Furlan busca acordo para pôr fim à disputa na BRF

Regis Filho/Valor

Luiz Fernando Furlan: Ideia de uma chapa de conselho não foi de Abilio Diniz

Ainda vislumbrando um acordo do empresário Abilio Diniz com as fundações Petros e Previ, o ex-ministro e herdeiro da Sadia Luiz Fernando Furlan convocou a imprensa ontem para reforçar a intenção de atuar como o "pacificador" da BRF. Em entrevista coletiva, por telefone, que durou quase uma hora, o ex-ministro e possível presidente do novo conselho de administração da BRF disse que, a despeito do "ressentimentos" entre as partes, não é impossível fechar um acordo, inclusive no dia da assembleia, em 26 de abril.

"Acho que é possível se chegar a algum tipo de acordo. Trabalho para isso", afirmou Furlan, mesmo reconhecendo que na semana passada as conversas dos fundos de pensão com a Península Participações, veículo de investimento de Abilio, foram interrompidas. Nos bastidores, o ex-ministro não é o único esperançoso. Ao Valor, uma fonte afirmou que um desfecho "surpreendente" está no radar. Segundo essa mesma fonte, uma saída negociada para o imbróglio pode avançar ainda esta semana – amanhã, o conselho de administração se reunirá, lembrou a fonte.

Em outro trecho da entrevista, no qual enfatizou a complexidade e raridade da eleição por voto múltiplo, Furlan citou a possibilidade de retirada do pedido de voto múltiplo. De acordo com ele, o conselho de administração da BRF se reunirá na quinta-feira porque é preciso estar preparado para as inúmeras possibilidades da assembleia. "Quem vai presidir [a assembleia] precisa ter treinamento para uma situação inusitada. Até com a possibilidade de retirada do voto múltiplo e volta de duas chapas. Há muita insegurança em relação ao que pode acontecer", ponderou.

Independentemente do cenário que marcará a assembleia, o ex-ministro lamentou o conflito societário. "A disputa de blocos tem que terminar na assembleia e ponto. A partir daí, os membros do conselho são representantes de todos [os acionistas]", afirmou o ex-ministro, que é o 15º maior acionista da BRF, com pouco mais de 1% do capital. Juntos, Petros e Previ têm 22%. Aliada das fundações, a gestora Aberdeen tem 5%. Abilio tem quase 4%.

Mas Furlan também admitiu que o atual conselho da BRF, do qual ele faz parte, pode ter errado ao propor uma chapa alternativa ao colegiado sem consultar previamente os envolvidos. Na semana passada, quatro executivos solicitaram a exclusão de seus nomes da chapa. Eles só haviam concordado em participar da chapa apresentada pelas fundações.

"Infelizmente, talvez tenha sido uma falha, mas o que não invalida a intenção", afirmou, alegando falta de tempo hábil para a consulta antecipada. O objetivo, disse, era apresentar uma chapa de "convergência", 70% idêntica à das fundações, mas com novo presidente – o próprio Furlan. A proposta não soou bem para as fundações. Na visão dele, a proposta foi apresentada de modo errado pela imprensa. "Foi falado em chapa do Abilio. Quem presenciou as reuniões [do conselho] sabe que a ideia de uma chapa do conselho não foi do Abilio", disse.

Na entrevista, Furlan também disse que o clima entre os acionistas dificulta a resolução de outros problemas da BRF, que neste momento sofre com a impossibilidade de exportar para a União Europeia (ver texto acima). "Me dói muito ver essa disputa de poder que tem destruído valor num momento em que a empresa tem outros desafios muito mais diretos ligados ao negócio", afirmou Furlan.

Por mais de vez durante a entrevista, o ex-ministro disse manter boas relações com os atuais conselheiros da BRF, com os fundos de pensão e a Península. "Vocês sabem que sou isento. Me dou bem com os diversos segmentos de acionistas".

Por outro lado, o ex-ministro também fez críticas veladas aos nomes indicados pelas fundações Petros e Previ para o novo conselho da BRF. As fundações defendem o nome de Augusto Cruz, que é o presidente do conselho da BR Distribuidora, para o comando do novo colegiado da BRF.

Agora, disse Furlan, os acionistas da companhia terão a oportunidade de eleger conselheiros que conheçam a longa cadeia produtiva da BRF – que vai da incubação de ovos até o processamento da carne. Para dar uma dimensão das dificuldades em gerir a companhia, afirmou que a BRF é a maior produtora de ração do país e abate cerca de 7 milhões de aves por dia. Disse ainda que produzir alimentos processados "não é igual a um produto petroquímico".

Com essa avaliação, o ex-ministro propôs três candidatos para o conselho de administração da BRF. Os nomes sugeridos são o ex-ministro da Agricultura Roberto Rodrigues, Luiza Helena Trajano, dona da Magazine Luiza, e Vicente Falconi, consultor especializado em reestruturação da companhias (ver CVM condenou Falconi e Luiza em caso da Sadia).

Além das sugestões para o novo colegiado da BRF, Furlan também defendeu a continuidade da atual diretoria-executiva da BRF, liderada pelo CEO José Aurélio Drummond desde dezembro. Segundo o ex-ministro, os planos do atual CEO para a empresa foram apresentados em fevereiro ao conselho de administração. Na ocasião, segundo Furlan, todos – inclusive os conselheiros indicados pela Petros e pela Previ – gostaram do plano.

Por Luiz Henrique Mendes | De São Paulo

Fonte : Valor

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