Fundo da ONU busca ampliar suas parcerias no país

O corte dos gastos do governo brasileiro tem acelerado a estratégia do Fundo Internacional de Desenvolvimento Agrícola (Fida), da ONU, de buscar parcerias com bancos públicos e com a iniciativa privada para manter e ampliar o apoio a projetos com pequenos agricultores no país.

A realização de ações conjuntas com empresas para promover a agricultura de pequena escala continua a ser uma tendência da agência não só no Brasil. De forma geral, o Fida tem procurado alternativas diante da restrição da capacidade de investimento dos países por causa da crise econômica internacional.

O fundo de investimento conta atualmente com uma carteira de US$ 453 milhões no Brasil, que envolvem ações que atendem a cerca de 270 mil famílias nos Estados de Bahia, Ceará, Piauí, Paraíba, Sergipe. Os recursos estão aplicados em seis projetos agrícolas no semiárido, ainda em fase inicial. Um terço do valor emprestado corresponde a aportes do próprio Fida e dois terços são provenientes dos governos federal e estaduais e de algumas contribuições dos próprios beneficiários.

A agência planeja, agora, expandir sua presença no país por meio de dois novos projetos que serão realizados pela primeira vez fora do semiárido. Um dos aportes, no Maranhão, será de US$ 40 milhões e terá foco na redução da pobreza. O outro, também de US$ 40 milhões, será em Pernambuco, com os objetivos de transformar antigos canaviais em lavouras de produtos regionais e de estimular o cultivo de hortifrútis no Agreste do Estado.

O aporte no Maranhão foi acordado com o governador Flavio Dino em dezembro, mas o fundo da ONU negocia fazer o investimento não com o governo estadual, mas em conjunto com bancos públicos. "Estamos considerando um memorando de entendimento para a possibilidade de o BNDES cofinanciar o projeto, mas não há nada finalizado", disse Paolo Silveri, gerente de Programas do Fida no Brasil. Além desses projetos, previstos para os próximos dois anos, o Fida pretende doar US$ 2,5 milhões para a Embrapa adaptar suas tecnologias à agricultura familiar, e tem à disposição US$ 12,5 milhões sem destino certo.

Para entrar com a contraparte no financiamento de novos projetos, o fundo da ONU está em "negociações avançadas" também com o Banco do Nordeste, com o Banco da Amazônia e com a Superintendência de Desenvolvimento do Nordeste (Sudene). Esses planos de expansão estão vinculados à perspectiva de parcerias com a iniciativa privada, que pela primeira vez constarão no novo plano estratégico do fundo, que será divulgado em abril.

Uma das possibilidades de atuação conjunta com o setor privado é a entrada do Fida como negociador para que pequenos agricultores sejam fornecedores de grandes grupos de agronegócio. O objetivo do fundo é garantir aos pequenos agricultores acesso ao mercado, "nivelando a assimetria" entre as duas partes, de acordo com Silveri.

Essas grandes empresas parceiras serão escolhidas a partir da plataforma do Pacto Global das Nações Unidas, que no Brasil reúne mais de 700 companhias que seguem normas de responsabilidade social e ambiental definidas pela ONU e que passou a contar com a participação do Fida em fevereiro. A aproximação com o setor privado acontece em escala global, como realçou Kanayo Nwanze, presidente do Fida, em recente encontro com jornalistas em Roma.

Costurar as parcerias no Brasil e ajustar o foco das ações dos dois novos projetos, porém, ainda levará tempo. A expectativa é que os projetos no Maranhão e em Pernambuco entrem em execução só em 2017. Segundo Silveri, os projetos costumam demorar para entrar em operação por causa da complexidade burocrática para implementar esses financiamentos no país. "Como os empréstimos criam dívida soberana, o legislativo tem que ratificar", afirmou o executivo do Fida.

A jornalista viajou a convite da Thomson Reuters Foundation e do IFAD

Por Camila Souza Ramos | De Roma

Fonte : Valor

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