança alimentar, que há muito preocupava apenas os defensores de subsídios e os ministros da Agricultura, é alvo agora de discussões acaloradas entre os dirigentes do G-20. "O significativo aumento dos preços dos alimentos reconduziu a agricultura à agenda política", diz Frank Rijsberman, dirigente do Consórcio dos Centros Internacionais de Pesquisa Agrícola, uma rede respaldada por países doadores como EUA, Reino Unido e Alemanha.

O G-20 receberá uma avaliação completa da situação. Um grupo de instituições da Organização das Nações Unidas (ONU), entre os quais Banco Mundial e Organização para a Alimentação e Agricultura (FAO), escreveram um relatório encaminhado aos dirigentes do grupo advertindo que "a agricultura mundial enfrentará várias dificuldades durante as próximas décadas".

Segundo o relatório, a agricultura precisa, entre outras coisas, produzir mais alimentos, contribuir para o desenvolvimento geral e para a redução da pobreza, fazer frente ao acirramento da competição por usos alternativos de recursos finitos, como terra e água, e se adaptar à mudança climática. Os preços dos alimentos se estabilizaram recentemente, mas seguem muito mais elevados do que no passado. O índice de preços dos alimentos da FAO marcava, recentemente, 204 pontos, ante os 127 pontos de 2006. Nos últimos dois anos, o indicador ficou sempre próximo dos 200 pontos.

Cinco anos após as altas deflagradas em 2007, a reação dos governos está evoluindo. A resposta inicial do G-20 – e de seu predecessor, o G-8 – era combater a situação emergencial criada pelo aumento dos custos com alimentação. As incertezas vindas da ponta do abastecimento e a disparada dos preços – que gerou a primeira crise alimentar em 30 anos – empurrou milhões de pessoas da África Subsaariana e da Ásia à pobreza e desencadeou revoltas populares que levaram ao colapso de governos desde o Haiti até Madagascar.

A escalada dos preços do trigo e da cevada após a quebra da safra em antigos membros da União Soviética como Rússia, Ucrânia e Cazaquistão, em meados de 2010, agravou a situação emergencial ainda mais. O número de pessoas que sofrem de fome crônica subiu para 1 bilhão após a crise alimentar de 2007-2008, segundo a FAO. Isso representou um golpe mortal para a meta de reduzir à metade o contingente de famintos da população mundial até 2015.

Esse aumento despertou os dirigentes para o fato de que a ajuda alimentar custaria muito mais do que no passado. O Programa Mundial de Alimentos, por exemplo, gastou US$ 3,6 bilhões em 2011 em ajuda a pessoas famintas, 44% mais que a soma anterior à crise alimentar (US$ 2,5 bilhões). Os gastos atingiram o pico de US$ 5 bilhões em 2008. Mas, já que a era das cotações elevadas parece ter vindo para ficar, o foco do G-20 migra lentamente do combate a emergências para a abordagem do problema de longo prazo.

A mudança começou em 2009, quando o G-8 e outros países lançaram o programa conhecido como "Iniciativa de Segurança Alimentar de L’Aquila" – em homenagem à cidade italiana onde se realizou a reunião de cúpula -, que se concentrou em investimentos de longo prazo em agricultura no mundo em desenvolvimento. A iniciativa do G-8 reforçou o novo enfoque de Washington de combater a fome mundial, que reverteu uma política de duas décadas concentrada, quase exclusivamente na ajuda alimentar.

Hillary Clinton, secretária de Estado dos EUA, disse na época: "Por um período longo demais nossa resposta primordial [para combater a fome] foi enviar ajuda emergencial no auge da crise (…) Isso salva vidas, mas não resolve as causas fundamentais da fome.". O G-20 está aprofundando a mudança rumo ao investimento na agricultura de longo prazo, especialmente na África.

A crise econômica, que está obrigando os membros do G-20 a apertar o cinto em todas as áreas, é um grave obstáculo. A Casa Branca pressiona em favor de um envolvimento maior por parte do setor privado. A ideia será discutida em Los Cabos, segundo autoridades do G-20. O relatório das instituições da ONU adverte: "Os investimentos do setor privado continuam baixos no mundo em desenvolvimento, e a pesquisa agrícola continua a ser financiada, sobretudo, pelos governos."

Mas uma guinada a partir do respaldo público para um maior envolvimento do setor privado também tem seus críticos. Eles se preocupam com a possibilidade de as áreas mais pobres da África serem esquecidas. Sem investimentos privados, o dinheiro público pode não chegar a esses países, devido às restrições nos orçamentos. (Tradução de Rachel Warszawski)

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Fonte: Valor | Por Javier Blas | Financial Times

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