Futuro do pequeno citricultor em xeque

A forte crise que atinge a citricultura brasileira parece não ter fim. Cinco anos após o início das turbulências na economia mundial que intensificaram a dramática – e quase ininterrupta – queda da demanda global por suco de laranja, São Paulo passou por um ajuste que já reduziu em mais de 15% o número de pés de laranja no Estado. O processo, é claro, afetou principalmente os produtores de menor porte.

Apesar de um enxugamento da oferta de tamanha proporção, obter renda não é e nem será um desafio trivial para a citricultura, indica um estudo da consultoria MBAgro encomendado pela CitrusBR, entidade que representa as três maiores indústrias de suco do Brasil.

O estudo, antecipado ontem pelo Valor PRO, serviço em tempo real do Valor, foi protocolado no Conselho Administrativo de Defesa Econômica (Cade) na semana passada, no âmbito das discussões para a criação do Consecitrus, entidade que vem sendo costurada há anos para ordenar as relações na cadeia produtiva.

"A avaliação criteriosa dos custos de produção tornou claro que a cadeia não consegue remunerar a produção agrícola se não for tomado um nível tecnológico elevado", aponta o estudo da consultoria. Pelas projeções da MBAgro, seria necessário aumentar a produtividade média em São Paulo para cerca de 1 mil caixas de laranja por hectare. Só a partir desse nível seria possível tornar a produção rentável, diz o economista Alexandre Mendonça de Barros, sócio-consultor da MBAgro.

Atualmente, cerca 60% da área plantada com laranja no cinturão citrícola de São Paulo e Triangulo Mineiro têm baixa produtividade, com média de 593 caixas por hectare, conforme o estudo. Em contrapartida, há um grupo de produtores – notadamente, os de grande porte e os pomares próprios da indústria – que ocupa 41% da área e obtém uma produtividade média de 1.215 caixas por hectare.

Conforme o estudo, a crise da citricultura só pode ser explicada por uma conjunção de fatores que nem sempre estão sob o controle do segmento. "A cadeia agroindustrial da laranja sofreu uma perda de competitividade alheia aos esforços dos produtores e das indústrias que fez com que o nível tecnológico tivesse que subir para reduzir o custo unitário de produção", afirma a MBAgro, no documento.

Entre os principais fatores está a valorização da moeda brasileira, que só começou a ser revertida nos últimos dois anos. "Os custos em reais subiram muito", diz Mendonça de Barros. Basicamente, o economista se refere ao aumento dos custos com mão de obra e à forte elevação dos preços de agrotóxicos. Não bastasse isso, os pomares tiveram maior incidência de doenças, o que ampliou os gastos com tratos culturais.

De certa forma, argumenta o economista, o setor não conseguiu reagir. No caso da laranja, a produtividade do trabalho não evolui, devido à impossibilidade de mecanizar a colheita, diz. Nesse contexto, estratégia para tentar compensar o custos foi elevar o preço de laranja, que até hoje está acima da média histórica na bolsa de Nova York. "Com o real valorizado e o aumento de custos, o preço em dólar subiu muito para compensar", afirma.

Mas a estratégia de elevar preços foi um tiro no pé. Deflagrada no auge da crise econômica global, intensificou a queda da demanda nos países desenvolvidos – principais clientes do suco de laranja produzido no Brasil – e impediu a chegada do suco aos países emergentes, que apresentavam maior dinamismo econômico à época.

Ao elevar o preço do suco, o Brasil abriu uma "janela para a entrada de concorrentes no mercado internacional de sucos que em uma década já foi invadido pela oferta chinesa a preços competitivos de laranja e suco de maçã", constata o estudo. De 2003 a 2012, o consumo global em equivalente de suco de laranja congelado e concentrado (FCOJ, na sigla em inglês), caiu 12,3%, para 2,1 milhões de toneladas, segundo o centro de pequisa paulista Markestrat.

Não à toa, o processo resultou na redução do número de produtores de laranja no Estado. Conforme os dados da Secretaria de Agricultura do Estado de São Paulo, que têm como base o relatório de inspeção de greening, o número de pés de laranja no Estado caiu 16,25% entre 2008 e 2013, para 181,4 milhões. Num indicativo de que os produtores de menor porte foram os que mais sofreram, o número de propriedades que produzem caiu ainda mais – 31,3% – a 13,4 mil.

Na avaliação de Mendonça de Barros, esse "ajuste estrutural" está perto do fim. "Acho que já passamos da fase mais difícil. Estamos perto de um equilíbrio entre oferta e demanda", afirma. Isso não significa, porém, que o produtor conseguirá rentabilidade se tiver um nível de produtividade abaixo de 1 mil caixas por hectare. "O fundo do poço já passou, mas isso não muda em nada a exigência de um nível de produtividade mínimo", pondera.

É nesse ponto, aliás, que reside aquele que talvez seja o principal entrave para o futuro e para harmonizar as relações entre produtores e indústria no Consecitrus – até semana passada, havia a expectativa de que a criação da entidade fosse avaliada pelo Cade na sessão de amanhã, mas fontes do setor já admitem que a decisão final do órgão antitruste pode atrasar.

Afinal, seria possível ampliar a produtividade da maior parte da citricultura nacional para o nível mínimo considerado no estudo da MBAgro? "Não sei se você tem espaço para uma oferta ainda maior", responde Alexandre Mendonça de Barros, num indicativo de que tendência é que mais produtores deixem a atividade. Não bastasse esse entrave, a tarefa de elevar a produtividade exigiria investimentos, o que boa parte dos citricultores hoje está impedida de fazer por estar descapitalizada.

Fonte : Valor | Luiz Henrique Mendes | De São Paulo